AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

"Penso poder dizer que 'Deus na Escuridão' é, acima de tudo, um manifesto sobre o poder transformador da infância." Foto: Direitos reservados

[Dicionário particular II]

‘d’ de Deus – Deus na Escuridão, uma sugestão de leitura

| 17/09/2025

 

Há livros que não se limitam a contar uma história, atravessam-nos. Deus na Escuridão, de Valter Hugo Mãe, devolveu-me à infância. Não como nostalgia, mas como revelação.

Este romance constrói-se através da voz de Felicíssimo, uma criança que ama com uma coragem quase divina. É uma viagem à origem dos afetos, à descoberta do mundo através dos olhos de uma criança que ama sem reservas.

A narrativa desenha-se como um regresso constante à inocência, à capacidade de nos maravilharmos, à coragem de amar, sem rede, sem garantias. O autor construiu um universo onde o amor é mais forte do que o medo, onde a fragilidade é o lugar mais sagrado da existência: é na infância que se aprende a esperar, a sofrer com o outro, a desejar que o mundo seja menos cruel.

No livro, a infância não é apenas uma fase da vida, é uma forma de estar e ser. Felicíssimo não compreende o mundo através da lógica adulta, mas através da sensibilidade, sendo, precisamente, essa sensibilidade que o torna maior do que os adultos à sua volta. Ele ama como uma mãe, como um Deus, não o Deus distante, das religiões, mas o Deus que espera, que sofre, que ama sem medida.

Felicíssimo é irmão de Pouquinho, uma criança que nasce “sem as origens”, marcada pela diferença e pela vulnerabilidade. E enquanto os adultos se envergonham, escondem, tentam silenciar, Felicíssimo aproxima-se do irmão com espanto e ternura. É ele quem vê, quem acolhe, quem protege. E é nesse gesto que iniciamos a verdadeira viagem do romance: uma travessia emocional que nos leva de volta à infância, ao tempo em que amar era instintivo, absoluto, sem cálculos.

Valter Hugo Mãe escreve com uma delicadeza que transforma cada frase numa oração. A sua linguagem é poética, íntima, quase um sussurro. Não há pressa na narrativa, há contemplação. Cada memória, cada gesto, é uma revelação. O cenário do romance é a ilha da Madeira, o que se torna numa espécie de prolongamento da infância: isolada, íngreme, cheia de recantos onde se escondem medos e esperanças.

Penso poder dizer que Deus na Escuridão é, acima de tudo, um manifesto sobre o poder transformador da infância que, ao contrário do que se pensa, não é um tempo de ignorância, mas de sabedoria instintiva: Felicíssimo compreende o mundo melhor do que qualquer adulto porque vê com o coração, e é através desse olhar que encontramos Deus, não no dogma, mas na ternura, na entrega e na coragem de amar o que é frágil.

Na minha opinião, talvez aqui esteja o maior ensinamento de Valter Hugo Mãe: amar como uma criança é amar como Deus. Na escuridão, sim, mas com luz por dentro.

Aqui fica a sugestão de leitura. Valter Hugo Mãe é brilhante, genial!

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Papa está a recuperar bem e envia mensagem aos participantes sobre a Amoris Laetitia

Pós-operatório

Papa está a recuperar bem e envia mensagem aos participantes sobre a Amoris Laetitia novidade

A Sala de Imprensa da Santa Sé informou hoje, 14 de outubro, que o Papa realizou os exames de sangue e a radiografia ao tórax programados após a cirurgia a que foi submetido na noite de 13 de outubro para remover o lobo inferior do pulmão direito. A operação, que permitiu confirmar o diagnóstico de cancro, durou uma hora e meia e obrigou o Papa a permanecer no bloco operatório por cerca de três horas.

Leão XIV: “Por mais ferida que uma família possa estar, pode sempre crescer a partir do amor”

Dez anos depois da "Amoris laetitia"

Leão XIV: “Por mais ferida que uma família possa estar, pode sempre crescer a partir do amor” novidade

Não foi Leão XIV quem pronunciou a frase, mas foi ele quem a escreveu: “Por mais ferida que uma família possa estar, pode sempre crescer a partir do amor.” As palavras faziam parte da homilia preparada pelo Papa para a missa de encerramento do encontro internacional sobre os dez anos da Amoris laetitia, esta quarta-feira, 14, no Vaticano, mas acabaram por ser lidas pelo cardeal Luis Antonio Tagle.

O conflito israelo-palestiniano

[Entre Margens]

O conflito israelo-palestiniano novidade

Os trágicos acontecimentos que se sucederam a sete de outubro de 2023, que muitas instituições internacionais credíveis não temem chamar genocídio, provocaram em mim uma urgente necessidade de me informar melhor acerca do conflito israelo-palestiniano e das suas causas profundas. O que vim a descobrir alterou significativamente a minha posição face a este conflito. [Texto de Jorge Paulo].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.