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[atravessamos fogos ódio e escombros − minha mãe é aranha! © haiku e fotografia (Roma) Joaquim Félix]
[atravessamos fogos ódio e escombros − minha mãe é aranha! © haiku e fotografia (Roma) Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

O mundo saberá o que escolheu não ver

| 14/07/2025

[domingo xv do tempo comum – c – 2025]

 

  1. Beneficiando da serenidade que tem amaciado este domingo
    – depois de semanas de intenso calor –,
    sentimo-nos como que sentados à sombra sonora
    da palavra de Deus, fecundante na nossa atenção.
    Deus proporciona estas condições de escuta,
    para que, através da leitura do seu desejo revelado,
    possamos mais facilmente colocá-lo em prática.
    Eis o seu primeiro ensejo, dito pela boca de Moisés:
    «Escutarás a voz do Senhor teu Deus» (Deut 30,10).

[Escutarás. Obra de Mimmo Paladino no Hortus Conclusus, Benevento, Itália © fotografia: Joaquim Félix]

[Escutarás. Obra de Mimmo Paladino no Hortus Conclusus, Benevento, Itália © fotografia: Joaquim Félix]

  1. «Escutar melhor» poderia ser um «passatempo» para férias.
    Escutar tudo o que nos é dado a ler, sim,
    mas também tudo o que carece de solidariedade e compaixão.
    Porque escutar é o primeiro passo da mudança.
    Só pelo nosso modo de atuar poderemos saber
    se escutamos bem os outros, as pessoas e demais criaturas.
    É a escuta, e só a escuta profunda,
    que permite o exercício atento da compaixão.
    Sim, para sermos amantes é fundamental escutar.
    A surdez do ouvido e do olhar,
    pelo contrário, desfaz a correlação das instâncias íntimas;
    divide-nos o coração, a alma, as forças e o entendimento.

[Escutar as pessoas e as criaturas. Caniço, Madeira © fotografia: Joaquim Félix]

[Escutar as pessoas e as criaturas. Caniço, Madeira © fotografia: Joaquim Félix]

  1. Hoje, pela manhã, pudemos escutar notícias abomináveis
    que nos põem ao corrente sobre as pérfidas atrocidades
    cometidas contra Ucrânia e a Faixa de Gaza.
    São os relatos da insanidade, do desamor, do ódio.
    É impressionante o número de drones e mísseis
    que a Rússia, auxiliada pela Coreia do Norte,
    está a lançar propositadamente sobre zonas residenciais.

 

  1. Quem de nós poderá permanecer indiferente,
    depois de ouvir os dados fornecidos por observadores da ONU,
    referentes aos males que Israel está a praticar em Gaza?
    Um desses observadores disse que mais de noventa mil crianças
    estavam a padecer de subnutrição severa,
    e, por causa disso, muitas não resistiam.
    Um soco no estômago poderá ter constituído o testemunho
    de uma mulher que, de forma dramática, mas esclarecida,
    referiu que as mães estavam a impedir as crianças de brincar,
    a fim de pouparem energia para sobreviver.
    Mais impressivas serão as imagens daquela criança morta
    – enfaixada, mas de rosto descoberto –,
    a quem todos os familiares beijavam e acariciavam a cabeça.
    Dizia a sua mãe que, em poucos dias, ela passou de 60 para 20 kg.

[As crianças correm para brincar, não para morrer. Serralves, Porto © fotografia: Joaquim Félix]

[As crianças correm para brincar, não para morrer. Serralves, Porto © fotografia: Joaquim Félix]

  1. Infelizmente, estes relatos não são notícias sensacionalistas.
    Custa acreditar que Israel,
    tendo sido vítima de horrendos atentados durante o Holocausto,
    esteja, neste momento, a praticar um autêntico genocídio
    contra o povo palestino, em Gaza e na Cisjordânia.
    Como discípulos de Jesus,
    – judeu que procurou reconduzir o coração dos israelitas –,
    não podemos calar nem cegar nesta encruzilhada da história.
    Cabe-nos alinhar com todos aqueles que denunciam as atrocidades.
    Cabe-nos, sim, encorajar todas as iniciativas que promovem a paz.

 

  1. Uma dessas iniciativas, que devemos apoiar,
    é a Declaração Conjunta de mais de 170 ONG,
    que pedem o fim do esquema mortal da suposta ajuda a Gaza.
    Nela se pode ler que «sob o novo esquema do governo israelita,
    civis famintos e enfraquecidos são forçados a caminhar durante horas
    por terrenos perigosos e zonas de conflito ativo,
    apenas para enfrentar uma corrida violenta e caótica
    para chegar a locais de distribuição cercados e militarizados
    com um único ponto de entrada.
    Lá, milhares são libertados em recintos caóticos
    para lutar por suprimentos alimentares limitados».
    Por causa desse caos, promovido cinicamente por Israel,
    «essas áreas tornaram-se locais de repetidos massacres,
    em flagrante desrespeito pelo direito internacional humanitário».
    No fundo, o governo de Israel proporciona que eles, palestinianos,
    se matem uns aos outros, poupando umas «balas judaicas».
    Todavia, nestas armadilhas com isco,
    sucumbem crianças órfãs, cuidadores e muitos civis.

 

  1. É um esquema que também o Papa Leão XIV denunciou,
    na 44ª Conferência da Organização das Nações Unidas
    para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que decorreu em Roma.
    Embora sem se referir diretamente à situação de Gaza,
    disse ele em termos muitos claros:
    «Estamos a assistir com desespero
    ao uso iníquo da fome como arma de guerra.
    Matar pessoas à fome é uma forma muito barata de fazer guerra».

 

  1. Oiçamos, agora o testemunho de um pai, Ezzideen Shehab,
    que é médico e vive em Gaza.
    Depois que os israelitas cortaram o último dos cabos da internet,
    e após mais um bombardeamento,
    escreveu uma pequena «carta» da qual leio uma passagem,
    para memória futura, sem saber se os escombros tudo sepultariam:
    «Os bombardeamentos não paravam, sobretudo em Jabalia.
    Bombardearam as ruas onde as crianças pediam comida.
    Bombardearam as filas onde as mães esperavam pela farinha.
    Bombardearam a própria fome.
    Sem comida. Sem água.
    Não há fuga possível.
    E aqueles que tentam, aqueles que procuram ajuda, são abatidos.
    As pessoas estão a morrer aqui e ninguém sabe disso.
    Não porque a matança tenha parado,
    mas porque a morte das ligações foi bem-sucedida.
    Se estão a ler o que escrevi, lembrem-se:
    atravessámos o fogo para vos dizer isto.
    Não ficámos em silêncio. Fomos silenciados.
    E quando a ligação for restabelecida,
    a verdade sangrará através dos fios
    e o mundo saberá o que escolheu não ver».
    Li esta parte, mas vale a pena ler todo o testemunho.

[Aprofundar os detalhes. Serralves, Porto © fotografia: Joaquim Félix]

[Aprofundar os detalhes. Serralves, Porto © fotografia: Joaquim Félix]

  1. Que tem tudo isto a ver com o Evangelho?
    Muitas e demoradas vezes me detive, noutras homilias,
    a aprofundar certos detalhes da parábola contada por Jesus.
    Hoje, porém, supondo-os ainda na memória,
    gostaria de vê-los a incidir num conjunto outro de perguntas.
    Não para fazer mais um exame, suplementar ou de recurso,
    mas para sublinhar quanto a resposta de Jesus é atual.
    Será possível estar aqui no culto, ou sair dele,
    como aquele sacerdote e o levita, ambos apressados,
    passando ao lado dos feridos, assaltados e humilhados?
    Não será a história o caminho
    que permite tornarmo-nos próximos uns dos outros?
    De quem é que nos fazemos próximos?
    O que impedirá de nos enchermos de compaixão?
    Cuidar de quem é atingido pela violência e deixado quase morto
    sujará o culto a Deus? Tornar-nos-á impuros?

[Viajar nas férias. Itália © fotografia: Joaquim Félix]

[Viajar nas férias. Itália © fotografia: Joaquim Félix]

  1. Estamos num tempo em que muita gente viaja nas férias.
    Mesmo assim, não nos sintamos dispensados de prestar ajuda,
    como aquele samaritano, que juntou, nos seus gestos,
    todo o seu coração, toda a sua alma,
    todas as suas forças e todo o entendimento.
    Compadecer-se é a melhor forma de ouvir e praticar o amor.
    Cristo Jesus é «a imagem de Deus invisível» (Col 1,15),
    que se faz «carne» em todos os «assaltados» deste mundo.

[Não precisamos de atravessar os mares. Mar do Norte, Suécia © fotografia: Joaquim Félix]

[Não precisamos de atravessar os mares. Mar do Norte, Suécia © fotografia: Joaquim Félix]

  1. Podemos fazer viagens (cf. Deut 30,10-14),
    mas não precisamos de atravessar os mares nem subir aos céus,
    para buscar o «mandamento novo», praticado e ensinado por Jesus.
    «Diz o sr. Dinis que Cristo foi o homem mais inteligente que veio ao mundo.
    E eu concordo porque a caridade é a verdadeira inteligência»
    (Adília Lopes, Dobra, p. 405).
    Em concordância segundo o registo da Palavra,
    o coração e a boca são sedes onde a caridade pode habitar.
    Louise Bourgeois, artista que esculpia grandes aranhas, as «Mamãs»,
    focada na sua solicitude maternal, dizia:
    «Eu transformo ódio em amor».

 

 

Ela usou a arte para transformar o ódio, a rejeição, o sofrimento e a morte,
em relações de cuidado, atenção e misericórdia.
Quanto a nós, discípulos de Jesus,
haveremos de concretizar a nossa compaixão,
em gestos concretos, com a arte da entreajuda.
Sim, como aquele camionista que, na autoestrada,
parou o camião e, com o seu extintor,
se aproximou do carro do Diogo Jota e seu irmão André,
na tentativa de ajudar quem quer que fossem os acidentados.

 

  1. Não precisamos de «belas e grande leis»,
    como aquela de Donald Trump – cínica até nos adjetivos –,
    que poderá matar 14 milhões de pessoas pelo mundo,
    51 mil por ano só nos EUA.
    Em vez de cadeias como a de «Alcatraz dos Jacarés»,
    carecemos, sim, de uma cadeia de relações humanas
    geridas pela lei nova do amor, a praticar no mundo-caminho-comum.
    Desde quando poderá dispensar-se um sorriso que seja
    dos trabalhadores migrantes?
    Lutemos, sim, para que as crianças não cessem de brincar
    por causa da fome, a arma barata dos maus.
    Como seria bom vê-las sempre a saltar
    para cima das suas mães gritando:
    «Mamã, Mamã. Vencemos!».

 

 

Depois da Palavra de bálsamo com que cuidou as nossas feridas,
Jesus aproxima-se ainda mais, na semelhança do «bom samaritano»,
para cuidar, nesta igreja-estalagem, a nossa fome e sede existenciais,
com o pão do mundo e o vinho da alegria.

[Louise Bourgeois: «Eu transformo ódio em amor. Serralves. Porto © fotografia: Joaquim Félix]

[Louise Bourgeois: «Eu transformo ódio em amor. Serralves. Porto © fotografia: Joaquim Félix]

 

[Sê maternal como uma aranha. Balsa. Fragoso © fotografia: Joaquim Félix]

[Sê maternal como uma aranha. Balsa. Fragoso © fotografia: Joaquim Félix]

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 13 de julho, xv do tempo comum – c, proferida pelo autor na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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