
“O que é que se passa connosco para ignorarmos os nossos pais e avós nos momentos em que temos oportunidade de lhes retribuir o afeto com que nos brindaram pela vida fora? O que é que se passa connosco para acharmos que vergonha é motivo para faltar ao dia do retrato de Natal?”
É bom que seja quase Natal. Com frio, de preferência. Esse quase que vamos degustando à espera dos sabores e da gente que há de chegar. Que em todos os anos da vida o Natal se lembre de vir na hora certa.
No Centro, onde estão a minha avó Carminda e a minha tia-avó Rosa, era dia de tirar as fotos em volta da árvore.
Uma árvore grande e bem enfeitada, uma cadeira de reis, um tapete vermelho de flocos de neve. Eu, a mãe e a tia Eduarda posamos com a avó Carminda e a tia Rosa para a câmara.
Depois, vimo-nos com orgulho nos postais.
No banco do corredor onde os utentes esperavam a sua vez de entrar na sala do cenário, uma senhora muito elegante – há de ter sido elegante a vida toda. A elegância é coisa que quando cuidada nada a vence, nunca se perde – usava um vestido de renda lilás. Dizia-me: Sabes, filha, tinha este vestido lá em casa no guarda-roupa, tão bonito e nunca o uso, hoje trouxe, para tirar o retrato, usei-o só uma vez, há quarenta anos, foi no casamento da minha filha e até pensei que já não me servisse.
Ela olhava feliz para os bordados da peça que lhe assentava no corpo, olhava com olhos de lembrar com tanta força que até parecia que as coisas lhe aconteciam de novo. Um sorriso contraditório, que misturava alegria e ausência, denunciava-se nos seus lábios. Eu perguntei: E a sua filha, não vem tirar o retrato consigo?, Não, ela magoou-se na mão, tem uma ligadura, diz que não quer aparecer assim na fotografia; e a outra vive na Alemanha; o meu marido já morreu senão ele vinha, ele tinha-me muita amizade.
Há filhos que não sabem sê-lo; haverá pior infortúnio do que parir um filho que o não será quando mais for preciso que o seja?
Cá por mim, se for verdade isso da reencarnação, o que eu mais desejo para o meu regresso é uma maior capacidade de ser filha e neta. Mais e melhor filha, quero ser. Mais e melhor neta, também. Nem que tivesse sido a melhor neta do mundo, haveria de querer vir ainda melhor.
O que é que se passa connosco para nos esquecermos das correrias infinitas que os pais fizeram por nós no dia dos retratos da escola? Com ou sem mãos ligadas iam sempre, cheias e cheios de orgulho e vaidade. Deus havia de se ter lembrado de nos fazer mais recíprocos, meio mal do mundo estaria resolvido.
Outra senhora, bengala nervosa a batucar os mosaicos do chão enquanto esperava a sua vez de ser fotografada. Olha-me e desolha algumas vezes, a experimentar a minha validade para o desabafo, a medir o meu grau de atenção, até que arrisca: Sabe, a minha filha diz que não tem tempo de vir, mas ela trabalha por conta própria, é dona do seu tempo, não vem porque lhe aborrece ou tem vergonha de mim, com certeza, dos meus disparates.
O que é que se passa connosco para acharmos tanta graça às parvoíces das crianças e nos envergonharmos das piadas dos velhos?
Eu tenho tantas saudades dos disparates dos meus avós. Que pena não poder dizê-lo a essa filha antes que lhe seja tarde. Talvez até já o seja.
Não fosse esta uma crónica com contornos a cumprir e, agora mesmo, eu relataria dezenas de ocasiões de riso infinito passadas com os meus avós. Talvez num outro texto, dedicado em exclusivo a essas gargalhadas.
O que é que se passa connosco para ignorarmos os nossos pais e avós nos momentos em que temos oportunidade de lhes retribuir o afeto com que nos brindaram pela vida fora? O que é que se passa connosco para acharmos que vergonha é motivo para faltar ao dia do retrato de Natal? O que é que se passa connosco? O que é que se passa? O que é?
Nunca entendi muito bem a reverência que as famílias fazem aos vindouros anulando, como consequência, a voz dos anciãos. Os mais velhos – avós e bisavós – nos cantos das mesas. A voz gasta de tanto chamarem por nós. Os olhos gastos de tanto olharem por nós. As mãos gastas de tanto rezarem por nós. Os ouvidos gastos de tanto ouvirem de nós. A vida gasta de tanto viverem por nós.
Nas bordas da mesa invisibilizados, esquecidos, ignorados, fora de cena. E nós? Nós aos gritos no reboliço dos presentes, nos elogios tontos – de tão exagerados – aos feitos magníficos dos nossos filhos, nós esgalfados no comer e no beber, nós tão ignorantes sem saber ouvir.
No mundo perfeito pediríamos sussurro aos gritos, pediríamos vagar à pressa, pediríamos atenção à negligência; e os nossos filhos reverenciariam de escuta ativa os avós, trocariam o rasgar violento dos embrulhos pela mão na mão a absorver ao pormenor o que resta da grandeza dos colos inigualáveis, aprenderiam o reverso nos valores, cresceriam pela medida do coração.
Não são os velhos nem as crianças que têm de acordar para o amor. Somos nós, os intermédios. Somos nós quem esquece os que jamais deveriam ser esquecidos, e somos nós quem enaltece os que ainda não têm espaço para o enaltecimento. Sobra-lhes responsabilidade no medidor da aprendizagem e estragam-se antes de saberem, desistem de evoluir porque se julgam – porque os julgamos nós – perfeitos.
Somos nós quem desune o nosso passado e o nosso futuro. Como o rio que quanto mais feroz, imponente e cheio de si, mais afasta as suas margens.
Para este Natal eu tenho um pedido: viremos as mesas ao contrário. Os das pontas para o centro e os do centro para as pontas, os calados no lugar da voz e os faladores no lugar dos ouvintes. Os corações no lugar de todos.
Felizes Festas, queridos leitores!
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024.









