No final do primeiro semestre deste ano lectivo, recebi a crítica de um aluno que se sentia injustiçado por ter de comprar um livro da minha co-autoria, ao invés de receber os slides (diapositivos) gratuitamente. Justificava que, pagando propinas, não via razão para gastar mais dinheiro num livro de estudo. — “Dê-me os slides, professor”, imaginei eu estas palavras na boca do aluno anónimo. Em primeiro lugar, ele desconhece que as propinas podem representar cerca de 14% do custo efetivo da sua formação para a Universidade. Em segundo lugar, talvez tenha estado demasiado tempo a tomar o “soma” dos slides, oferecido por uma cultura de ensino que, aos poucos, vai deixando de lado os livros.
Em Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, as pessoas mantinham-se felizes enquanto tomassem “soma” — uma droga sintética, amplamente distribuída pelo Estado, que garantia estabilidade social e uma felicidade artificial. Sem grandes efeitos secundários e sem risco de dependência física, esta substância proporcionava uma fuga imediata de qualquer sofrimento ou inquietação, induzindo um estado de euforia e bem-estar. Era também um mecanismo de controlo social, pois mantinha a população satisfeita, sem questionar a ordem estabelecida. Cada indivíduo tomava a dose que precisasse, desde pequenas pílulas diárias até “férias de soma” prolongadas, mergulhando num longo êxtase inconsciente. Desta forma, a droga simboliza a supressão da dor e da realidade, refletindo a crítica de Huxley a uma sociedade que busca o prazer superficial em detrimento da autonomia e da autenticidade da experiência humana. Aparentemente, os slides podem ter-se tornado num “soma” para uma aprendizagem facilitada, afectando o ensino, algo que poucos notam até ao dia em que o professor decide trocar os diapositivos pelo quadro.

“Em primeiro lugar, ele desconhece que as propinas podem representar cerca de 14% do custo efetivo da sua formação para a Universidade. Em segundo lugar, talvez tenha estado demasiado tempo a tomar o “soma” dos slides, oferecido por uma cultura de ensino que, aos poucos, vai deixando de lado os livros.” Foto: Slides O ‘Soma’ da Educação. Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.
Nos últimos tempos, Adrian Bejan, criador da Teoria Construtal, tem partilhado no YouTube aulas de Design Construtal envolvendo conhecimentos de termodinâmica, mecânica dos fluidos e transmissão de calor (esta a disciplina que lecciono também). Só depois de ler o comentário anónimo do meu aluno me apercebi de que Adrian não utiliza slides: expõe as suas ideias no quadro, oferecendo um ritmo de pensamento próximo do que o aluno irá experimentar ao resolver um exercício durante o estudo ou exame — ou mesmo na sua vida profissional. Se Adrian usasse slides, nada escreveria e apontaria para as equações, dispensando a necessidade de as representar de raiz; e os alunos, de braços cruzados, provavelmente deixariam de tomar notas, porque “depois vêem os slides”. Este “soma” parece-me ser o princípio do fim do ensino num mundo novo, cada vez menos admirável.
Tal como o “soma” em Admirável Mundo Novo, os slides funcionam como um sedativo intelectual, oferecendo uma sensação de segurança e acesso imediato ao conhecimento sem a necessidade de exploração ou reflexão aprofundada. À semelhança da passividade das personagens de Huxley, que aceitavam sem contestar a realidade que lhes era entregue, também muitos estudantes de hoje abandonam a consulta de livros e outras fontes, confiando cegamente na aparente completude dos slides. O perigo está nessa aparente “comodidade”, que pode esvaziar a procura genuína pela compreensão, substituindo o estudo ativo pela contemplação superficial de conteúdos resumidos — uma aprendizagem passiva, em vez de um processo vivo de descoberta e construção do saber.
É certo que, em algumas disciplinas, os slides podem acrescentar valor, não como “soma”, mas como um “portal” para mostrar imagens ou esquemas difíceis de desenhar ou visíveis apenas com equipamentos especializados. Um pequeno filme projectado num slide pode também ilustrar melhor certos fenómenos do que palavras ou esboços. A diferença reside em usar este recurso como apoio visual e comunicativo — tal como nas inspiradoras TED Talks — ou em transformá-lo num documento que substitui fontes mais extensas e aprofundadas, empobrecendo, assim, a experiência formativa.
Talvez seja altura de repensarmos o que significa verdadeiramente aprender. Afinal, se nos contentarmos apenas com estes “somas” modernos, corremos o risco de ficar presos a uma narrativa única e pré-embalada. O desafio passa por resgatar a curiosidade genuína — folhear um livro, formular perguntas difíceis, debater ideias com colegas, ir além da síntese rápida oferecida pelo ecrã. Se os slides, em determinadas ocasiões, podem servir de porta de entrada para novas descobertas, então que não sejam também a porta de saída para o pensamento crítico, isto é, abandonando o exercício e esforço de criticar aquilo que nos estão a ensinar. Neste sentido, cada professor e cada estudante tem o poder de inverter a dinâmica: transformar a sala de aula num laboratório de questões, não num depósito de slides que perpetuam o “soma” de uma aprendizagem superficial. É um convite simples, mas profundo: trocar a passividade pelo entusiasmo de quem verdadeiramente quer compreender o mundo.
Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao







