Quando isto me acontece lembro-me sempre de um verso que escrevi no poema Albufeira – E quem não pertence, deixa de existir.
Os versos não têm de ser invenções da roda ou máximas de originalidade. Os versos, as quadras, os textos, os capítulos de quaisquer coisas que se escrevam, podem ser apenas constatações, um género de descobertas como as de Pedro Álvares Cabral – ou seja, descobrir o que já existe sem que o descobridor saiba disso.
A obsessão pela originalidade traz consigo o perigo da corda bamba a pender cambaleante para o abismo do ridículo. E o que é o cambaleio senão a consequência da embriaguez?
Será que os pioneiros dos mais variados géneros artísticos ao longo dos séculos inventaram a novidade de propósito, ou a invenção só lhes aconteceu sem querer? Às tantas, vai-se a filosofar e chega-se à conclusão de que foram os géneros que inventaram os seus artistas, será? É como dizem os entendidos do amor – Ele aparece quando menos se espera, nunca enquanto o procuramos. Um género de lei de Murphy, por assim dizer. Será que Edward Murphy preferia a originalidade ou o pertencimento?

“Pasmei-me – a mulher tinha na mão exatamente a mesma edição de Crónica de uma morte anunciada que eu (aquela edição de bolso que se compra no Continente a sete euros e cabe em qualquer mala).” Foto © Ana Sofia Brito
Não se força uma originalidade, soará a nada, a vazio, a qualquer coisa que não é, que não cabe em lado nenhum, mas também não sobra, é desconexo.
Numa das muitas entrevistas que ouço e reouço reouvindo até decorar – nunca escondi a minha compulsão obsessiva por entrevistas a gente interessante – o Lobo Antunes diz que gosta de ler autores que se parecem a outros, significa que leram.
É preferível fazer lembrar um outro autor com dignidade do que soar a eco desguarnecido. Atenção, nada contra a originalidade, entenda-se. Só mesmo contra a fixação cega de a alcançar a troco de nada. Como se valesse mais do que o resto ou por si só.
Isto tudo e mais um bocado só para dizer que não olho para os meus versos como descobertas de rodas ou novidades a dar ao leitor, é antes e apenas um jogo de constatações, de validações do que outros já me terão dito ou que eu já terei pensado sem tê-lo sentido. Quem não pertence, deixa de existir não é surpreendente, um básico em sociologia sabê-lo-á com uma perna às costas. A questão é que pertencer é altamente divertido quando acontece nos pormenores menos esperados da casualidade dos dias. A famosa e misteriosa coincidência.
Ir à praia é-me aborrecido. Ficar estendida ao sol desanima-me, estar de biquíni é-me desconfortável (algo a tratar em terapia, eu sei, obrigada!), sentir calor tira-me a energia, a areia entranhada nos dedos dos pés faz-me confusão.
Gastei a praia toda nos anos da infância e da adolescência – não havia adolescente albufeirense dos anos 90 que não fosse surfista e eu não era exceção, não havia criança albufeirense dos anos 80 que não fosse neta, filha, sobrinha ou amiga de pescadores e, no verão, passasse dez horas por dia na praia, e eu não era exceção. Mas hoje, na meia idade atingida, ir à praia durante o dia (à noite vou porque não tenho outro remédio uma vez que trabalho lá) é uma auto-imposição, um contrato comigo mesma em nome da saúde e da melanina. Algarvio que se preze não pode ter a pele desbotada em tons de cinza em pleno verão, é constrangedor. Por isso vou, a muito custo, vou, aos poucos, apanhar esses bocados de sol – se bem que este ano, verdade seja dita, estou longe de atingir os objetivos no que respeita a bronzeado.
Adiante … por ser um sacrifício tão grande, levo sempre comigo um livro, claro está, forma eficaz de fazer passar o tempo mais rápido. Vê-se gente a ler na praia e ao pertencer, existimos.
Aconteceu-me uma vez – com A Caverna, do Saramago – de passar por outro leitor que o lia também, um grego, que o lia na versão inglesa. Foi em Malta, numas das várias férias de mãe solteira que passei com a minha filha nos seus tempos de criança. Lembro-me que foi numa tarde cinzenta e ela dormia no carrinho (por isso devia ter uns dois ou três anos, onde é que esse tempo já vai), sentei-me numa esplanada, tirei o livro da mala e pedi uma cerveja. A duas mesas de distância um rapaz também lia e também bebia cerveja – olhámo-nos com a cumplicidade dos que pertencem ao mesmo gang, um sorriso contido (meio a medo de más interpretações) a significar tamujuntu. Aquela comichão inquieta de forçar os olhos na distância de perceber que autor seria o dele – nós, os leitores, conhecemos as pessoas através das suas preferências. O gajo que lê Agatha Christie não tem o mesmo feitio do que o que lê Nicholas Sparks, por exemplo. Estranho seria.
Consegui ler José Saramago na capa do livro, não resisti, levantei o meu exemplar para que ele reparasse e com o indicador vaidoso apontei para o nome do autor. O grego afinou os olhos e sorriu. Levantou-se e veio até mim, ao perto pude ler o título The Cave numa edição de capa acinzentada.
Pedimos mais duas cervejas e falámos sobre a curiosidade que nos acabara de acontecer, de livros, de Saramago e dos nossos países. Lermos o mesmo livro ao mesmo tempo era sinal de uma quase cumplicidade, por breves momentos acreditámos no destino.
Entretanto, a Luana acordou e fomos as duas ao parque prometido, o grego permaneceu na esplanada com o Saramago. Trocámos os números de telefone mas nunca nos telefonámos. Não me lembro do seu nome, só de que era grego. Ele também não se lembrará de que me chamo Sofia, há de lembrar-se apenas da portuguesa que tinha o privilégio de ler A Caverna no original.
Ontem, em plena tarde louca de agosto, na praia da Nossa Senhora da Rocha, nesta luta inglória entre o desconforto e a autoestima que se adquire ao amorenar o corpo, vi uma mulher sentada à beira mar a ler um livro de bolso. Depositei-lhe os meus olhos de águia mas não alcancei o título, a minha retina deixou de ter as capacidades de tempos idos, e não logrei decifrar a capa. Inconformada e curiosa, como assumida teimosa que sou, levantei-me e fui a banhos, só para passar pela mulher e perceber o que lia, passei olhando-a indiscretamente, a forçar uma compreensão de sou das tuas, ou és das minhas.
Pasmei-me – a mulher tinha na mão exatamente a mesma edição de Crónica de uma morte anunciada que eu (aquela edição de bolso que se compra no Continente a sete euros e cabe em qualquer mala). Sorri-lhe, mas ela não me devolveu o sorriso. Subi até à toalha e voltei com o meu trunfo, mostrei-lho e foi então que ela me sorriu de volta – porque a cumplicidade conquista-se e dá trabalho.
Lembrei-me do grego. Quinze anos depois, o que andaria ele a ler? Que pena ter perdido o número nas tantas e tão poucas trocas de aparelho telefónico.
A sociologia explica ao pormenor o conforto que é pertencer. Pertencer é existir. E isto, mesmo tão longe de ser original, explica quase tudo e é sempre bom de lembrar.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”, “O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro o livro de poesia “Tempo”. É autora de um podcast, “Direito ao Grito“, da Fnac e assina a rubrica mensal “E por falar em livros…” no jornal “Sul Informação”.










