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[Dicionário particular II]

‘z’ de zangado – o anão e o candidato a presidente

| 04/02/2026

 

Há quem diga que os contos de fadas são só para crianças, eu acho que não, que também são para adultos cansados, a precisar de metáforas que suportem a realidade. É o caso da Branca de Neve e os Sete Anões. E, não, não é pela inocência, é pela capacidade de resumir o mundo em pelo menos sete arquétipos – um por cada anão – de entre os quais destaco o anão Zangado.

O anão Zangado salta da cama ofendido com a chuva, com o sol, com a própria existência. Permanece em protesto, como se alguém lhe devesse um pedido de desculpas só porque amanheceu. O Zangado é tal e qual como o Candidato a Presidente, que aparece, e aparece, e aparece, na televisão sempre com a expressão de quem acabou de tropeçar num balde de estrume e decidiu que a culpa é de um país inteiro.

O anão Zangado está em vantagem, era honesto na sua irritação. Não fingia estar zangado por altruísmo, nem ralhava “pelo bem dos outros”, limitava-se a ser aquilo que era: um pequeno vulcão de mau humor com barba. Já o Candidato a Presidente veste a fúria como quem veste um traje de gala: ensaiada, polida, estrategicamente despejada em frases curtas, prontas para caber num rodapé televisivo ou nas redes sociais. O Zangado resmungava por tudo e por nada; o candidato resmunga com tudo e com todos, até com os microfones.

Passemos à estatura, não a física, mas a simbólica. O anão Zangado era pequeno e sabia-o, não tentava parecer gigante, já o Candidato a Presidente ergue-se em bicos de pés discursivos, tentando parecer maior do que a sua própria sombra. Grita para mostrar que é grande, mas como acontece com as crianças que fazem birra no supermercado, quanto mais barulho faz, mais evidente se torna o tamanho real.

No conto, a Branca de Neve entra na vida dos anões como uma espécie de bálsamo, uma presença que suaviza, que ilumina, que traz ordem ao caos doméstico. Na nossa história, porém, não há Branca de Neve que nos valha: o país assiste ao espetáculo do zangado Candidato a Presidente com uma mistura de fascínio e fadiga, assim como quem vê o leite a ferver e pensa: “Isto vai entornar, isto vai entornar, vou esperar, deixa ver até onde vai!”

O Zangado anão, era apenas um anão zangado, nunca quis ser príncipe ou rei, já o candidato zangado tem ambição. Por agora quer ser Presidente da República Portuguesa, mas já quis ser primeiro ministro, por isso, depois se vê o que mais será e quererá.

Tudo o que vem do candidato a Presidente torna-se deliciosamente absurdo, por exemplo: transforma irritação em programa político, como se bastasse dizer tudo e o seu contrário, mostrando os dentes afiados e franzindo o sobrolho, para resolver desigualdades, crises, guerras e o preço dos brócolos. É profundamente perturbador ver a sua ambição embrulhada em fúria, sendo a revolta um plano, a raiva a solução, e o ressentimento uma bússola.

No final do conto, o Zangado, anão, amolece e até é capaz de sorrir, mas a realidade com que nos deparamos hoje é bastante mais sombria e, por isso, o Candidato a Presidente – que em breve deixará de o ser – irá endurecer: descobriu que a ódio e o preconceito dão votos e o ruído dá poder. Então, lá vai ele, zangado, o Candidato a Presidente, vai como quem caminha pela floresta, não como alguém que quer cuidá-la, mas, sim, moldá-la à sua amargura. Irá a marchar pela vida como quem perde o autocarro e decide candidatar-se a tudo, só para se vingar do motorista.

Em resumo, como moral da história: as histórias dos Irmãos Grimm ensinam-nos muitas coisas, mas a História da democracia ensina-nos que o perigo não está nos anões, está em deixarmos que a intolerância e a segregação nos venham “governar”, porque se permitirmos que alguém, que vê o mundo com uns olhos franzidos e uma mente sinuosa ganhe espaço, e chegue demasiado longe, a floresta deixa de ser floresta e passa a ser labirinto, e num labirinto orientado pelo enviesamento ninguém encontra a saída.

No próximo domingo, dá um final bonito à História, pergunta ao espelho:
– Espelho meu, espelho meu, haverá voto mais Seguro do que o meu?
– Não, um voto Seguro é o mais seguro! – responderá o espelho

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

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