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Artigos de Ana Sofia Brito
Uma sombra de gente a olhar a morte

Uma sombra de gente a olhar a morte

Quando uma guerra se instala – seja em que parte for – falhamos todos. Falhamos enquanto espécie. Falhamos por acreditar que vivemos em linha recta quando negligenciamos a evidência dos ciclos.

Uma sombra de gente a olhar a morte

O Globo da Garota: Obrigado, Cátia

A Garota é um fenómeno que nos resgata meia esperança do fundo do poço. Não se trata do Globo (mero objecto), trata-se de um povo rendido a uma mulher que fascina pelo pensamento, que fala dos abusos sem rédeas e sem vergonhas.

Uma sombra de gente a olhar a morte

O vagabundo em dia de festa da cidade

A cidade está em festa. As luzes banham histéricas o céu anoitecido sobre a dança comum. Os senhores de fatos, os feitores – os grandes feitores – sobem ao palco, como se de um altar se tratasse, para a habitual gabarolice. E o povo dança entre os aplausos enquanto o artista exibe os dotes, de boca colada ao microfone e acordeão rente ao peito.

Uma sombra de gente a olhar a morte

Timidez ou arrogância

Desde sempre que engenho esquemas para camuflar a timidez; acho que me tenho saído bem, ninguém desconfia. Ontem à noite uma simpática senhora aproximou-se do meu colega, sem reparar que eu estava logo atrás, e disse-lhe para dar os parabéns à menina do fogo, que gostou muito do espetáculo mas que a achava antipática, que fugia logo e nem sequer ficava um bocadinho ali no final a dar atenção ao público.

Uma sombra de gente a olhar a morte

O adeus ao tio Maga

Há dias, na minha oração, pedi à avó que pusesse mais um prato na mesa do céu porque nos mentem quando nos ensinam que a esperança é a última a morrer – mas que grande mentira. Acreditei até que a esperança só morria depois de morta, mas é o contrário. A esperança morre assim que nasce.

Uma sombra de gente a olhar a morte

A noite é dia para tanta gente

A noite é dia para tanta gente; até para mim, amante de manhãs cedo e despertares preguiçosos. Mas foi a madrugada que me escolheu a profissão; as paredes negras, as luzes de fundo a desmentir o escuro das pistas, o fumo a fingir-se de nuvem como que para esconder quem dança mal, e a música alta, ah… altíssima como se de um bando de surdos se tratasse, em plena pista.

Uma sombra de gente a olhar a morte

Agosto no Algarve

Quis a princesa Gilda que nevasse no Algarve e os árabes embelezaram os campos com flores de amendoeira. O céu ao fundo, espelhava a suave transparência da casa dos peixes plantados por Deus. Depois os peixes e as amêndoas encheram as alfaias nos caminhos da sobrevivência. Os séculos, sempre os séculos pendurados nas asas das andorinhas.

Uma sombra de gente a olhar a morte

Porque no mar ninguém chora sozinho

De alma e olhos postos no horizonte, a mulher estendia a roupa nas cordas da varanda caiada frente ao mar. Estranho foi, nesse dia, não se avistar ainda o aceno aliviado dos homens, como de costume àquela hora.

Uma sombra de gente a olhar a morte

Uma sombra de gente a olhar a morte

Quando uma guerra se instala – seja em que parte for – falhamos todos. Falhamos enquanto espécie. Falhamos por acreditar que vivemos em linha recta quando negligenciamos a evidência dos ciclos.

Uma sombra de gente a olhar a morte

O Globo da Garota: Obrigado, Cátia

A Garota é um fenómeno que nos resgata meia esperança do fundo do poço. Não se trata do Globo (mero objecto), trata-se de um povo rendido a uma mulher que fascina pelo pensamento, que fala dos abusos sem rédeas e sem vergonhas.

Uma sombra de gente a olhar a morte

O vagabundo em dia de festa da cidade

A cidade está em festa. As luzes banham histéricas o céu anoitecido sobre a dança comum. Os senhores de fatos, os feitores – os grandes feitores – sobem ao palco, como se de um altar se tratasse, para a habitual gabarolice. E o povo dança entre os aplausos enquanto o artista exibe os dotes, de boca colada ao microfone e acordeão rente ao peito.

Uma sombra de gente a olhar a morte

Timidez ou arrogância

Desde sempre que engenho esquemas para camuflar a timidez; acho que me tenho saído bem, ninguém desconfia. Ontem à noite uma simpática senhora aproximou-se do meu colega, sem reparar que eu estava logo atrás, e disse-lhe para dar os parabéns à menina do fogo, que gostou muito do espetáculo mas que a achava antipática, que fugia logo e nem sequer ficava um bocadinho ali no final a dar atenção ao público.

Uma sombra de gente a olhar a morte

O adeus ao tio Maga

Há dias, na minha oração, pedi à avó que pusesse mais um prato na mesa do céu porque nos mentem quando nos ensinam que a esperança é a última a morrer – mas que grande mentira. Acreditei até que a esperança só morria depois de morta, mas é o contrário. A esperança morre assim que nasce.

Uma sombra de gente a olhar a morte

A noite é dia para tanta gente

A noite é dia para tanta gente; até para mim, amante de manhãs cedo e despertares preguiçosos. Mas foi a madrugada que me escolheu a profissão; as paredes negras, as luzes de fundo a desmentir o escuro das pistas, o fumo a fingir-se de nuvem como que para esconder quem dança mal, e a música alta, ah… altíssima como se de um bando de surdos se tratasse, em plena pista.

Uma sombra de gente a olhar a morte

Agosto no Algarve

Quis a princesa Gilda que nevasse no Algarve e os árabes embelezaram os campos com flores de amendoeira. O céu ao fundo, espelhava a suave transparência da casa dos peixes plantados por Deus. Depois os peixes e as amêndoas encheram as alfaias nos caminhos da sobrevivência. Os séculos, sempre os séculos pendurados nas asas das andorinhas.

Uma sombra de gente a olhar a morte

Porque no mar ninguém chora sozinho

De alma e olhos postos no horizonte, a mulher estendia a roupa nas cordas da varanda caiada frente ao mar. Estranho foi, nesse dia, não se avistar ainda o aceno aliviado dos homens, como de costume àquela hora.

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