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[À Margem]

A maldade de um homem contra o mundo – onde a empatia?

| 10/04/2025

 

Não se trata de um conflito comercial. É o reflexo da maldade e falta de empatia que habita o coração de um homem (haverá coração ali?). A imposição de tarifas a todos os títulos absurdas nas relações económicas entre os Estados Unidos e praticamente todos os países é uma guerra contra o mundo, disse o actual presidente americano, perante o Comité Nacional Americano do Congresso, na mesma ocasião em que voltou a usar, a propósito dos outros países que ele vê apenas como inimigos, a linguagem desprezível a que infelizmente já nos habituou.

Como é possível um homem sozinho colocar o seu país em guerra com o mundo inteiro? Pior ainda, quando esse homem brande a Bíblia para a fotografia, ou se faz retratar no início de reuniões supostamente a rezar em conjunto com o seu grupo de governantes-aduladores? A que Deus rezam aquele homem, ou o seu vice-presidente católico, convertido ao catolicismo há poucos anos (não, certamente, ao que se funda na universalidade e no evangelho)?

As perguntas adquirem mais sentido quando sabemos que o presidente dos EUA dá com um dedo aquilo que tira com as duas mãos: há quase dois meses, o inquilino da Casa Branca assinou com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, um acordo para, entre outras coisas, vender armas à Índia. Neste país, ainda há dias o Parlamento tomou mais uma decisão que agrava a marginalização e perseguição dos muçulmanos, como o 7MARGENS noticiou. (Curiosamente ou não, foi impossível publicarmos essa notícia no Facebook. Qual será a razão? Mera coincidência ou estarão os algoritmos das tecnológicas cada vez mais prisioneiros e ao serviço destes autocratas?)

Claro que para o presidente dos EUA, os muçulmanos são escória, como manifestou quando inventou as histórias de “milhares e milhares” de muçulmanos americanos terem aplaudido a destruição do World Trade Center em Nova Iorque, em 2001.

Mas ele gosta muito de se vangloriar dizendo que é um grande defensor da liberdade religiosa dos cristãos. E são cristãos muitas das vítimas de leis, medidas e atitudes discriminatórias por parte do Governo nacional e de vários governos estaduais na Índia, liderados pelo mesmo partido de Modi. Em 2014, o ano em que Modi ascendeu ao poder, houve 127 casos de violência contra cristãos e desde então todos os números sobre intolerância religiosa no país têm vindo a crescer, até chegar a 720 episódios, em 2024.

Donald Trump, Narendra Modi, Índia, EUA

O presidente dos EUA, Donald J. Trump (à direita) e o primeiro-ministro da Índia, NarendraModi, durante um encontro na Casa Branca, em 13 de Fevereiro de 2025. Foto © The White House/public domain, via Wikimedia Commons.

As armas que a Índia irá comprar aos Estados Unidos são armas que equiparão as mesmas autoridades que não actuam contra a perseguição, discriminação e assassínios de muçulmanos e cristãos. No mês passado, Modi deu mais um passo na sua amizade com o actual inquilino da Casa Branca, criando uma conta na rede social criada pelo presidente americano para difundir as suas mentiras, obscenidades e alarvidades.

Esta hipocrisia vinda da actual administração dos Estados Unidos não é nova: já em 2019, no seu primeiro mandato, enquanto anunciava 25 milhões de dólares para “defender” a liberdade de crença, negociava ao mesmo tempo o reforço de uma aliança militar com a Arábia Saudita, onde a liberdade religiosa não existe, encontrava-se com Modi, omitia o problema religioso do Irão e apoiava Netanyahou na sua sanha contra os palestinianos.

Já nada nos espanta? Sim, ainda nos devemos espantar. Desde logo, pelo facto de haver católicos e cristãos, mulheres ou pessoas de etnias minoritárias que continuam a apoiar este homem que mente descaradamente, insulta adversários, inventa histórias, deturpa dados e acontecimentos. Sempre e apenas para defender os seus próprios interesses, os seus negócios e o seu narcisismo exacerbado. Um homem que diz que está no cargo de presidente para fazer negócios, que despreza a democracia e o diálogo, que quer impor apenas a lei da força, que vê em cada pessoa alguém a abater.

Este é o mesmo homem que enganou credores nos seus negócios, que se gabou de ter abusado sexualmente de mulheres (pelo menos 18 queixaram-se dele), que disse que podia matar um homem na Quinta Avenida sem que ninguém o acusasse, que troçou de pessoas com deficiência. Também é o mesmo homem que deu ordens para que pelo menos 5400 crianças fossem separadas das suas famílias e colocadas em jaulas – eram apenas “animais” porque eram filhas de imigrantes; ou que não se dignou a ajudar uma pessoa de 80 anos que convidara para a sua casa de campo e caíra de um palco, tendo batido com a cabeça e sangrado. Para ele, o mármore que ficou tingido de sangue valia mais que o homem ferido e por ele convidado: “Ele estava mesmo à minha frente e eu virei-me. Não queria tocar-lhe. Ele estava a sangrar por todo o lado. E senti-me muito mal, porque o chão de mármore branco era lindo e agora tinha mudado de cor. Tornou-se muito vermelho.”

Donald Trump

Foto oficial de Donald Trump enquanto presidente dos Estados Unidos. Foto: Direitos reservados

Este é o tremendo narcisismo, esta é a imensa falta de compaixão que marcam este homem, que hoje ocupa um dos lugares mais poderosos do mundo, que põe e dispõe da vida de milhões de pessoas sem que isso lhe importe. Um amigo notava-me há dias que nunca víramos ou ouvíramos deste homem, publicamente, qualquer gesto ou manifestação de empatia para com alguém que estivesse a sofrer. Uma atitude nos antípodas absolutos do que deve fazer alguém que se diz cristão (ou muçulmano ou judeu ou budista ou hindu…).

Que pensarmos, perante o mistério da maldade que marca tanta gente? E que, infelizmente, está hoje demasiado à vista no comportamento de tantos líderes do mundo para quem o seu semelhante é apenas alguém para pisar, torturar, bombardear e reduzir a cinzas? Trump nos Estados Unidos, Putin na Rússia, Xi na China, Netanyahou em Israel, Lukashenko na Bielorússia, Modi na Índia, Erdogan na Turquia, Maduro na Venezuela, Ortega na Nicarágua, Milei na Argentina, Min Aung Hlaing na Birmânia/Myanmar, e infelizmente muitos, muitos outros, estão em lugares onde nunca deveriam ter chegado. Reproduzem a lógica que, há 90 anos na Alemanha, já estava a conduzir o mundo para uma das piores tragédias vividas pela humanidade. E será que não aprendemos?

Mistério incompreensível, o da maldade. No Evangelho Segundo Mateus, lê-se (16, 26): “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Ou que poderá dar o homem em troca da sua vida?”

Mistério incompreensível, o da maldade que tantas pessoas levam até ao fim. E que todos os dias se confronta com quantos cultivam um coração de bondade, praticam o bem, mostram empatia e compaixão, lutam pela justiça e constroem a fraternidade. Não basta? Não bastará? Sempre foi o necessário e o suficiente para derrubar os tiranos. Leve o tempo que levar.

 

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