Há livros que não se limitam a contar uma história, atravessam-nos. Deus na Escuridão, de Valter Hugo Mãe, devolveu-me à infância. Não como nostalgia, mas como revelação.
Este romance constrói-se através da voz de Felicíssimo, uma criança que ama com uma coragem quase divina. É uma viagem à origem dos afetos, à descoberta do mundo através dos olhos de uma criança que ama sem reservas.
A narrativa desenha-se como um regresso constante à inocência, à capacidade de nos maravilharmos, à coragem de amar, sem rede, sem garantias. O autor construiu um universo onde o amor é mais forte do que o medo, onde a fragilidade é o lugar mais sagrado da existência: é na infância que se aprende a esperar, a sofrer com o outro, a desejar que o mundo seja menos cruel.
No livro, a infância não é apenas uma fase da vida, é uma forma de estar e ser. Felicíssimo não compreende o mundo através da lógica adulta, mas através da sensibilidade, sendo, precisamente, essa sensibilidade que o torna maior do que os adultos à sua volta. Ele ama como uma mãe, como um Deus, não o Deus distante, das religiões, mas o Deus que espera, que sofre, que ama sem medida.
Felicíssimo é irmão de Pouquinho, uma criança que nasce “sem as origens”, marcada pela diferença e pela vulnerabilidade. E enquanto os adultos se envergonham, escondem, tentam silenciar, Felicíssimo aproxima-se do irmão com espanto e ternura. É ele quem vê, quem acolhe, quem protege. E é nesse gesto que iniciamos a verdadeira viagem do romance: uma travessia emocional que nos leva de volta à infância, ao tempo em que amar era instintivo, absoluto, sem cálculos.

Valter Hugo Mãe escreve com uma delicadeza que transforma cada frase numa oração. A sua linguagem é poética, íntima, quase um sussurro. Não há pressa na narrativa, há contemplação. Cada memória, cada gesto, é uma revelação. O cenário do romance é a ilha da Madeira, o que se torna numa espécie de prolongamento da infância: isolada, íngreme, cheia de recantos onde se escondem medos e esperanças.
Penso poder dizer que Deus na Escuridão é, acima de tudo, um manifesto sobre o poder transformador da infância que, ao contrário do que se pensa, não é um tempo de ignorância, mas de sabedoria instintiva: Felicíssimo compreende o mundo melhor do que qualquer adulto porque vê com o coração, e é através desse olhar que encontramos Deus, não no dogma, mas na ternura, na entrega e na coragem de amar o que é frágil.
Na minha opinião, talvez aqui esteja o maior ensinamento de Valter Hugo Mãe: amar como uma criança é amar como Deus. Na escuridão, sim, mas com luz por dentro.
Aqui fica a sugestão de leitura. Valter Hugo Mãe é brilhante, genial!
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










