
“E assim vamos substituindo a contemplação de Deus e da criação pelo scrolling, e o diálogo pelos monossílabos do texting, numa perigosa regressão da humanidade na sua capacidade de ser inteiramente com e para os outros.” Foto © Tamara Malaniy / Unsplash
Agarrados ao smartphone e a todos os “devices” que nos são imprescindíveis com as vastíssimas sugestões à nossa medida, nem percebemos como transformamos paulatinamente a nossa vida e a nós mesmos num palco de consumo onde o desejo substitui a esperança.
Pelo algoritmo ficamos subordinados aos maravilhosos expedientes das ferramentas “inteligentes”: eficiência, imediatismo e “customização”, que, através de umas singelas preferências, nos fornecem tudo aquilo que precisamos, transformando os nossos desejos em necessidades que não podem esperar.
A gratificação diferida, eixo da esperança, perde terreno para a satisfação imediata, nomes do desejo, e nós tornamo-nos seus vassalos, impacientes, fátuos, fúteis e obviamente vazios de sentido.
Essa voracidade, como qualquer outra, engorda-nos e centra-nos em nós mesmos. Passamos a ser a medida de todas as coisas, tornando-nos cada vez menos capazes da alteridade cristã, isto é, de amar os outros e preferi-los a nós mesmos, que é o combustível da esperança.
Pelo contrário, o novo bezerro de ouro algorítmico cancela o outro e toda a diferença distanciando-nos da realidade inteira, polarizando posições e tornando-nos difícil sair de nós mesmos, perdendo a capacidade de aceitar os outros como eles são.
E assim vamos substituindo a contemplação de Deus e da criação pelo scrolling, e o diálogo pelos monossílabos do texting, numa perigosa regressão da humanidade na sua capacidade de ser inteiramente com e para os outros.
Desejo e esperança têm em comum a ausência do objeto e o movimento na sua direção. Ao orientarmos a nossa vida para coisas e ao abreviarmos o movimento do seu alcance, tornamo-nos progressivamente menos capazes de esperar o que não vemos e de o trazer para o presente num movimento de longo curso. Isso é a esperança cristã.
Nesta espera de Deus que nos é dado viver no tempo do advento, somos chamados a olhar para José e Maria a caminho de Belém. Esse caminho é todo feito de esperança cristã, de sermos conduzidos pelo que não vemos, mas intuímos com a força de um amor que nos sustenta. Pelo amor, esperamos; pelo amor, cremos. Por isso, a chave e o termómetro da esperança cristã são o amor como dom, que afirma seguro: “tu não morrerás”.
Que dificuldade seria hoje encontrar uma Maria que dissesse “sim” a Deus e fosse depois, grávida e cheia de pressa, ajudar a sua prima em fim de tempo!
Que difícil seria no nosso tempo encontrar um justo José, capaz de ler os sinais e receber Maria por esposa, em total castidade!
Como seria difícil José e Maria porem-se a caminho para Belém, na situação de gravidez avançada, sem cuidar previamente dos confortos mínimos; e como seria difícil aceitar sem amarguras, queixas e jogo de culpas a opção do estábulo para dar à luz!
No entanto, detendo-nos no caminho de Belém, o que encontramos é só suavidade, disponibilidade, aceitação, cuidado e luz. Mesmo no estábulo, o que vemos é José dando o seu melhor e Maria acolhendo com amor o que foi possível, o estábulo de Belém, o frio, os animais e Deus que ali quis nascer.
A tensão entre desejo e esperança é de todos os tempos e só é moderna a forma como se manifesta. Para um cristão, que se salva pela esperança (Rom. 8, 24), deixar o coração ser capturado por menos do que o próprio Deus é uma insensatez e uma tristeza. Porque Ele é a fonte da nossa alegria e a única razão da nossa esperança.
Que no Menino de Belém possamos encontrar a paz de sermos só para Ele, enchendo-nos de esperança e amor na Sua presença.
Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária. Contacto: dina.matosferreira@gmail.com








