Embora não nos apercebamos deste facto, se somarmos os tempos de espera das nossas vidas obteremos um resultado de meses ou mesmo de anos. Há esperas boas, como aquelas em que aguardamos a chegada de familiares ou de amigos no aeroporto e finalmente os abraçamos e recebemos. Também há datas importantes que celebramos com optimismo e satisfação, sendo a sua espera aprazível pois de antemão estamos cientes de que o resultado vem ao encontro dos nossos desejos. Há esperas fastidiosas, como acontece nos consultórios médicos e nos serviços públicos onde os nossos interlocutores são invisíveis, pois apenas temos como referência um quadro electrónico. Há esperas angustiantes, quando pretendemos saber o resultado de exames, nomeadamente quando está em causa a nossa saúde e apenas temos como interlocutor o referido quadro onde o nosso número tarda em aparecer. Há esperas exasperantes, quando dependemos de atrasados crónicos que nem sequer se justificam do tempo que nos fizeram perder. Mas também há esperas agradáveis quando se trata da chegada de familiares ou de amigos nos aeroportos e nas estações de comboios onde os abraços de boas-vindas fazem esquecer o tempo perdido. Há esperas esperançosas quando aguardamos o nascimento de um ente desejado. Há esperas angustiantes quando a morte se apresenta como a única solução possível. A espera vive-se bem se for aproximada de esperança e é negativa quando sabemos de antemão que nada de bom resultará deste passar do tempo.
Há um mês estive horas sem fim na sala de espera de um hospital público, preocupada com um familiar doente. Para além de um quadro electrónico onde se registavam os “desesperados”, passaram-se horas sem qualquer informação e sem que alguém nos esclarecesse quanto à demora. Depois de um diagnóstico provisório onde nos foi prometido um atendimento posterior mais aprofundado, a sala foi-se enchendo de gente a tossir, a gemer, a suspirar e alguns mesmo a gritar.
O doente que eu acompanhava já tinha entrado numa normalidade aparente, retomara as cores, o tom de voz e a calma. O seu mal-estar era agora apenas devido ao desejo cada vez mais presente de voltar para casa e regressar a uma vida normal, abandonando a ansiedade de uma espera que se apresentava interminável.
Hesitei em propor-lhe uma fuga, pois de antemão sabia que aceitaria a proposta. Antes de a concretizar, consultei a senhora sentada ao nosso lado que me informou ser comum naquele hospital os doentes entrarem de manhã e serem atendidos ao cair da noite, pois logicamente passavam à frente os mais carecidos e os restantes iam ficando num limbo que se ampliava consoante a gravidade dos casos. Aceitei a lógica da explicação dada, o que teve como consequência decidirmos sair sem informar ninguém. Foi uma decisão arriscada e imprudente, que felizmente não teve consequências e que não deve servir de exemplo a ninguém, pois tenho consciência dos riscos de decisões como esta que tomámos.
Note-se que este meu texto não tem como objectivo elogiar as fugas dos serviços de urgência, mas apenas alertar os mesmos para a necessidade de se ir informando os doentes quando a espera é muito longa, o que facilmente poderá ser feito no quadro electrónico onde se registam as chamadas. É um procedimento que vivamente aconselho para evitar que se acrescentem perturbações psíquicas aos males físicos que levam os doentes a recorrer às urgências.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.










