AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Trocar o certo pelo incerto

Trocar o certo pelo incerto

e | 1 Dez 18

Numa aldeia do Chade, onde era a única branca, contraiu malária e chegou a dormir com 40º Celsius numa casa sem eletricidade. Sentiu medo quando, durante algumas horas, foi a única mulher num centro de refugiados em revolta, na Sicília. Nada disto a demove de voltar a trabalhar com refugiados, desta vez em Adjumani, no norte do Uganda, para gerir os projetos de educação do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS, da sigla inglesa).

Joana Gomes, 30 anos, estava na Sicília em 2016, quando se registou uma das grandes vagas de chegada de refugiados à Europa. Uma experiência “muito intensa: vinham todos com depressão, não conseguiam dormir e andavam muito perdidos e desorientados – já que o processo de pedir asilo e estatuto de refugiado era muito novo”, contava ao 7MARGENS, antes de partir para o Uganda, no final de setembro. 

Tendo dedicado vários anos a trabalho de voluntariado e missionário, Joana recorda algumas das suas experiências. Na Sicília, esteve no mesmo centro de acolhimento a refugiados em três momentos diferentes. Isso permitiu acompanhar as mudanças dos migrantes: de refugiados perdidos a pessoas mais estáveis e, por fim, cidadãos inseridos na sociedade. 

Entre as histórias que a marcaram, está a de Buba, um jovem natural da Gâmbia. 

Natural de Lisboa, licenciada em serviço social, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa e com mestrado em Gestão de recursos humanos no ISCTE, Joana sempre olhou para a problemática dos refugiados como algo que a toca especialmente. Por várias vezes na Europa, viu condições de vida muito precárias: “A Europa diz que está preocupada e a acolher mas aquilo não era bem um acolher. Temos de tentar perceber qual a causa de saída dos países (dos refugiados), o que está a acontecer lá e trabalhar na origem.”

É essa a motivação de Joana para trabalhar em locais diferentes e remotos, “amassar a massa que ninguém quer amassar”. Ainda há muito a fazer para que o processo de um refugiado se torne seguro, diz. Conheceu histórias chocantes de pessoas que “trabalham o ano inteiro como escravas” para ter lugar num pequeno barco que atravessa o Mediterrâneo e que, muitas vezes, “nem gasolina tem para o caminho todo”. 

“Choca-me como é que não se atua aqui, como é que não há políticas que facilitem o processo. Mas digo isto e sei que, politicamente, é algo muito exigente – porque ajudar implica que a Europa aceita e recebe.”

Vem-lhe desde pequena o gosto, que se torna evidente quando fala, por trabalhar nesta área. Joana desenvolveu a consciênciade que “o mundo é muito maior do que a minha vida, do que Lisboa e Portugal”. Foi isso que aguçou a sua curiosidade “pelo mundo, pelas culturas e pelas pessoas”.

Com 18 anos, depois de terminar o ensino secundário, Joana Gomes decidiu fazer um ano sabático antes de se matricular em Serviço Social, na universidade. Partiu para Palmas, em Tocantins (centro leste do Brasil), onde esteve sete meses, a trabalhar numa favela, numa casa de acolhimento de crianças desfavorecidas.

Na altura, lembra-se de sentir um grande chamamento para o trabalho que hoje desempenha: “Os meus amigos, que estavam na faculdade, contavam-me as histórias deles. E eu dizia-lhes: ‘eu também sinto que estou numa faculdade, mas na faculdade de Deus, a aprender mais sobre mim, mais sobre o mundo e sobre o que Deus fez e faz em mim.”

Vem daqui o seu gosto por trabalhar com refugiados: de saber que o mundo “se pode tornar ainda mais como Deus o sonhou”. 

Joana sente este chamamento, de “trocar o certo pelo incerto”, frase que deu o nome  à sua página de Facebook, o diário de bordo das suas aventuras

“Porque troquei o quentinho e conforto da voida que tinha em Lisboa pela aventura de ir procurar aquilo a que Deus me chama. Larguei os 99 por cento de felicidade que tinha para ir pcourar o um por cento que me faltava; pois não era uma questão de juntar um por cento, mas de mudar os 99 por cento…”, justifica. 

“Pensei que ia morrer ali mesmo”

Também teve já de lidar com o medo, nestes anos de missões várias: um dia, no campo de refugiados na Sicília, ficou sozinha, única mulher entre 30 homens, todos grandes e fortes – os outros “morrem pelo caminho”… 

Os refugiados estavam em revolta com as condições em que viviam: “O clima era tenso e eles recusavam-se a fazer a atividade proposta. Um técnico tinha saído com dois voluntários, para acompanhar um deles ao hospital. Eles gritavam, queixavam-se da comida, diziam que ela lhes provocava alergias e que aquilo não era forma de acolher.”

Veio a seguir o susto: “Um deles gritava-me com a cara junto a mim a dizer para eu olhar para a cintura. Pensei que ele tinha uma faca e que eu ia morrer ali mesmo.” Afinal, era só o cinto que estava estragado. Joana sugeriu então que se juntassem e escolhessem um deles para falar em nome de todos…

Apesar do episódio e do medo, Joana crê que o receio de muitos europeus, no que toca a hábitos e culturas diferentes, não é fundamentado: “Vivendo com refugiados, vê-se que somos todos pessoas e isso obriga-nos a olhar para o que temos em comum e não o que temos de diferente. Na verdade, muitos dos que tenho conhecido são pessoas como nós ou melhores ainda, com uma enorme capacidade de trabalho. Podem ter uma religião diferente, uma cor de pele diferente, mas tem os mesmos princípios. Por isso, temos todos a ganhar – nesta multiculturalidade podemos crescer mais virados para o mundo e não para o nosso umbigo.”

Joana sabe que o processo de integração é exigente para ambas as partes. Por isso, pensa que a educação é um fator crucial para desenvolver o respeito mútuo. 

A educação não tem de ficar restrita às paredes das escolas, como mostra o testemunho de Joana: no Chade, conta, “discutia muito o papel da mulher muçulmana”. E não só: mesmo as católicas, quando se casam, deixam de trabalhar fora de casa. “Acabávamos por pôr em causa a própria (forma de viver a) religião e a cultura”. Às vezes, Joana até brincava com os amigos e colegas muçulmanos, que rezavam cinco vezes ao dia. Dizia-lhes: “Podes ir rezar, se rezares também por mim.”

Nas duas aldeias onde esteve – Gozbeida e Koukou –, Joana era a única branca. Evitava aparecer na escola em horário de aulas, pois as crianças vinham tocar-lhe na pele para confirmar a cor. Na rua, chamavam-na por “branca, branca”. Na primeira celebração em que participou, com homens e mulheres separados na igreja, Joana chegou ligeiramente atrasada e ficou ao fundo, pensando que ninguém iria reparar. “Esqueci-me que eu era a única branca”, recorda a rir.  

Nesses 20 meses – entre Janeiro do ano passado e Agosto último –, Joana trabalhou com uma equipa de vinte pessoas, entre muçulmanos, católicos e protestantes. Jantavam juntos por vezes dos diferentes entendimentos que tinham de amor: “Nós vivemos muito um amor de são Valentim, eles vivem um amor muito mais prático e concreto.”

 

 

Breves

Boas notícias

A missão voltada para a habitação acessível

A missão voltada para a habitação acessível

A missão nasce de um coração capaz de olhar para os outros com esperança e responsabilidade, conforme considerava José Allamano, fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata. Foi com o mesmo espírito que nasceu a Fundação Allamano, instrumento ao serviço, de modo particular, das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Outras margens

Cultura e artes

Os trajes de Viana

Trago comigo (14)

Os trajes de Viana

Publicamos hoje o décimo quarto texto, da autoria de Celina Valente, da rubrica que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória. Celina Valente regressa às suas memórias sobre os trajes de Viana do Castelo feitos de sorrisos e algumas vezes de silêncio.

Fazer do mundo uma casa

Trago comigo (12)

Fazer do mundo uma casa

Publicamos a seguir o décimo segundo texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória. Mário Robalo leva-nos a conhecer um pouco mais do filósofo catalão Josep Maria Esquirol.

Pessoas

Ildo Fortes, bispo do Mindelo: “Não basta parecer cristão, é preciso ser cristão na prática”

Entrevista ao 7MARGENS (I)

Ildo Fortes, bispo do Mindelo: “Não basta parecer cristão, é preciso ser cristão na prática” novidade

Nomeado bispo da Diocese do Mindelo (Cabo Verde) em 2011, Ildo Fortes – natural da ilha do Sal – está a celebrar 15 anos de episcopado. A efeméride é o ponto de partida para esta longa conversa com o 7MARGENS – tão longa que se estende por duas partes e geografias: uma em sua casa, no Mindelo, e outra no Vaticano.

Sete Partidas

Vinte e cinco anos depois

7Partidas

Vinte e cinco anos depois

Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].

Visto e Ouvido

Agenda

[ai1ec view=”agenda”]

Ver todas as datas

Entre margens

Deus morreu em Auschwitz?

[Entre Margens]

Deus morreu em Auschwitz?

Muitos filósofos e teólogos questionaram-se sobre a possibilidade de continuar a falar de Deus após a catástrofe do holocausto. A tragédia humana de tal genocídio foi tão avassaladora que se tornava intolerável pensar em Deus dentro dos parâmetros que as tradições religiosas e filosóficas nos legaram. O silêncio de Deus fora demasiado impressionante (e comprometedor) para passar despercebido sem beliscar a imagem que dele temos. [Texto de Jorge Paulo].

Tudo é para sempre

[Entre Margens]

Tudo é para sempre

Friedrich Nietzsche, na sua famosa teoria do eterno retorno, propôs que a existência de cada indivíduo se repete infinitamente até à eternidade. De facto, se concebermos o universo como infinito no tempo, é inevitável que concluamos que, o que quer que tenha alguma probabilidade de acontecer, mesmo a mais ínfima, não só já aconteceu infinitas vezes no passado como ocorrerá infinitas vezes no futuro. [Texto de Rúben Azevedo].

Os filhos por contrato

[Entre Margens]

Os filhos por contrato

Um caso recentemente noticiado exemplifica bem até onde pode chegar o princípio em que se baseia a prática e legalização da chamada “gestação de substituição” (ou “barriga de aluguer). Como um dique que se abre e não permite deter uma torrente de água, esta é uma consequência lógica desse princípio: a redução de um filho e de uma mãe gestante a objeto de um contrato, a sua instrumentalização ou “coisificação” como meios e não como fins em si mesmos. [Texto de Pedro Vaz Patto].

Fale connosco

Notícias Relacionadas

Notícias Relacionadas

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Vinte e cinco anos depois

7Partidas

Vinte e cinco anos depois

Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].

A missão voltada para a habitação acessível

A missão voltada para a habitação acessível

A missão nasce de um coração capaz de olhar para os outros com esperança e responsabilidade, conforme considerava José Allamano, fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata. Foi com o mesmo espírito que nasceu a Fundação Allamano, instrumento ao serviço, de modo particular, das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Rússia acusada de enviar à força cidadãos estrangeiros para combater na Ucrânia

Relatório divulgado hoje

Rússia acusada de enviar à força cidadãos estrangeiros para combater na Ucrânia

A Rússia tem recorrido a “práticas enganosas, coercivas e exploradoras para recrutar cidadãos estrangeiros para as suas forças armadas e enviá-los para combater na Ucrânia”, afirmou a Amnistia Internacional num relatório publicado hoje, dia 10 de setembro. No comunicado enviado à redação do 7MARGENS a organização adianta que tais práticas constituem, em muitos casos, “uma violação dos direitos humanos e um crime de tráfico de seres humanos”.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This