
“Desculpei-me logo ao entrar, os psiquiatras entendem estas coisas de a gente se enganar no caminho e ir parar ao lado oposto; se fosse outro médico não entendia, mas o psiquiatra, sim. São feitos mesmo para entender essas coisas.” Foto © Tumisu / Pixabay
Acordei como acordo sempre. Perdida no espaço. Até que ao fim de dez longos segundos reconheço o meu quarto. O despertador tocou cinco vezes, às quais não obedeci por incapacidade física, pesa-me o corpo todo, chega a ser dor. A dor passa ao fim de cinco minutos. Pego no caderno que está debaixo da almofada, a caneta, anoto o sonho: Cães bebés, um bocado sujos, mas meigos. O Cristiano Ronaldo abraça-me porque a minha filha está nos Açores e eu estou a chorar de saudade, não consigo falar com ela por algum motivo; acho que estou na prisão e o Cristiano Ronaldo me foi visitar. Faço uma panela gigante de esparguete à bolonhesa para pessoas com as quais me desentendi numa cadeira de piscina, eu fui à água e quando voltei tinham-se sentado no meu lugar. Zanguei-me muito – como é que eu não me apercebi de que estava num sonho? Em estado desperto eu jamais faria um escândalo por causa de uma cadeira de piscina. Não que não ficasse fula por isso, mas sou envergonhada o suficiente para não discutir com estranhos por tão pouco. E, pronto, acabei a fazer uma panela (era mesmo uma panela, não era frigideira) de esparguete à bolonhesa para essas pessoas.
Ai, não aguento mais, casa de banho, urgente. Xixi, bué, aquele da manhã, que demora tanto que uma pessoa quase adormece de novo sentada na sanita.
Merda, adormeci, a consulta. Tenho cinquenta minutos, não dá tempo, não quero perder a consulta, a próxima vaga é só em outubro. Merda, o trânsito de agosto… não vai dar. Tem que dar.
Sem café não dá… café, rápido, enquanto visto a primeira roupa que me aparece no armário. Os dentes, Sofia, lava os dentes, vais falar bué, bem na cara do médico. Ah, não… lavar os dentes agora?? Vai roubar o protagonismo ao café no palco da minha língua. Ah… ok, lavo os dentes. Os olhos não é preciso, vou tirando as ramelas pelo caminho, assim entretenho-me no trânsito.
Porra, o carro está quente. Uh, este volante está a escaldar, nunca mais me esqueço de colocar o protetor do vidro (como é que será que se chama esta coisa, deve ter um nome específico. Não gosto nada de não saber o nome das coisas).
Ah…que maravilha, aumento o volume do rádio. A Antena2 passa uma entrevista da RTP arquivos ao Vinícius de Moraes. Baixa-se-me o stress, a adrenalina e a ansiedade instantaneamente. Que moca. Ouvir os poetas devia ser considerado droga, prima da maconha em primeiro grau. O mesmo efeito sem prejudicar os pulmões, só a cabeça.
Em 1968 falava-se assim. O Henrique Mendes e o Vinícius numa formalidade informal, aquela formalidade que cuida muito das palavras, da dicção e do discurso ainda que entrevistador e entrevistado se declarem inteiramente de corações abertos. Eu gostava de ser capaz de cuidar assim das minhas palavras e do meu discurso. Se ao menos me tivesse calhado um nadinha de elegância…
Merda, enganei-me no caminho. Faltam 5 minutos para a consulta, agora não consigo dar a volta, Vilamoura está cheia de trânsito, raios partam o agosto algarvio. Prefiro Velha Deli, da boca para fora.
Desculpe o atraso, doutor, enganei-me na saída da rotunda. Desculpei-me logo ao entrar, os psiquiatras entendem estas coisas de a gente se enganar no caminho e ir parar ao lado oposto; se fosse outro médico não entendia, mas o psiquiatra, sim. São feitos mesmo para entender essas coisas.
Então doutor, como tem passado? Será desta que me tira a medicação?
Bem sabe que só passados 6 meses dos últimos sintomas é que podemos reduzir a medicação, não se preocupe com a medicação, respondeu-me.
Tshi, já estou a ver tudo, medicação forever (sempre quis escrever a palavra Forever em itálico a meio de uma crónica). Seis meses? Quando é que uma pessoa fica seis meses sem um sintoma de doença mental? Só um louco. E eu não sou louca.
Uma vez o cardiologista receitou-me um comprimido por dia para o resto da vida, esse sim, é que é louco. Não tomei nem um. Mas o coração ao menos vai batendo. Agora a cabeça é que é chato. Não deixa uma pessoa em paz.
E a Sofia, como é que sente?
Bem, doutor, mesmo bem. Vinha a ouvir o Vinícius de Moraes a conversar com o Henrique Mendes em 1968. Subiu-se-me a Dopamina, doutor. Ou será o comprimido a bater?
E como tem passado estes últimos tempos?, insistiu.
Tirando as preocupações com aquilo que não aconteceu mas pode acontecer ainda que a probabilidade seja pouca, tenho andado mais ou menos. Tenho lido uns livros bons, isso ajuda. Já leu Stênio Gardel, doutor? E Guimarães Rosa? Desculpe fazer perguntas, doutor. Não lhe quero roubar o lugar. Eu, se trabalhasse nestas coisas da cabeça ia para Psicologia Analítica, gosto mais do que da Psicanálise. Gosto do Yung, do Freud nem tanto.
Conte-me dessas preocupações, Sofia?
O normal, doutor. Quando estou na praia, estou sempre à espera de um tsunami ou uma derrocada. Quando estou num supermercado (coisa rara, nunca me deixo lá ficar por mais de quinze minutos), acho sempre que se vai deflagrar um incêndio e esturricar-me encurralada num corredor qualquer de queijos e enchidos. Quando conduzo, não confio nos travões. Quando passa uma ambulância, vou a correr ligar à minha filha a perguntar onde é que ela está, caso não atenda, sinto-me a desmaiar. Quando estou a trabalhar e vou começar o espetáculo, acho sempre que o público me vai virar as costas e deixar sozinha. Quando escrevo as crónicas acho sempre que o jornal vai recusar a publicação. Continuo viciada no xadrez de computador e na interpretação dos sonhos. No outro dia sonhei que vivia dentro de uma melancia e era um caroço, e os outros caroços eram a minha família e os meus amigos e, de repente, dividiam-nos às fatias com uma faca afiada. Sabia que a morte é um sonho muito longo? Devia ler o Livro Tibetano da Vida e da Morte, doutor. Ah, todos os dias me arrependo de gastar tanta vida preocupada com improbabilidades. Isso tem algum nome, doutor? Consciência do inconsciente, será? À parte disso e de ser agosto, tudo bem, doutor. Acredito no amor. E, como ainda há bons escritores a lançar bons livros, há esperança de dias felizes. Quando sou feliz sinto uma espécie de culpa, é normal, doutor?
Ele não respondeu. Calei-me. Estava concentrado a escrever no computador. Aproveitei para descansar o pensamento nalguma fantasia gira.
Quando o silêncio se tornou demasiado (os psiquiatras têm essa mania do silêncio excessivo até a gente soltar uma estupidez qualquer só para quebrá-lo, depois pegam nessa estupidez e analisam ao pormenor) eu disse: doutor, eu adorava ser a melhor amiga de infância da Maria Bethânia, mas nunca teria dado, quando eu nasci ela já tinha quase 40 anos.
Porquê?, perguntou-me.
Porque a Maria Bethânia é a Maria Bethânia. Conhece alguém mais interessante do que ela, doutor? O carisma não se explica, é como a atração. Sabe que eu não tenho melhores amigos de infância, doutor? Os meus melhores amigos, fi-los depois dos vinte. E são quase todos da geração da Maria Bethânia.
Sofia, vamos prosseguir mensalmente com a terapia e reajustar a medicação para os próximos seis meses, aumentar a dosagem em 50%.
Porquê, doutor? Por causa da Maria Bethânia?
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024.








