[Assunção da Virgem Santa Maria – Solenidade 2025]
1. No dia em que celebrámos a assunção de Maria,
o nosso olhar é convocado para se elevar aos céus.
À primeira vista, gostaríamos de apreciar o céu azul claro,
limpo do fumo dos incêndios que assolam o nosso país.
Lamentavelmente, a Europa está a arder como poucas vezes se viu.
O programa Cupernicus da União Europeia
que monitoriza o clima e informa sobre as mudanças climáticas,
com dados científicos, e apoia as políticas de adaptação e mitigação,
deu a conhecer, há poucos dias, que a Europa
está a aquecer duas vezes mais rápido do que a média global.
Sentimos na pele estas mudanças,
mas far-nos-ia bem refletir sobre as causas do aquecimento.
Nisso nos ajudaria a visita à exposição «This is a Shot»,
no Museu de Serralves, pois propõe 50 obras de referência,
que permitem refletir sobre o mundo contemporâneo,
dos conflitos às migrações humanas e ao ambiente.
Nela se encontram, por exemplo, fotografias de Olafur Eliasson,
que patenteiam o degelo dos glaciares.
Bem, esperemos que hoje Trump e Putin
não derretam nenhum glaciar no Alasca.

[Contemplando as fotografias de Olafur Eliasson sobre o degelo dos glaciares. © fotografia: Joaquim Félix]
2. Nestes dias, se fosse em Portugal
― devido às restrições por causa do perigo dos incêndios ―,
Maria não poderia dirigir-se
«apressadamente para a montanha» (Lc 1,39).
E, em Israel, teria de atravessar postos de controlo militar,
por causa do estado de guerra em que, infelizmente,
se encontra Israel, a cometer um autêntico genocídio em Gaza.
Não. Não é a sua veste rutilante como o sol (cf. Ap 12,1)
que causa tais desastres, fogos ou escombros.
O «enorme dragão cor de fogo» (Ap 12,3)
― hoje, temos de denunciá-lo, atribuindo um nome ao mal ―
é também Israel com as suas políticas
de ocupação e devastação dos territórios dos palestinianos.

[Custa ouvir os sons do violino de cordas em arame farpado. Escultura em honra de Jannis Kounellis. Dicastério da Cultura. Vaticano © fotografia: Joaquim Félix]
3. Atendendo ao número de mortes de crianças,
― 18 500 só em Gaza, sobre as quais me detive há dois domingos ―,
poderia dizer-se que o sinal grandioso que apareceu no céu
poderia entender-se para além da visão messiânica. Sim, além.
De facto, todas as mulheres palestinianas que estão para ser mães,
que gritam «com as dores e ânsias da maternidade»
têm de fugir, nem sabem para onde ― qual deserto? ―,
porque o enorme dragão lança sobre a sua terra
não «um terço das estrelas» (Ap 12,4),
mas bombas e drones teleguiados por inteligência artificial.
Segundo uma publicação do The Washington Post,
Gaza é atualmente um dos piores lugares para se ser criança.
Creio que o Israel, que espera ainda o seu Messias,
se tornou um sinal da devastação e dos escombros
de quem se poderia ler na tragédia do paradoxo em que caiu:
«O dragão colocou-se diante da mulher que estava para ser mãe,
para lhe devorar o filho, logo que nascesse» (Ap 12,4).

[Esculturas em mármore de Carrara, na exposição «Sussurro» em Serralves © fotografia: Joaquim Félix]
4. Tendo a profecia do Apocalipse de S. João leituras mais amplas,
― desde logo a aplicada àquela que viria a ser a Mãe do Messias,
profetizada já no livro do Génesis,
à Filha de Sião e à Igreja atribulada ao longo dos séculos ―,
hoje, para desconsolo dos povos, não poderemos amplificá-la
― ainda que no espelho dramático ― às mães palestinianas?
Perante o que está a acontecer, não podemos fechar os olhos.
Num artigo recente, publicado no jornal digital 7 Margens,
com o título «Genocídio em Gaza:o sentimento de impotência e a tentação de desviar os olhos»,
Jorge Wemans desafia-nos a ter os olhos bem abertos,
não obstante o nosso sentimento de impotência:
«Tão prolongada impotência perante tão inaudito horror
convida a ceder à tentação de desviar os olhos.
De não querer ver, deixar de ouvir, evitar ler.
A tentação e o cansaço são grandes.
Mas trairíamos a nossa humanidade se fechássemos os olhos.
Não. Não podemos deixar de alimentar e aprofundar
a nossa memória olhando e contemplando os poucos sinais
que nos chegam do inferno que Israel
quer manter inacessível aos olhos do mundo.
O nosso primeiro dever consiste em tudo fazer para nunca esquecer».

[Olhos ao alto! © fotografia: Joaquim Félix]
5. Olhos ao alto!
Este podia ser o início do protocolo do prefácio da assunção.
Estamos habituados a ouvir: «Corações ao alto».
Nas orações eucarísticas das liturgias ocidentais não romanas
e nas anáforas orientais, há também outros levantamentos:
«Mentes e espíritos ao alto» e «Corações e mentes ao alto».
Na resposta, faz-se sentir o objetivo do convite:
«O nosso coração está em Deus».
O que, com o novo convite, daria lugar à resposta:
«Os nossos olhos estão em Deus».
No fundo, o convite é para, desde o início do louvor,
nos colocarmos inteiramente em Deus.
Olhos ao alto! É olhar a partir de Deus.
Ao fazer este convite, não proponho, de maneira alguma,
que desviemos os nossos olhos ou os enterremos na areia,
como na provocante caricatura da avestruz de Maurizio Cattelan,
presente na exposição «Sussurro» no Museu de Serralves.
6. Olhar a partir de Deus gera modos de ver melhor.
Como levantar os nossos olhos
tão pesados pelo torpor do tempo e pela carnificina dos dias?
Como dispô-los de forma que eles sejam assuntos ao céu?
Claro, não proponho cair na tentação dos apóstolos no Tabor (cf. At 1,11).
Nem fazer como Tales, de quem se conta que,
caminhando com os olhos voltados para o céu,
a olhar as estrelas, caiu num poço.
Proponho, sim, que possamos ver, a partir da internet,
a instalação Ascension, concebida por Anish Kapoor,
que foi colocada na igreja da Abadia de San Giorgio Maggiore,
em Veneza, durante a Bienal de 2011.
Vendo-a in loco, surpreendeu-me sempre a forma como as pessoas
levantavam os olhos, paravam e abriam a boca em deslumbramento.
Sem pretender discutir o título ou quanto Anish Kapoor disse dela,
creio que, na verdade, se trata de uma Assunção.
De facto, existe uma grande diferença entre ascensão e assunção:
na ascensão, como sucedeu com Jesus,
é Ele quem se eleva por movimento próprio;
na assunção, como celebramos hoje, é ela, Maria, atraída por Deus.
7. O mar convida-nos a olhar o «infinito horizontal»;
deixa-nos a pensar na textura ondulante e suas marés.
Por sua vez, a assunção da Virgem Maria
poderia despertar em nós o «infinito vertical»
ao ponto de, sem vertigens, nos perguntarmos:
«O que se passa com a Mãe de Deus?»
Não deixa de ser curioso contemplar que,
na abside da catedral de Spoleto, na Umbria,
Maria seja representada no leito de morte,
com a sepultura aberta no canto superior direito.
Mais acima, sim, ela aparece a ser coroada.

[Dormição e coroação de Maria. Catedral de Spoleto, Itália © fotografia: Joaquim Félix]
8. O pe. António Vieira, pregando durante a solenidade deste dia,
na igreja matriz do Pará, no Brasil,
remata a sua longa exposição com esta prece:
«Este ditoso dia, Senhora, foi aquele em que,
pagando, como filha de Adão, o tributo à morte,
na mesma hora em que começou a vossa glória se consumou a vossa graça;
pelo que, Senhora da Glória e da Graça,
por vossa santíssima morte nos concedei
para a nossa uma tal hora em que,
acabando esta miserável vida em graça,
na eterna e felicíssima possamos acompanhar vossa glória».

[Mar: contemplação do infinito horizontal. Entre Reggio Calabria e a ilha Sicilia © fotografia: Joaquim Félix]
9. S. Paulo é muito claro no que diz aos Coríntios (cf. 1Cor 15,20-27),
ao colocar-nos a todos sob o signo da vitória de Cristo sobre a morte.
Maria adormeceu e subiu aos céus, em corpo glorioso.
Contudo, ela não nos abandona, deixando-nos órfãos.
Isso nos lembra a Constituição Luz dos Povos (Lumen Gentium):
«Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma,
é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro,
assim também, na terra,
brilha como sinal de esperança segura e de consolação,
para o Povo de Deus ainda peregrinante,
até que chegue o dia do Senhor (cf. 2Ped 3,10)» (LG 68).

[A ressurreição, como a devastação, não nos deixa enfiar a cabeça no chão. Avestruz de Maurizio Cattelan, Serralves © fotografia: Joaquim Félix]
10. Por isso, podemos dirigir-lhe as nossas súplicas,
assumindo, por exemplo, a Prece de Fernando Pessoa,
tão bem cantada por Maria de Bethânia e Cátia Guerreiro,
da qual transcrevo apenas duas estrofes:
«Bendita sois vós, Maria
entre as mulheres da Terra
vossa alma só encerra
doce imagem de alegria.
Ditosa Santa Maria
Vós que sois a Mãe de Deus
e que morais lá nos céus
rogai por nós cada dia.»
11. Inspirados pela saudação e Isabel e o Magnificat de Maria,
a senhora da Humildade olhada por Deus,
também nós podemos dirigir-lhe as nossas saudações.
Ou, juntamente com o Coro de Câmara de Zurique,
cantar «Um hino para a Virgem», composto por Benjamin Britten.
Atendamos à parte I, da qual transcrevo a estrofe:
«De alguém tão belo e brilhante,
Velut maris stella, (Como uma estrela do mar)
Mais brilhante do que a luz do dia,
Parens et puella: (Pai e menina)
Eu clamo por ti, olha por mim,
Senhora, reza ao teu Filho por mim,
Tam pia, (Tão pia)
Para que eu possa chegar até junto de ti.
Maria!»

[Em Cristo serão todos restituídos à vida. Entrada de luz no teto da igreja de San Rocco, em Sambuceto, fração de San Giovanni Teatino, próxima de Chieti, Itália © fotografia: Joaquim Félix]

[Deus, olhando para a humildade de Maria, assumiu-a nos céus. Nossa Senhora da Humildade. Museu da catedral de Salerno, Itália © fotografia: Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de sexta-feira, 15 de agosto, Assunção da Virgem Santa Maria – Solenidade 2025, proferida pelo padre Joaquim Félix na comunidade paroquial de Fragoso (S. Pedro), Barcelos.











