AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Joaquim Félix. Foto

Entrelaçar a Lei, o culto e a moralidade

| 01/09/2024

[domingo xxii do tempo comum ─ b ─ 2024 // Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação]

[oiço o grito negro / das árvores em fogo − / o recorte das folhas © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

 

1. Este é o primeiro dia do mês de muitos recomeços!
Setembro! É o nono mês. Amadurecemos nele,
cheios de sol e quentes, como frutos soalheiros.
Dói-nos, com um orvalho frio, mas desejámo-lo na sua urgência.
Paulatinamente, a luz-das-vindimas devolve-nos
aos ritmos quotidianos das canseiras laborais ou escolares.
«Lá se foram as férias!», dirão alguns, os que as tiveram.
E outros: «Como passa depressa o que é agradável!».
É verdade: já as andorinhas-das-barreiras se reúnem,
nos cabos e fios, para decidir o dia da passagem do bando!

[Já as andorinhas-das-barreiras se reúnem © fotografia: Joaquim Félix]

 

2. Sem procurar fazer balanços do mês de agosto,
atendamos, contudo, à pertinência da avaliação dos repousos feriais.
Imagino que muitos de nós beneficiaram de um tempo outro
para apreciar a natureza e desacelerar o ritmo do habitual frenesim.
Porventura alguns terão lido o artigo do pe. João Paulo Costa
― publicado no jornal digital 7MARGENS ―,
ao qual deu o título «Deus, flauta da nossa obscuridade?».
Nele cita o Guardador de Rebanhos, de Fernando Pessoa,
cujos versos passo a ler:
«Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos».
Após a citação, o pe. João Paulo interrogava quem o lesse:
«Quantas horas, segundos ou minutos
teremos passado ultimamente a respirar e a contemplar
as flores, as árvores, os montes, o sol e o luar?
Como pode o crente contemplar a Deus, que não vê,
se já nem vê ou sente o que é visível, palpável e respirável?».

[Contemplando o início dos voos das sementes. © fotografia: Joaquim Félix]

 

3. Manifestando-se Deus, também, na beleza da sua criação,
creio que muitos de nós, durante as férias, terão passado horas
a contemplar alguns recortes de folhas das plantas e árvores,
a delicadeza de certas flores, borboletas, aves, peixes e seres marinhos.
É algo que se pode fazer não só nos parques e reservas naturais,
mas também junto das nossas casas e nas redondezas.
Sim, tudo isto é possível praticar ― muitos assim terão feito ―
combinando com outros momentos de contemplação e fruição,
por exemplo, através da visita a monumentos históricos,
museus e galerias de arte, feiras de artesanato e do livro,
ou em concertos e festivais de música.

[Contemplando uma escultura de Manuel Rosa no museu MUDAS © fotografia: Joaquim Félix]

 

4. Porquê insistir na contemplação da natureza?, perguntareis?
Porque a forma como lidamos ― bem ou mal ― com a criação
repercute-se na qualidade ― ou falta dela ― da vida na sua diversidade.
Mais, notemos uma consequência, que explorarei mais adiante:
o descuido com a criação afeta a fé e perverte o culto a Deus.
Com tantos avisos, parece que não mudamos de forma racional.
Será que só a força das circunstâncias ― dos prejuízos económicos ―
nos levarão a implementar mudanças corajosas neste cuidado?
Certo é que, como avisou António Guterres, Secretário Geral da ONU,
começou «uma era de ebulição global».
A terminologia até pode não ser a mais adequada;
porém, ficamos a saber que passamos
do aquecimento global para a era de ebulição global.
O Papa Francisco diz que a Terra está em com febre:

 

5. Hoje, dia 1 de setembro,
celebra-se o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação.
Recordo que esta jornada orante se enxerta
numa outra iniciativa chamada «Tempo da Criação».
Foi iniciada pelo Patriarca Ecuménico Dimitrios I,
que, em 1989, a dirigiu somente ao povo ortodoxo.
Mais tarde, a temporada de oração,
para requalificar a relação com o Criador e toda a criação,
foi alargada, pelo Conselho Mundial de Igrejas,
para o período entre os dias 1 de setembro e 4 de outubro,
festa de S. Francisco de Assis, padroeiro da ecologia.
Por falar no alegre cantor da fraternidade cósmica,
voltemos a escutar o seu Cântico das Criaturas, em tosco-umbro,
na voz do jovem português João Maria Carvalho,
no outeiro florido da Praça de S. Pedro, no Vaticano:

 

6. Na mensagem que escreveu para este dia,
o Papa Francisco persuade-nos a «esperar e agir com a criação»,
no sentido em que esta atitude «significa viver uma fé encarnada,
que sabe entrar na carne sofredora e esperançosa das pessoas».
Deste modo ― ainda com o Cântico das Criaturas a ecoar ―,
alcançaremos «uma vida que se torna um cântico de amor para Deus,
para a humanidade, com e para a criação,
e que encontra a sua plenitude na santidade».
Na mesma mensagem, que convido a ler na íntegra,
até porque é breve e foi apresentada com um vídeo,
o Papa Francisco adverte que «um poder descontrolado
gera monstros e volta-se contra nós mesmos»:

 

7. Infelizmente, basta abrir os olhos e ver atentamente,
para constatar quanto «nos tornámos altamente perigosos,
capazes de pôr em perigo a vida de muitos seres
e a nossa própria sobrevivência» (da Mensagem).
Estamos em luto pelos cinco militares da GNR,
que sucumbiram no Rio Douro, no acidente de helicóptero,
durante a missão de combate a um incêndio florestal.
E ― sem comparação ao inestimável valor das vidas humanas ―
quantos seres terão sucumbido,
durante o monstruoso incêndio na ilha da Madeira,
que consumiu mais de cinco mil hectares de floresta e vegetação?
Qualquer pirómano, ou outra pessoa que seja,
em dias de risco elevado de incêndio, deveria perguntar-se:
«Será que, com este meu gesto, irei causar a morte de pessoas
e a destruição de habitações e outros bens?
Serei fonte de incalculáveis prejuízos?».
Refiro isto, para não falar sequer no grito das árvores e dos animais,
ou nas avultadas despesas com os meios de combate.
Estou persuadido de que, se esta consciência fosse mais difundida,
o número de incêndios poderia diminuir significativamente.

[Contemplando o Curral das Ferreiras, após o incêndio © fotografia: Joaquim Félix]

 

8. Que tem isto a ver com a Palavra que hoje escutámos?
Tudo. Definitivamente tudo! Numa relação triádica.
Sim, podemos fazer uma leitura que entrelaça a Lei, o culto e a moralidade.
Desde o ordenamento recebido no Sinai,
que Moisés apresenta no seu primeiro discurso ao povo (Deut 4,1-2.6-8),
até ao verdadeiro sentido da Lei na sua relação com o culto e a vida,
que Jesus refresca na resposta aos fariseus e escribas (Mc 7,1-8.14-15.21-23),
a vida é apresentada como espelho sapiencial
da relação de proximidade com Deus e os seres na hospitalidade da Sua casa.

9. Quem melhor aprofundou este nexo triádico foi Joseph Ratzinger,
no seu livro Introdução ao espírito da liturgia,
no capítulo «Liturgia e a vida: sobre o lugar da Liturgia na realidade».
«Primeiro, torna-se evidente que o culto,
compreendido na sua extensão e profundidade, excede o ato litúrgico.
Ele abrange, no fundo, a ordem de toda a vida humana
no sentido da palavra de Ireneu: o Homem será a glorificação para Deus,
colocando-o na luz (e isso é o culto), se vive do olhar para Ele.
Por outro lado, é reconhecido que a lei e a moral
não são unidas sem serem consolidadas e inspiradas no centro da Liturgia.
Que espécie de realidade encontramos então na Liturgia?
Em primeiro lugar podemos dizer:
quem exclui Deus do termo realidade é só aparentemente realista,
abstraindo-se de onde nós “vivemos, nos movemos e existimos” (Act 17, 28).
Isto é, só sendo a relação com Deus certa,
então podem todas as restantes relações
― o convívio entre as pessoas e com o resto do mundo ―
estar em ordem».

[Construção dos tapetes florais para a Festa do Senhor, em Porto Moniz © fotografia: Joaquim Félix]

 

10. Quem habitará, então, na casa de Deus?
Fizemos desta pergunta o refrão do salmo (Sl 14), e ainda bem,
mas não é apenas o salmista quem nos dá a resposta.
Jesus, que conhecia as 613 leis da «tradição dos antigos»,
sabia que os 365 preceitos negativos e todos os ritos de purificação
não purificariam um coração conspurcado de vícios.
Um culto que não celebre a vida em toda a sua amplitude,
desde a tangibilidade dos gestos de misericórdia e caridade,
não passará de um exercício vão, repleto de hipocrisia ritualista.

11. Não deixa de ser curioso que certos programas pavimentais,
como sucede, por exemplo, na abadia francesa de Notre-Dame de Ganagobie,
tenham colocado junto do altar o combate entre as virtudes e os vícios.
Se desejarmos erradicar os vícios enunciados por Jesus,
só o poderemos fazer na quotidiana e justa autenticidade da vida
― santidade por adoração! ―,
convertendo o nosso coração na observância da Lei do amor.
Por isso, acolhamos, com docilidade, a palavra em nós plantada,
como nos sugere São Tiago,
para praticarmos, em harmonia com os irmãos e a criação,
«a religião pura e sem mancha» (Tg 1,27).
E, assim, habitaremos o santuário cósmico, sem pagar altas rendas;
esta casa dentro da casa, na hospitalidade e fraternidade universais.

[Detalhe do programa pavimental, junto do altar na igreja abadia francesa de Notre-Dame de Ganagobie, © fotografia: Joaquim Félix]

 

12. Por certo, não nos faltarão motivos de louvor, como este:
«Deus de bondade e fonte da vida,
criastes o universo para encher de bênçãos todas as criaturas
e a muitas alegrar na claridade da vossa luz.
Inumeráveis coros de anjos
estão na vossa presença para Vos servir e,
contemplando a glória do vosso rosto,
dia e noite cantam os vossos louvores.
Com eles, também nós e, pela nossa voz, a criação inteira,
aclamamos o vosso nome, cantando com alegria

(final do Prefácio da Oração Eucarística IV).

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia deste domingo, 1 de setembro, domingo XXII do tempo comum na liturgia católica / Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação , proferida na igreja de Santa Cruz, em Braga.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Jesus salva-nos de nós mesmos

[Entre Margens]

Jesus salva-nos de nós mesmos novidade

Uma das mais profundas obras de salvação realizadas por Jesus consiste em libertar-nos não apenas do pecado e da morte, mas também das falsas imagens que construímos acerca de Deus. Muitas vezes, consciente ou inconscientemente, projectamos sobre Deus os nossos medos, inseguranças e formas humanas de exercer o poder. [Texto de Vítor Rafael].

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba novidade

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This