Há um vazio grave que a Igreja Católica em Portugal não tem sido capaz de preencher nos últimos anos. E há uma pergunta fundamental sem resposta.

Assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, Abril 2022, em Fátima: vazios e perguntas à espera. Foto © Agência Ecclesia/PR
1.
A Igreja Católica teve durante largos anos, em Portugal, vários homens e mulheres profundamente conhecedores do pensamento social, que articulavam a mística, a abordagem real dos problemas e a proposta consequente de acção. Falo de pessoas como Alfredo Bruto da Costa e Manuela Silva (que se dedicaram ao estudo da pobreza em Portugal), Maria de Lourdes Pintasilgo (relatório Cuidar o Futuro, acessível na internet), Acácio Catarino (programas de redução das desigualdades), ou José Dias da Silva, por exemplo. Ou, mais atrás, o padre Abel Varzim (católicos nos sindicatos) e o padre Joaquim Alves Correia ou João Bénard da Costa e João Salgueiro (intervenção política dos católicos), entre muitos outros. Sempre fundados numa profunda leitura da Bíblia, da grande tradição mística e teológica da Igreja e dos seus principais documentos sociais.
Todos esses protagonistas desapareceram e ficou um vazio grave, porque não houve capacidade de criar uma escola de pensamento social católico que divulgasse os grandes documentos do magistério dos papas e dos bispos, que os aprofundasse na ligação aos “padres da Igreja” (os teólogos dos primeiros séculos) e propusesse caminhos de solução para os problemas da sociedade.
Hoje, a esmagadora maioria dos católicos em Portugal desconhece o conteúdo das encíclicas dos papas, tem uma memória difusa do que foi o II Concílio do Vaticano e dos seus documentos (ou já nem sabe bem o que isso foi e nem sequer conhece o livro) e não sabe distinguir entre os critérios fundamentais e secundários do pensamento social católico. Claro, há pessoas que conhecem o pensamento social da Igreja, mas aquilo que as anteriores gerações tinham era a capacidade de, a partir dele, gerar iniciativas concretas. Tudo isso morreu com os seus protagonistas.
E sobre isto o que têm os bispos portugueses a dizer? Pouco, sabe a pouco o que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) tem promovido e o que mais uma vez concluiu também nesta quinta-feira, ao terminar em Fátima a sua assembleia plenária, durante a qual a situação social do país e das IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social) foi também debatida. No comunicado final – na sequência aliás do discurso assertivo do seu presidente na abertura da assembleia, segunda-feira passada – uma referência à “grave situação em que vivem muitas famílias no nosso país, com a dificuldade de acesso a bens essenciais e à habitação”. Depois, a preocupação pela situação de muitas IPSS. E, mais à frente, a memória de que a Acção Católica, que nesta quinta-feira completou 90 anos e cujos membros os bispos desejam que “continuem, com renovado entusiasmo, a sua missão evangelizadora”.
Começando pelo fim: a Acção Católica foi, durante décadas, uma escola de “formação de muitos e reconhecidos políticos nacionais”, como ainda nesta quarta-feira recordava o padre Fernando Calado Rodrigues, de Bragança, na sua crónica semanal no Jornal de Notícias. “Foram tempos que precederam e prepararam o regime democrático em que vivemos há quase 50 anos. Este, no entanto, corre o risco de se degradar – e até de desaparecer -, se não for devidamente cuidado”, acrescentava o mesmo autor. Que manifestava ainda o desejo de encontrar novos actores “para revitalizar a democracia portuguesa com os contributos da doutrina social da Igreja”.
A crise da Acção Católica vem de longe e tem vários factores na sua origem. Mas uma coisa é certa: muitas das lideranças sociais, políticas e culturais do país passaram por essa escola de participação, leitura crítica e crente da realidade, confronto com o Evangelho e o pensamento social da Igreja e intervenção consequente. Não basta, por isso, fazer declarações sobre a importância de uma instituição que se mantém pela militância de uns poucos, às vezes muito insatisfeitos pelo reduzido apoio recebido dos bispos.
Se ligarmos isto à afirmação reiterada do Papa Francisco de que os cristãos devem “sujar as mãos na política” e à atenção que dedicou a questões políticas nas encíclicas Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum, e Fratelli Tutti, acerca da fraternidade e amizade social, teremos então traçado o caminho necessário para a intervenção dos cristãos.
2.

Na Ucrânia, uma criança observa edifícios destruídos pela guerra: qual o papel dos crentes para acabar com a insanidade? Foto © UNICEF/Diego Ibarra Sánchez
Chegamos, então, à pergunta fundamental que no último ano tem assaltado tantos de nós: como acabamos com as guerras no mundo e as tragédias que a insanidade de alguns provoca? Seja na Ucrânia, em Israel, em Gaza, no Iémen, na Síria, na Nigéria, no Congo, na Etiópia e em tantos lugares onde se concentra todo o sofrimento do mundo? Se os crentes, quando se envolvem mais diretamente na vida política, não têm o Evangelho (ou a Torá ou o Alcorão ou o Bhagavad Gita ou o Upanishads) como critério fundamental da sua acção na procura do bem comum e da melhor forma de tornar o mundo mais habitável para todos os seres humanos, então para que serve a sua fé?
Traduzindo essa pergunta para a crise que vivemos em Portugal, sabemos que muitas famílias vivem mal e que isso vem de há décadas, mesmo se agora se agravaram problemas como o acesso à habitação; e que a taxa de pobreza não desce quase nunca dos 20 por cento e, se não fossem as transferências sociais, quase metade da população portuguesa estaria em risco de pobreza.
Perante isto, voltamos à mesma questão sobre onde estão os católicos (e outros crentes) na política. É certo que muitos estão envolvidos em organizações de solidariedade mas é preciso mais, muito mais. E é necessário, sobretudo, aprofundar a formação a partir da Bíblia, da teologia e dos principais documentos do magistério. Aqui, está (quase) tudo por fazer.
3.
Falemos das IPSS. Em 2010, um estudo feito pela Universidade Católica concluía que uma boa parte dessas instituições sociais dependem directamente do Estado, para fazer normalmente o que o Estado não faz e, em muitos casos, deveria fazer. Os próprios dirigentes da IPSS falavam, nessa altura, da “falta de autonomia” das instituições católicas em relação à administração central ou local, mesmo se os números também traduziam a capacidade de a Igreja “se inscrever no âmbito social com regras de acção de outros actores”, como notava o coordenador do estudo, Alfredo Teixeira.
Também aqui era necessário ver mais longe. Em vez de lamentar apenas a falta de cumprimento do Estado em relação ao que ficou decidido no Pacto de Solidariedade, a CEP deveria questionar-se (e questionar os católicos), sobre o que está a Igreja a fazer na atenção a novas formas de pobreza, marginalidade e exclusão e não se ficar apenas pelas respostas sociais na criação de lares de idosos, creches e outras instituições do género. Que fique claro: estas iniciativas são importantes, mas é necessário ver mais longe. E é essa lacuna que continua por preencher.
4.
Com a crise política aberta pela demissão do primeiro-ministro e a convocação de eleições legislativas antecipadas, o bispo José Ornelas avisou contra os riscos da apatia e dos populismos. Já sabemos que, pelo histórico dos últimos anos, as eleições de Março terão altos índices de abstenção confirmando a apatia de tantos cidadãos e correm o risco de dar um palco ainda maior às forças populistas e xenófobas que já cresceram entre nós. De novo, a formação dos crentes poderia ser um importante contributo a obstar a esses dois movimentos.
Há um mundo para transformar de selvagem em humano e de humano em divino, dizia o insuspeito Papa Pio XII. Esta afirmação poderia ainda hoje fazer-nos entender que os crentes têm de ser chamados e interpelados a muito mais. Se não, teremos de falar também de apatia da Igreja e dos católicos. O vazio grave aqui registado tem de ser preenchido e as perguntas têm de ter respostas.










