Novo ano – Quando reparei era católica
Quando reparei era católica. O reparo não me fez saber o que ser católica é, assim como, por definição, quem eu supostamente era ou me apresentava ser. Apenas ia à missa todos os domingos, com uma pequena pérola em cada lóbulo, presente da avó pelo batizado. Reparei da mesma forma que tinha as orelhas furadas. Na verdade, tomei consciência do sermão do padre enquanto esfregava a ponta das orelhas e me questionava como raio teriam ido parar aquelas bolinhas brancas ao meu corpo.
E, mais do que isso, como raio tinha ido parar o meu corpo àquele lugar imenso, onde todos se pareciam enfeitar da mesma forma que eu estava enfeitada. Todos falavam da mesma forma que me diziam para falar. Todos se comportavam da mesma forma que me diziam para comportar. Como raio tinha ido eu parar àquele corpo, que era católico, pelos vistos. Como eu, que era católica, pelos vistos. E eu questionava-me sobre se alguém pensava aquilo que eu estava a pensar. Sobre se alguém sabia porque tinha as orelhas furadas. Sobre se o padre sabia, já que falava tanto, mas não usava brincos.
Pus o dedo no ar.
Acotovelei a senhora do lado que parecia saber tudo o que fazer e dizer, naquela hora de domingo, e perguntei-lhe porque tinha duas contas amarelas reluzentes nas orelhas. Todos pareciam saber as respostas às perguntas que eu não tinha e não ter as perguntas às quais eu queria as respostas. Fui aprendendo, a partir daí, que o dedo no ar serve para responder a perguntas que nos fazem. Quanto muito, colocar dúvidas sobre as respostas que já nos deram. Nunca para questionar sobre as perguntas. Que essas, são-nos todas dadas como respostas.
E o dedo no ar foi perdendo força.
Nas aulas da escola, na catequese, nas rotinas do dia-a-dia, nas conversas dos adultos, nas expectativas que aquele mundo louco parecia depositar em mim, com tanta dedicação desfeita em horas e horas de teste à minha memória. Ao investimento no meu carácter feito depósito de pré-conceitos enfiados à paulada automática e carinhosa da minha educação, da minha ausência de espírito crítico. Eu só queria perguntar a um mundo de pérolas nas orelhas porque tenho pérolas nas orelhas.
E por isso, um dia, resolvi sair com calma e bater a porta. E um dia voltei.
Quando dei por mim tinha trocado o champanhe e o fogo-de-artifício. Os amigos da jornada e as noitadas em música “do vai até ao chão”. Ou os beijos de Cinderela à meia-noite, amores à primeira vista ao som do Strangers in the Night, do Frank Sinatra. Tinha trocado os táxis e os comboios perdidos em hora de ponta da passagem de ano na rua. Os bailaricos de garagem e as guitarradas. A minha família. A contagem decrescente na televisão e as passas enfiadas no bolso à pressa, à espera de correspondência com cada desejo previamente definido na check-list. O vestido de festa e o cabelo arranjado.
Quando dei por mim, estava sozinha, numa multidão de desconhecidos. Sentada num banco de igreja, como aquela miúda de dedo no ar há uns anos valentes. De kispo cor-de-laranja e um cancioneiro na mão que não me servia de nada porque tinha os olhos fechados. Comigo, como todos os anos. Mas, desta vez, virada para dentro. Em contagem crescente. Porque quando não se tem relógio, não há tempo nem espaço. E quando não se faz contas, sente-se.
Enfiei-me no saco-cama às cinco da manhã, depois de uma festa que não acreditaria se me contassem, no salão dos fundos da paróquia. E poucas horas depois, debaixo do melhor sol de inverno que tenho memória na Plaza Mayor, de Madrid, com os bigodes requintados de chocolate quente e massa de três churros, saboreei os frutos de três dias de oração – PAZ.
Perguntei a mim própria porque estava eu no Encontro Europeu de Taizé, em Madrid. Porque passei a meia-noite embalada no Magnificat, entre as vozes de jovens de dezenas de países da Europa, cantando em uníssono, à mesma voz e à mesma frequência. Porque tinha ido a duas missas no primeiro dia do ano de 2019. Mais do que aquelas que tinha ido nos últimos anos. Como raio tinha ido parar o meu corpo àquele lugar imenso, onde todos cantavam como eu cantava. Mais do que o meu corpo, o meu ser inteirinho.
E eu questionava-me sobre se alguém pensava aquilo que eu estava a pensar. Sobre se alguém sabia porque tinha as orelhas furadas. Sobre se o padre sabia, já que tinha sido um dos responsáveis por eu ali estar, mas não usava brincos. Sobre se todos aqueles que cantavam em uníssono sabiam. E senti. Senti Paz. Contornei devagarinho os lóbulos das orelhas com a ponta dos dedos e senti os brincos. Quatro agora. Três de um lado e um do outro, deixado só em honra dos velhos tempos. E percebi. Percebi que o mundo louco de pérolas nas orelhas é o caminho para chegar à resposta. E que a única pessoa capaz de me responder, quando eu levantar o dedo, sou eu.
Quando reparei era livre. E o ano não tinha passado por mim. Eu tinha passado pelo ano.
Mónica Ribau é doutoranda em Alterações Climáticas
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