O que esperamos nós em multidão no Forum?
Os Bárbaros que chegam hoje. (…)
Os Bárbaros, quando vierem ditarão as leis.”
[Konstantino Caváfy, “À espera dos Bárbaros”,
in 90 e mais quatro poemas (trad. Jorge de Sena), Editorial Inova]
A citação que transcrevemos diz respeito a uma época histórica em que os romanos temiam a invasão de hordas de povos incivilizados que ameaçavam as fronteiras do Império. E temia-se não só a violência previsível dos ataques como, sobretudo, a perda de uma cultura construída ao longo de séculos na qual as leis (boas ou más) eram respeitadas e as pessoas se sentiam seguras no seu quotidiano. Mau grado as arbitrariedades e injustiças dos mais poderosos, nomeadamente dos imperadores e da sua corte de familiares e amigos, a existência de instituições eficazes conseguia assegurar um quotidiano tranquilo para a maioria daqueles que respeitavam as leis. Mas o poderio militar de Roma foi-se tornando ineficaz perante a ameaça dos diferentes povos que rodeavam as fronteiras do Império, uma situação preocupante à qual se somava a incapacidade política dos governantes – quando recordamos a série de loucos, de assassinos e de depravados que se alternaram nos diferentes governos romanos, constatamos como progressivamente os ideais de equidade e de justiça se foram perdendo e como a ostentação e a ganância ganharam lugares de relevo.
O excerto do poema de Caváfy acima transcrito diz respeito a essa época longínqua mas, na realidade, é também particularmente significativo para o nosso tempo. É verdade que depois das duas grandes guerras mundiais os conflitos não cessaram, mas foram de um modo geral, em pequena escala e, nomeadamente para a Europa, a Aliança Atlântica aparecia como resposta animadora e positiva, afastando o fantasma das grandes catástrofes políticas. Os pactos eram respeitados e quando tal não acontecia havia sempre instâncias de recurso possível, de modo a minimizar a violência. Note-se que o medo, nomeadamente de uma catástrofe nuclear, também foi um travão eficaz para os possíveis grandes conflitos.
O tempo que hoje vivemos é diferente e o desrespeito das leis internacionais é visível, presente quotidianamente nos noticiários a que assistimos. A força tornou-se de novo um factor político determinante, a mentira usa-se com despudor para justificar actos inqualificáveis como raptos de dirigentes, apropriação indevida de territórios, desrespeito por tratados e compromissos há muito firmados. Voltámos de novo ao regime impensável da lei do mais forte, ou seja, estamos de novo nas mãos dos bárbaros que esquecem os tratados e os compromissos forjados a partir de cedências mútuas.
O excerto do poema de Cavafy que nos habituámos a situar na Roma antiga, tornou-se infelizmente numa ameaça para os nossos dias.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










