Natal, dois anos e meio depois da tragédia de Pedrógão Grande
Há alguns anos atrás, ansiava esta altura para escrever a carta ao Pai Natal. Para pedir o quê? Prendas! O bom comportamento na escola era quase como uma obrigação para que, quando chegasse o Natal, o Pai Natal me trouxesse muitas prendas. As coisas, entretanto, mudaram.
No último ano que vivi em Pedrógão Grande, em 2017, presenciei uma das maiores tragédias que Portugal já sofreu: um incêndio que tirou a vida a dezenas de pessoas, inclusive famílias inteiras. Nesse ano, qualquer momento era ideal para relembrar todas as vítimas do incêndio de junho de 2017. A época natalícia tornou-se bastante mais dolorosa, por sabermos que tantas pessoas sofriam ainda.
Lembro-me como se fosse hoje, de um jantar de Natal em que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve presente para homenagear essas pessoas. Eu só pensava: como é que a presença de uma “figura pública” pode ajudar todas as famílias que perderam os seus entes queridos? O Presidente sentira a necessidade de passar a noite de Natal com todas as pessoas afetadas por este acontecimento. Foi óbvio o sorriso destas pessoas, por saberem que naquele momento tão difícil alguém se lembrou de se colocar no lugar delas. Foi aí que comecei a olhar para o Natal com outros olhos.
O Natal significa o nascimento de Jesus e não o dia em que esperamos pela meia-noite para abrirmos prendas! O Natal só faz sentido para mim se eu o puder partilhar com as pessoas de que mais gosto, nem que seja porque esta é uma desculpa para a família se juntar toda! Natal significa, acima de tudo, amor e partilha!
Dois anos e meio depois, podia dizer que o meu Natal era mais triste desde a tragédia de 2017. Mas não consigo fazê-lo, porque me sinto extremamente agradecida pelo facto de agora conseguir dar valor ao que realmente é importante: a família. É um sentimento dúbio, uma vez que considero ter sido ingrata nos anos em que achei que o mais importante do Natal eram as prendas. Sinto-me ainda pior, por saber que é preciso o ser humano passar por um acontecimento desta dimensão para aprender a dar valor. No entanto, nem todos podemos dizer que foi possível tirar coisas boas deste incêndio.
Acredito que as famílias que perderam pessoas naquele dia nunca mais terão um Natal igual. Nunca mais terão a oportunidade, ao contrário de mim, de aprender a dar valor à família e ao amor no Natal. Se é injusto? Muito! Se cada um de nós pode aprender com isto? Óbvio!
Não deixemos que o Natal vire moda pelas prendas. Não deixemos que chegue o dia em que olhamos para trás e já não há nada a fazer porque é tarde demais. Não deixemos que seja necessária uma lição para que o ser humano aprenda. Não deixemos que sobre apenas arrependimento nos nossos corações.
É hora de fazer diferente! Não digo para esquecer tudo o que aconteceu há perto de três anos, até porque seria impossível de esquecer! Digo apenas para olharmos para trás, lembrarmos todas as famílias afetadas, rezarmos por todas elas e acreditarmos que, enquanto estivermos aqui, temos de aproveitar cada dia como se fosse o último.
Diana Patrícia Silva é natural de Pedrógão Grande, estuda Economia em Lisboa e integra o Movimento Católico de Estudantes
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