Ainda alguém ouve gritos como o do Papa Francisco? Nesta quinta-feira, 9 de Janeiro, no seu discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, o Papa enumerou alguns dos principais desastres do mundo e disse, em tom dramático: “Não podemos continuar indiferentes a tudo isto! Não temos esse direito!” [ver notícia noutro texto do 7MARGENS]
Francisco falava a diplomatas, mas a sua mensagem destina-se também aos católicos. E onde estão os católicos nas questões identificadas pelo Papa – e, desde logo, na busca da paz e na proposta de outra lógica que não a da corrida aos armamentos? E onde está a voz dos bispos (em Portugal, na Europa…) em secundar os veementes e contínuos apelos do Papa, mesmo quando se percebe que ele está quase sozinho, mesmo sujeito a críticas muito injustas?
Tomemos o recente exemplo da guerra que Israel conduz em Gaza. No livro A Esperança Nunca Desilude, publicado em meados de Novembro, Francisco afirma: “O que está a acontecer em Gaza, que segundo alguns especialistas parece ter as características de um genocídio, deve ser cuidadosamente investigado.”
O Papa limitou-se a uma afirmação cautelosa, mas desde então, vários grupos e personalidades do mundo judaico criticaram-no veementemente; essas críticas subiram de tom quando, um mês depois, um presépio oferecido por artesãos de Belém, com um Menino Jesus embrulhado no tradicional lenço palestiniano, foi colocado e depois retirado no Auditório Paulo VI, no Vaticano, entre explicações atabalhoadas por parte da Santa Sé.
Abuso da memória do Holocausto

Padre Gabriel Romanelli, pároco católico de Gaza, a observa a destruição provocada pelos bombardeamentos: os apelos do Papa têm sido muito pouco secundados no mundo católico. Foto: Direitos reservados.
Nem todos os judeus alinham por essas críticas, obviamente. Pelo contrário, há mesmo quem seja ainda mais crítico do que Francisco na condenação do horror que Israel tem provocado diariamente em Gaza, justificando-o com o horror provocado pelo Hamas com os atentados de 7 de Outubro de 2023.
Esta afirmação, por exemplo: “A forma como o Governo israelita está a usar a memória do Holocausto, para justificar aquilo que estão a fazer aos palestinianos é um completo insulto para a memória do Holocausto e é repugnante. Quando eu vi o embaixador israelita das Nações Unidas colocar uma estrela amarela (ao peito) causou voltas ao estômago, para alguém, como eu e a minha família inteira, que teve de usar uma, isso é insultuoso. Aquilo que distingue o Holocausto judeu é a sua escala industrial, e os métodos industriais que foram usados. E aquilo que está a acontecer em Gaza é semelhante em termos de escala, dos bombardeamentos, e a forma indiscriminada dos bombardeamentos, e o total desprezo por crianças e mulheres, que são a maioria das vítimas, o que evidencia a escala industrial do genocídio.”
A frase é de Stephen Kapos, um judeu de 87 anos, um dos muitos sobreviventes do Holocausto que – escrevia há dias o médico Gustavo Carona no Público – são peremptórios a afirmar: “O genocídio em Gaza não está a acontecer em meu nome”.
O texto, cuja leitura se recomenda vivamente, pelo seu quase lancinante apelo, em nome da humanidade, a que se ponha fim ao que está a acontecer em Gaza, é, sobretudo, uma pergunta dirigida à consciência de todos nós – portugueses, católicos, crentes ou não, cidadãos: estamos a ser cúmplices ou “como podemos levar Portugal a exigir o fim do genocídio em Gaza?”
Vamos por partes: perante a solidão que se pressente nos apelos e tomadas de posição do Papa sobre as guerras (Gaza, Ucrânia e muitas outras a que poucos dão atenção), qual tem sido o papel, por exemplo, dos bispos europeus (Conselho das Conferências Episcopais das Europa e Comissão dos Episcopados da União Europeia)? E dos bispos portugueses? Para além de curtas e esporádicas declarações, não se vê que haja qualquer empenho ou vontade em promover, por exemplo, uma reflexão séria, profunda e dinamizadora sobre o diálogo para a paz, o desarmamento do mundo, o alargamento da democracia ou a não-violência. Nem, sequer, iniciativas que mobilizem a opinião pública. Estes são temas fulcrais para o futuro da humanidade (e das nossas vidas), quando vemos a predominância de um discurso político cada vez mais belicista, não só vindo da Rússia, de Israel ou dos Estados Unidos, como também dos dirigentes da OTAN/NATO ou dos líderes da União Europeia e dos governos nacionais. Para além de declarações, que também são importantes, essa seria uma forma de se manifestarem do lado do Papa.
A responsabilidade das lideranças

Criança sentada entre as ruínas de uma escola no centro de Gaza. Foto © UNRWA/Fadi Thabet
No 7MARGENS, mesmo com a nossa pequena dimensão, temos procurado trazer esses temas para a informação e o debate. Em Junho, já lá vai meio ano, publicámos um estimulante texto de Nuno Caiado, que propunha várias iniciativas no âmbito diplomático, mas também por parte de comunidades cristãs e de outras religiões, com destaque para algumas que deveriam/poderiam ser dinamizadas pelo episcopado, tendo em conta o papel de liderança que cabe aos bispos católicos nas suas comunidades. Recordo algumas das sugestões do autor: um dia com as pessoas vestidas de branco, vigílias de oração para rezar pela diplomacia para a paz, celebrações ecuménicas e inter-religiosas, meio minuto de alarme sonoro (sinos, buzinas, sirenes, etc.) a nível nacional e com publicitação internacional, um abaixo-assinado, concursos para pequenos monumentos sobre a paz ou concertos pela diplomacia e pela paz.
O texto não teve respostas, mas vale a pena ser relido e retomado.
Esta reflexão não ilude, como recordava o texto já citado de Gustavo Carona, a responsabilidade pessoal de cada um(a) em processos de debate e mobilização contra a guerra (ou em temas como aqueles referidos pelo Papa). Mas obviamente, seja na expressão de convicções, seja no lançamento de dinamismos que levem à construção de uma forte opinião pública que contrarie o crescimento do ódio, do belicismo e da guerra, o papel das lideranças é fundamental. Neste caso, os responsáveis religiosos têm uma missão relevante, convocando as pessoas para dinâmicas, debates, processos e acções que surjam inspiradas e como tradução da sua fé na prática.
No caso dos católicos, a voz do Papa é importante, mas os bispos portugueses têm de se fazer ouvir mais e, sobretudo, têm de ser criativos na hora de fazer propostas – ou, simplesmente, acolher as que lhes são feitas, como aquelas sugeridas por Nuno Caiado.
Este papel, obviamente, não cabe só aos católicos por causa do Papa. Os restantes cristãos presentes em Portugal (evangélicos, protestantes, ortodoxos), mesmo sendo comunidades minoritárias, são também chamados a ser “construtores da paz”, na linha das bem-aventuranças do Evangelho. Para os cristãos, aliás (incluindo muitos ortodoxos russos) só pode ser um insulto à mensagem de Jesus ver as imagens do Patriarca Cirilo, de Moscovo, a abençoar ícones e cruzes para dar de “presente de Natal” aos soldados que Putin tem enviado para morrer ou matar na frente de guerra na Ucrânia.
É importante ainda alargar o olhar a outras duas comunidades crentes, no que a Gaza diz respeito: escutar mais vozes como a de Stephen Kapos, escutar mais vozes de judeus e muçulmanos a favor da paz e na recusa da violência é também importante. É doloroso que, por exemplo, no caso da Ucrânia, tenha sido difícil juntar cristãos russos e ucranianos em iniciativas várias de oração pela paz, realizadas em Portugal desde a invasão russa. É também doloroso que crentes no Deus único revelado a Abraão não surjam com mais clareza a rejeitar violência que, numa espiral infinita, só tem gerado mais violência – e que por vezes é feita em nome de Deus.
Pisar a inocência do povo
Uma música do argentino Léon Gieco, Sólo le pido a Dios, canta que “Só peço a Deus/ Que a guerra não me seja indiferente/ É um monstro grande e pisa com força/ Toda a pobre inocência do povo.” A música foi composta em 1978, quando Argentina e Chile estiveram à beira da guerra por causa do canal Beagle, retomada quatro anos depois, na guerra entre Argentina e o Reino Unido por causa das Malvinas/Falkland) e cantada já em múltiplas ocasiões simbólicas. Há pouco mais de um ano, Léon Gieco, a muçulmana sufi Nuri Nardelli e o Alma Sufi Ensemble, e o cantor judeu Gastón Saied, gravaram uma versão em espanhol, árabe e hebraico: “Três indiomas, um mesmo coração. E um mesmo pedido pela paz no Médio Oriente.”
A guerra e a violência têm de ter um fim imediato, porque a destruição de Gaza, os bombardeamentos da Síria ou do Iémen, os ataques militares ou de colonos às populações palestinianas da Cisjordânia não podem continuar. A ténue esperança de uma trégua ou de um acordo de cessar-fogo tem de se converter rapidamente em realidade. A guerra, como o Papa Francisco tem repetido, como já João Paulo II dissera a propósito do Iraque, é sempre uma derrota da humanidade. Com a guerra e a violência todos perdemos, com a paz e o diálogo todos ganhamos. A experiência de construção do que é hoje a União Europeia aí esteve durante décadas a prová-lo, mesmo se ameaçada nos últimos anos pelo crescimento do ódio, da xenofobia, do racismo e do desprezo dos diferentes, que julgávamos enterrados sob os escombros da Shoah e da Segunda Guerra Mundial.
Está tudo dito. Há muito tempo. Por exemplo, no Salmo 122: “Pedi, pedi a paz para Jerusalém. Prosperem aqueles que te amam; haja paz dentro das tuas muralhas,
tranquilidade nos teus palácios. Por amor dos meus irmãos e amigos, proclamarei: ‘A paz esteja contigo!’”
Post Scriptum – É muito positiva e louvável a iniciativa do bispo de Setúbal, Américo Aguiar, entregar uma carta ao Parlamento a pedir uma amnistia para presos – que, nas prisões portuguesas, sofrem muito mais do que a condenação a que foram sujeitos. A ideia traduz para Portugal a proposta do Papa a propósito deste ano jubilar de 2025. Já é pena que a iniciativa tenha sido solitária e que não se tenham dado, da parte do próprio e/ou dos restantes bispos, os passos necessários para haver uma proposta conjunta do episcopado católico português (ou até, porque não, juntando líderes de outras confissões religiosas). Uma tal proposta, bem formulada, teria muito mais peso simbólico e político. A sugestão do Papa já foi feita há largos meses, houve muito tempo para que os bispos tivessem preparado uma iniciativa consistente. O conselho permanente do episcopado promete discutir o assunto na próxima semana. Oxalá haja, agora, uma estratégia bem afinada.










