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Artigos de Ana Sofia Brito
De volta ao psiquiatra

De volta ao psiquiatra

Ser muita gente dentro de uma pessoa só nem devia ser mau, mas é que o pior, às vezes, é essa gente toda se desentender e eu já nem saber sequer a que sardinha puxar a brasa. A cabeça mais parece um ringue de mentirosos histéricos em debate, ao menos se fosse aquele mítico e saudoso debate entre Soares e Cunhal, mas não.

De volta ao psiquiatra

As primas

Durante dez anos (quase isso) fui a prima mais nova de uma geração inteira da família, tudo meninas. Foi só depois desse tempo que sucedeu de a Filipa e o Guilherme nascerem, já não contava, ter um primo e uma irmã nessa distância toda dos anos altera o grau de parentesco. O Guilherme e a Filipa eram como se fossem meus filhos precoces – de levar e buscar ao infantário, pela mão dada, de adormecer ao colo, de dar a sopa na boca com colher de aviãozinho. [Texto de Ana Sofia Brito].

De volta ao psiquiatra

Carta sem resposta

Comecei por nunca falar. Verdadeiramente, acreditei que as ameaças nunca avançariam para a concretização do que propunham. A intermitência dos extremos – carinho extremo e ameaça extrema – acabaram por me enfiar num cerco movediço do qual era impossível sair. [Texto de Ana Sofia Brito].

De volta ao psiquiatra

Quando o amor vence o medo

Foi numa dessas vezes em que brinquei de me afastar de casa o mais que pudesse. Estava longe, tão longe de casa e tão perto de mim. Lá, nesse longe que era perto, também chegou a noite de passagem de ano. Fazia calor e eu voltava de mota pelo caminho de terra batida que levava à casa da Dona M., na qual alugara quarto para me instalar por uns dias.

De volta ao psiquiatra

Que em todos os anos da vida o Natal se lembre de vir na hora certa.

É bom que seja quase Natal. Com frio, de preferência. Esse quase que vamos degustando à espera dos sabores e da gente que há de chegar. Que em todos os anos da vida o Natal se lembre de vir na hora certa. No Centro, onde estão a minha avó Carminda e a minha tia-avó Rosa, era dia de tirar as fotos em volta da árvore.

De volta ao psiquiatra

Um anjo no autocarro

O meu, era o lugar 39, sentei-me. É sempre melhor ir do lado da janela. As janelas são objetos muito interessantes. O motorista arrancou com o autocarro quase cheio. Na poltrona de trás um Guineense falava ao telemóvel, em crioulo. Gosto de ouvir falar crioulo, conheço algumas palavras de vários dialetos e gosto de imaginar que falo bem. [Texto de Ana Sofia Brito].

De volta ao psiquiatra

Não sei escrever sobre a saudade

Certa vez propuseram-me escrever sobre a saudade. Quem me lê nestas páginas já se deve ter apercebido de duas coisas: a primeira delas, é que não escrevo sobre temas virais, ou seja, não escrevo sobre os “bafões” da atualidade. Preconceitos à parte, o motivo é simples, não me apetece escrever sobre aquilo que as pessoas estão fartas de ler na semana em questão. A segunda delas, é que não escrevo sobre abstrações. Pelo que não saberia escrever sobre a saudade. A saudade é uma abstração. [Texto de Ana Sofia Brito].

De volta ao psiquiatra

De volta ao psiquiatra

Ser muita gente dentro de uma pessoa só nem devia ser mau, mas é que o pior, às vezes, é essa gente toda se desentender e eu já nem saber sequer a que sardinha puxar a brasa. A cabeça mais parece um ringue de mentirosos histéricos em debate, ao menos se fosse aquele mítico e saudoso debate entre Soares e Cunhal, mas não.

De volta ao psiquiatra

As primas

Durante dez anos (quase isso) fui a prima mais nova de uma geração inteira da família, tudo meninas. Foi só depois desse tempo que sucedeu de a Filipa e o Guilherme nascerem, já não contava, ter um primo e uma irmã nessa distância toda dos anos altera o grau de parentesco. O Guilherme e a Filipa eram como se fossem meus filhos precoces – de levar e buscar ao infantário, pela mão dada, de adormecer ao colo, de dar a sopa na boca com colher de aviãozinho. [Texto de Ana Sofia Brito].

De volta ao psiquiatra

Carta sem resposta

Comecei por nunca falar. Verdadeiramente, acreditei que as ameaças nunca avançariam para a concretização do que propunham. A intermitência dos extremos – carinho extremo e ameaça extrema – acabaram por me enfiar num cerco movediço do qual era impossível sair. [Texto de Ana Sofia Brito].

De volta ao psiquiatra

Quando o amor vence o medo

Foi numa dessas vezes em que brinquei de me afastar de casa o mais que pudesse. Estava longe, tão longe de casa e tão perto de mim. Lá, nesse longe que era perto, também chegou a noite de passagem de ano. Fazia calor e eu voltava de mota pelo caminho de terra batida que levava à casa da Dona M., na qual alugara quarto para me instalar por uns dias.

De volta ao psiquiatra

Que em todos os anos da vida o Natal se lembre de vir na hora certa.

É bom que seja quase Natal. Com frio, de preferência. Esse quase que vamos degustando à espera dos sabores e da gente que há de chegar. Que em todos os anos da vida o Natal se lembre de vir na hora certa. No Centro, onde estão a minha avó Carminda e a minha tia-avó Rosa, era dia de tirar as fotos em volta da árvore.

De volta ao psiquiatra

Um anjo no autocarro

O meu, era o lugar 39, sentei-me. É sempre melhor ir do lado da janela. As janelas são objetos muito interessantes. O motorista arrancou com o autocarro quase cheio. Na poltrona de trás um Guineense falava ao telemóvel, em crioulo. Gosto de ouvir falar crioulo, conheço algumas palavras de vários dialetos e gosto de imaginar que falo bem. [Texto de Ana Sofia Brito].

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Não sei escrever sobre a saudade

Certa vez propuseram-me escrever sobre a saudade. Quem me lê nestas páginas já se deve ter apercebido de duas coisas: a primeira delas, é que não escrevo sobre temas virais, ou seja, não escrevo sobre os “bafões” da atualidade. Preconceitos à parte, o motivo é simples, não me apetece escrever sobre aquilo que as pessoas estão fartas de ler na semana em questão. A segunda delas, é que não escrevo sobre abstrações. Pelo que não saberia escrever sobre a saudade. A saudade é uma abstração. [Texto de Ana Sofia Brito].

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