Novo ano – As novas aldeias
A partir do momento em que se tem filhos, a passagem de ano assume novos contornos. Ou alguém nos fica com a descendência e conseguimos saborear um pouco da irresponsabilidade anterior à paternidade, ou temos normalmente que procurar ambientes “family friendly”.
No nosso caso, optámos por trazer o filho único e já com cinco anos, o que começa a permitir alguma liberdade de movimentos e atenção.
Estivemos na Várzea de Sintra, na Quinta Ten-Chi, recém comprada por uns recém amigos. O espaço é magnífico, cheio de recantos parecendo sair de um jardim japonês, feito com o esforço da comunidade de praticantes de Aikido de Portugal e do estrangeiro, sob a tutela daquele que, segundo me informaram, trouxe esta arte marcial para Portugal, ou pelo menos foi o seu principal impulsionador – George Stobbaerts, falecido há quatro anos.
As hostilidades já tinham tido início dias antes, visto que esta era a terceira fase de celebração da nova vida desta quinta, agora dirigida por um casal anglo-italiano de investigadores da Fundação Champalimaud, que simultaneamente são entusiastas de práticas várias do corpo e da mente, nas suas infinitas intersecções.
Chegámos ao início da tarde do dia 31 e tentámos integrar-nos em alguns dos momentos programados. Cada participante podia oferecer-se para orientar algum tipo de experiência ou oficina. Eu aderi imediatamente a juntar ramos caídos das enormes árvores da propriedade, por um lado limpando o espaço e por outro acumulando a lenha necessária para uma fogueira a ser acendida ao início da noite, à volta da qual juntaríamos o grupo ali presente: à hora de jantar, umas 30 pessoas. Conhecíamos três delas, o casal anfitrião e mais uma amiga em comum. De resto, era tudo novinho, a ser estreado. Vamos falando e sabendo coisas uns dos outros em acção: fazendo uma salada, um atelier de pintura e narrativa a várias mãos, massagens com sons, indo apanhar o último sol do dia, pondo a mesa, comendo.
Há gente de várias gerações e países. Reflecte bem as recentes vagas de imigração breve ou prolongada que Lisboa, e o país, têm recebido. Começando logo pela minha mulher, que é quem vem de mais longe, da cidade de Sydney. Mas há polacos, alemães, estado-unidenses, franceses, italianos, ingleses, etc., apesar de que os portugueses estão em maioria. Havia mais uma criança, esta de seis anos, e foi o suficiente para deixarmos de ver o nosso filho durante longos períodos. É só dar companhia e um pedaço da Mãe Natureza às crianças para, no seio dessa maternidade, elas parecerem precisar menos dos pais.
As crianças e muitos dos adultos parecem hipnotizados pelo fogo nos momentos antes da meia noite. Há várias tentativas de galvanizar as hostes, mas reina uma retracção, diria eu, babélica. Gente oriunda de lugares e experiências demasiado diferentes, talvez. Chega a meia noite. Percebo que não tinha tido tempo de reflexões ou resoluções para assinalar a passagem. Agora é hora de atirar um ramo ao fogo e pensar em algo de que nos queiramos libertar ao entrar no novo ano. Tudo atabalhoado, no meu caso. Dir-se-ia que hoje acreditarei menos nestas efemérides cheias de ímpetos veementes, e mais nas coisinhas que se vão fazendo no dia a dia. Os hábitos, as rotinas, o assombro que se respira como um ar familiar.
Claro, reconheço a importância das datas, como marcos ou bitolas. Até o coração tem um ritmo. Os dias, meses e anos são as várias cadências que o sol, a lua e as estações nos oferecem. Mas não somos cobras para deixar a pele velha e renová-la a cada ano. Somos mais como árvores, que acumulam mais um anel no seu tronco.
Depois de ter posto a cria na cama, volto e a coisa anima. Puxo de um ukulele, um instrumento descendente do nosso cavaquinho, e com as vontades de quem vai ficando monta-se um festival dionisíaco. Respira-se melhor, os juízes fazem favor de dar licença ou simplesmente retiram-se perante o nível etílico que faz tudo menos diminuir.
E de repente há festa da grossa.
No dia seguinte, massagens, passeios, limpezas, conversas. Cada um se vai recolhendo na sua vida, nas suas importâncias pessoais, nas suas preocupações ou folguedos. Não sem antes se trocarem contactos, com a promessa de que nos visitaremos, ou que faremos algum projecto juntos. Vivem-se tempos fascinantes e inconsistentes, ainda que com uma sombra imprevisivelmente apocalíptica.
Pedro Fabião é psicólogo; “doutor palhaço” na Operação Nariz Vermelho
Breves
Boas notícias
"Doença estava localizada"
Médicos confirmam que Leão XIV não precisará de novos tratamentos
O Papa Leão XIV não precisará de fazer novos tratamentos depois da cirurgia a que foi submetido na semana passada para remover um tumor no pulmão direito. Os resultados definitivos dos exames confirmaram que se tratava de um tumor localizado e a avaliação oncológica posterior concluiu que não é necessária outra terapêutica, anunciou a Santa Sé.
Outras margens
Cultura e artes
[Entre Margens]
A distância e a escrita
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Jornadas dos Bens Culturais
“Uma pintura de Van Gogh pode ser mais religiosa do que a representação do martírio de São Sebastião”
“Uma pintura de Van Gogh pode ser, no seu efeito espiritual, mais religiosa do que a representação do martírio de São Sebastião”, diz uma das artistas que nesta sexta-feira participa nas Jornadas da Pastoral dos Bens Culturais, da Igreja Católica. Estará em debate “a importância dos bens culturais na acção de evangelizar”, dimensão que “tem sido claramente desvalorizada”.
Ensaios, ficção e antologias
Bíblia para jovens, diálogo islamo-judaico, o herege, o monge e os ensaios da contista – novidades literárias até ao Natal
A Bíblia de Lourenço adaptada a jovens, os 1400 anos das relações entre judeus e muçulmanos, um ensaio sobre o Cântico das Criaturas, não-ficção de Flannery O’Connor, uma antologia do “herege” Savonarola ou a autobiografia de Thomas Merton. Alguns dos títulos que, no âmbito religioso, da espiritualidade ou das questões sociais, várias editoras publicam até ao Natal
Ano Jubilar São João da Cruz (9)
João da Cruz: poesia e mística
Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz.
Pessoas
Edição
Um psicólogo no campo de concentração – um livro sobre Viktor Frankl
Uma leitura biográfica, intelectual e testemunhal de uma das figuras mais marcantes da psicologia e da reflexão antropológica do século XX – é desse modo que se apresenta o livro “Logoterapia e Análise Existencial – Vida, testemunho e obra de Viktor E. Frankl”, da autoria de Nuno Almeida, bispo de Bragança-Miranda.
Sete Partidas
[Sete Partidas]
As cápsulas
No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].
Visto e Ouvido
Agenda
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Entre margens
[Entre Margens]
Quando a liturgia deixa de ser liturgia: à luz de Romano Guardini novidade
“A liturgia não diz eu, mas nós”, é a célebre frase do ilustre teólogo Romano Guardini no seu magnum opus O Espírito da Liturgia, frase esta que o Papa Francisco parafraseia na Carta Apostólica Desiderio Desideravi, acrescentando ainda que “…qualquer limitação à amplitude deste “nós” é sempre demoníaca”. [Texto de Diogo Almeida].
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Continuar a confiar
Há pessoas que entram em nossas vidas tão cedo e permanecem por tanto tempo que deixamos de imaginar a possibilidade de perdê-las – não pelo ciclo natural da vida, já explico. De certa forma os anos, por si mesmos, parecem constituir uma espécie de garantia, de blindagem dos laços. [Texto de Denise Sabino Villanova, Brasil].















