
Foi ao cardeal Victor Manuel Fernández que coube apresentar o ponto de situação do trabalho desenvolvido pelo grupo que está a estudar “formas ministeriais específicas”. Imagem reproduzida a partir da transmissão do canal de Youtube do Vaticano.
Tendo em consideração o destaque que o tema da participação das mulheres na Igreja e o seu eventual acesso ao diaconato mereceu ao longo do processo sinodal, o momento da apresentação do relatório do Grupo de Estudo encarregue pelo Papa de analisá-lo era aguardado com particular interesse por muitos. Esse momento chegou ao final da tarde desta quarta-feira, 2 de outubro, em que se iniciaram os trabalhos da assembleia geral do Sínodo dos Bispos, mas não trouxe grandes novidades.
“Com base na análise até agora… ainda não há espaço para uma decisão positiva” sobre a ordenação de mulheres diáconos, anunciou o cardeal Victor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé, a quem coube apresentar o ponto de situação do trabalho desenvolvido até ao momento pelo Grupo 5, o qual tem à sua responsabilidade analisar “questões teológicas e canónicas relativas a formas ministeriais específicas”.
A apresentação era esperada com especial interesse também pelo facto de este grupo e o seu trabalho terem estado envolvidos num maior secretismo do que os restantes nove criados pelo Papa após a assembleia do Sínodo no ano passado. Como assinala a jornalista Colleen Dulle na revista dos jesuítas America Magazine, enquanto os nomes dos membros dos outros nove grupos foram publicamente divulgados, o mesmo não aconteceu com os do Grupo 5. E todos os vídeos de apresentação dos grupos de estudo, transmitidos no final do primeiro dia de trabalhos dos membros do Sínodo, incluíam planos com as fotos e nomes individuais de cada elemento integrante. Todos, menos… o do Grupo 5, cujos elementos surgiram em duas fotos de conjunto que passaram rapidamente nos ecrãs.
Recorde-se que o diaconato feminino já foi avaliado por duas comissões de estudo criadas, por iniciativa de Francisco, em 2016 e 2020. E as conclusões a que chegaram nunca foram divulgadas, além de os membros que as integraram não terem sido autorizados a falar sobre as mesmas. Essas mesmas conclusões terão sido solicitadas por membros do Sínodo sobre a Sinodalidade, algo que, segundo fontes da America Magazine, não chegou a acontecer
O cardeal Fernández afirmou agora que os resultados serão resumidos no documento final que o grupo de estudo pretende submeter ao Papa, em junho do próximo ano, data estipulada por Francisco para a conclusão dos trabalhos das dez equipas.

Marcha pela ordenação de mulheres que decorreu em Roma durante a primeira sessão da assembleia do Sínodo, em outubro do ano passado. Foto © WOC
O mesmo documento, adiantou o prefeito do Dicastério da Doutrina da Fé, partilhará a reflexão feita sobre “a especificidade do poder sacramental”, “funções eclesiais e ministérios que não requerem o sacramento da Ordem Sagrada” e “os problemas decorrentes de uma concepção errónea de autoridade eclesial”. Essa reflexão ajudará a “dar a devida atenção” à questão da ordenação das mulheres ao diaconato.
Fernández assinalou ainda que o próprio Papa “confirmou recentemente de forma pública” considerar que as mulheres não podem aceder ao diaconato, referindo-se certamente à resposta dada por Francisco a uma pergunta da jornalista da CBS Norah O’Donnel [ver 7MARGENS].
O cardeal anunciou depois que, nos próximos tempos, o grupo de estudo planeia concentrar-se em “analisar em profundidade a vida de algumas mulheres que – tanto na história antiga como na recente da Igreja – exerceram autoridade e poder genuínos em apoio da missão da Igreja”, especificando que essa “autoridade ou poder não estava vinculado à consagração sacramental, como seria o caso, pelo menos hoje, com a ordenação diaconal”. E deu exemplos dessas mulheres – Matilde de Canossa, Hildegarda de Bingen, Brígida da Suécia, Catarina de Siena, Joana D’Arc, Teresa de Ávila, Juana Inés de la Cruz, Mama Antula, Elizabeth Ann Seton, Maria Montessori, Dorothy Day e Madalena Delbrêl -, desafiando depois os delegados sinodais a sugerirem ao grupo outros nomes que possam não ser tão conhecidos.
“À luz destes testemunhos, a questão do acesso das mulheres ao diaconato assume uma perspectiva diferente”, assinalou Fernández. E terminou deixando entreaberta uma porta que parecia ter querido fechar, ao concluir que o estudo aprofundado do testemunho cristão multifacetado destas mulheres poderá ajudar a imaginar novas formas de ministério que criem “oportunidades ainda mais amplas para uma presença feminina mais incisiva na igreja”.









