O Sol brilhava, inundando de luz toda aquela vastidão e eu caminhava pela Terra batida.
De um e outro lado, a relva verde, muito bem regada, as frondosas e transcendentais árvores de folhas verdes e algumas com flores amarelas, rosa, laranja, rosa alaranjadas, arroxeadas, douradas, inúmeras e belas esculturas, algumas das quais profundamente significativas. Os pássaros chilreavam.
Continuava a caminhar, pela Terra batida, avistava já o Museu de José Malhoa e a escultura “O náufrago” de Simões de Almeida Sobrinho, mas antes, à minha direita deparava-se-me, um grupo de “naufragados” vivos.

As canadianas são do senhor à direita das mesmas. O senhor Chico, o único de pé, pinta casas e dorme no Jardim com o seu casal de cachorros, o Tobias e a Pulga. De óculos escuros, está o senhor cego. A Maria está de camisola rosa. Todos muito amáveis, não só queriam partilhar as suas histórias e ser fotografados, como retribuíram, com palavras afectuosas a escuta e a foto. Foto © Maria Aldina Brás.
Seria um piquenique de amor, a união da paisagem do mundo natural com a paisagem profunda da sua vida interior, o eterno do Espírito?
Continuei, vista ainda a 20-30 metros de distância, a escultura de Simões de Almeida Sobrinho, parecia-me uma mulher a acariciar um naufragado. Não consegui encontrar muita informação sobre ela. Uma amante a amar ainda o amado já morto? Morto ou eternamente vivo dentro dela?

Náufrago, 1913, estátua em bronze de Simões de Almeida Sobrinho (1880-1950). Esculpiu múltiplos bustos, monumentos e as estátuas Relembrando e a Escrava. Foto © Maria Aldina Brás.
Legenda: Náufrago, 1913. Bronze. De Simões de Almeida Sobrinho (1880-1950). Esculpiu múltiplos bustos, monumentos e as estátuas Relembrando e Escrava.
A caminhada continuou pela Terra batida, rodeada de erva, de árvores, de arte, de pássaros, numa mistura de história, cultura, arquitectura, desporto, democracia e vida comunitária … até chegar ao lago verde.
A água tem um significado espiritual transcendente e universal. Ela também constitui quase a totalidade do líquido amniótico, que nos envolve e protege, enquanto fetos dentro do útero materno. Os sons transmitidos através do líquido amniótico são suaves e confortantes, tanto os inúmeros da mãe como a voz do pai. A água que vemos e ouvimos, em adultos, ainda nos remete para lá.
“Ó Senhora nossa, ó senhora minha …” e naquele silêncio calmo, lembro a pequeníssima /grande pergunta “E nós?” com que Adelino Ascenso termina o texto subordinado ao “Cristo maternal” no seu livro “A mística do arado”. Tal como se pode ler no mesmo , “O Cristo…como uma mãe que abraça o seu filho e perdoa todas as suas faltas…pois o amor de mãe tudo vence.”
Tenho a certeza disto!

Medito quiescentemente, assim como uma ferida vai a pouco e pouco cicatrizando, a minha alma anseia, como uma ave voando livre, pelo entendimento dos povos entre si, e pelo respeito das boas e infinitas formas de vida na Terra e no Céu. Foto © Maria Aldina Brás
Por montes e vales, pela alegria e pela escuridão, consciente ou à beira do abismo, na Terra plana ou no precipício, a mãe nunca desiste da tarefa divina de tentar aliviar o sofrimento dos seus filhos/filhas!
Tanto homens como mulheres reunimos as polaridades, masculino e feminina, através da nossa profundidade divina. Estou convicta que, algumas das mulheres e mães portuguesas, digo portuguesas porque são as que conheço melhor, há muito tempo o conseguimos fazer. Foi o resultado do que a vida nos exigiu ao longo dos séculos: vivemos quase celibatárias, simultaneamente pais e mães (maridos emigrados, embarcados, falecidos, ausentes ou então “non-sense chauvinists”). De modo idêntico, há pais que são como mães. Como o foi Jesus! “Eu e o Pai somos um” (João 10:30) e Cristo é “como uma mãe”. Beatrice Bruteau, uma pioneira da inter-espiritualidade, descreveu Jesus como tendo uma consciência “neo-feminina” que incluía conectividade, misericórdia, paixão e liberdade, levando a um novo relacionamento de uns com os outros/outras.
A Terra, a Mãe, Maria aceita todos/as os/as seus/suas filhos/as, abraça-os/as, e ama-os/as, como amou Jesus. Ela nos apresenta continuamente Jesus!
Nota: Peço aos leitores para terem em consideração que não tenho qualquer formação na área de Humanísticas.
Maria Aldina Brás é geneticista médica e professora aposentada da UNL.









