AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Teixeira de Pascoaes, António Carneiro

[Saborear os clássicos – XIII]

A saudade, fundamento da literatura portuguesa (1/2)

“As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem se não esgotou e permanecem fontes vivas do progresso humano.”
(Apresentação da colecção de Textos Clássicos da Fundação Calouste Gulbenkian)

O Desterrado, Soares dos Reis

Estátua: O Desterrado, Soares dos Reis

 

“A Ausência tem uma filha / Que tem por nome Saudade / Eu sustento mãe e filha / Bem contra minha vontade” (quadra popular).

Há noutros países e culturas o conceito de “saudade”. Mas a filóloga Carolina Michaëlis considera que este vocábulo tem uma importância peculiar na língua portuguesa.

 

Saudade e morrer de amor

A saudade e o morrer de amor são expressos e repetidos desde os primórdios da literatura portuguesa, nas versões popular, oral e erudita.

Ainda segundo C. Michaëlis, a origem do latim solitates, [solidão, no plural] evoluiu foneticamente para: soedade; soïdade; suïdade; saùdade; sáudade.

A alteração do grupo /-oi / para /-au /, deve-se à interacção com os vocábulos salute e salutate (saúde, dar a salvação, isto é, cumprimentar).

 

A “Renascença Portuguesa” e a revista “Águia”

Revista Águia

Capa da Revista Águia

O saudosismo foi um movimento literário de um grupo de intelectuais, no Porto, no início do séc. XX, à volta do movimento Renascença Portuguesa, fundado por Jaime Cortesão, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra, que publicavam a revista Águia (1910-1932).

Teixeira de Pascoaes (1877-1952), escreveu Maria Alzira Seixo, foi “um dos gigantes literários” do século XX, para quem “a saudade é um misto de lembrança e esperança.

Pascoaes é considerado um dos grandes poetas portugueses, ao lado de Camões, Antero de Quental e Fernando Pessoa. Este define assim a poesia de Teixeira de Pascoaes: “Espiritualização da Natureza e ao mesmo tempo a materialização do Espírito”.

Pascoaes é, sobretudo, um místico. Eis um pequeno excerto de um dos seus poemas (de O Poeta).

(…) “Não posso abrir os olhos sem abrir / Meu coração à dor e à alegria. / Cada cousa nos sabe transmitir / Uma estranha e quimérica harmonia! / (…) As cousas que me cercam, silenciosas, / São almas a chorar, que me procuram. / Quantas vagas palavras misteriosas, / Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!”

 

Influências culturais na Península

Teixeira de Pascoaes, António Carneiro

Teixeira de Pascoaes, desenho de António Carneiro (1872-1930) / Wikimedia Commons

 

Na Ibéria houve um cadinho de diversas culturas; umas, baseadas na Realidade tangível; outras, no culto do Espírito.

O calor do fogo reuniu todos: era já (… ) a família,… o alicerce eterno de uma Pátria … a velha lareira [nas famílias rurais] é um santuário com as imagens dos Avós. A Lembrança prende-nos às suas almas e a Deus, por intermédio delas. O nosso cristianismo tradicional adapta-se a esta concepção religiosa da Família, que ele diviniza pelo culto de Maria, o tipo supremo da Mãe. (Teixeira de Pascoaes)

(…) As coisas “falam” à nossa sensibilidade, (…) aos nossos sentimentos… Já Horácio, [poeta latino] considerava as palavras como seres que nascem, transformam-se, envelhecem e morrem.  (…) as Descobertas foram uma obra essencialmente portuguesa, porque o génio português, encarnado em Camões, [em Os Lusíadas] deu-lhe a forma espiritual, sublimada e eterna. (idem)

 

Na literatura oral e popular portuguesa

Carolina Michaelis

Carolina Michaelis

No cancioneiro popular, encontramos formulações poéticas semelhantes às da literatura culta: “Ó noite que vais crescendo, / Tão cheia de escuridão, / Tu és a flor mais bela / Dentro do meu coração!”; “Adeus, minha saudade, / Espelho do meu sentido.”

Eis a evocação misteriosa da saudade, unindo contrários. Nós, portugueses, somos mais emotivos do que intelectualizantes. Filósofos, há poucos; o mesmo para a música e a matemática.

A emoção afoga a inteligência, ultrapassando-a como força criadora. (…) A ciência vê; a Poesia visiona, transcendentaliza o objecto contemplado; eleva o real ao ideal… converte a matéria em espírito... o nosso cristianismo, misto de matéria, de humanidade e espírito, tão patente nas romarias, também aí se exprime (Pascoaes):

“Nossa Senhora da Veiga, / Ela lá vai Douro acima, / Com a cestinha no braço / fazer a sua vindima”.

“Lá vem o Baptista abaixo / Vestido de azul ferrete,/ Numa mão traz a custódia / Noutra traz um ramalhete”.

Comemora-se, assim, a alegria de viver, a abundância da vida. Também na lírica camoniana (séc. XVI), a saudade está muito presente. Vejamos a primeira quadra deste soneto, por exemplo: “Aquela triste e leda madrugada / Cheia toda de mágoa e de piedade, / Enquanto houver no mundo saudade / Quero que seja sempre celebrada.”

Nas antiquíssimas Cantigas de Amigo, oriundas da poesia popular – interpenetração de cantares árabes, moçárabes e judaicos, a saudade está presente (anteriormente já referimos esta temática).

Num excerto do poema “Cantiga Partindo-se” de Juan Roiz de Castel’ Branco (séc. XV), do Cancioneiro de Garcia de Resende (séc. XV), os fonemas ressoam harmoniosamente criando uma melancolia melódica:

“Senhora, / Partem tam tristes / Meus olhos por vós, meu bem / Que nunca tam tristes vistes / Outros nenhus por ninguém //. Tam tristes, tam saudosos / Tam doentes da partida / Tam cansados, tam chorosos, / Da morte mais desejosos / Cem mil vezes que da vida //…

Não faltam exemplos ao longo dos séculos da presença da “saudade”. No séc. XX, além de Pascoaes, podemos referir António Patrício, Raúl Brandão, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e outros.

 

(Nota: Foram consultadas as seguintes obras: Carolina Michaëlis de Vasconcelos, A Saudade Portuguesa; Teixeira de Pascoaes, A Arte de Ser Português e Poesia de Teixeira de Pascoaes, elaboração crítica de Silvina Rodrigues; Dicionário de Literatura Portuguesa dirigido por Jacinto Prado Coelho.)

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Manuela Silva: um colóquio e uma exposição para evocar uma mulher de muitas causas

Na UCP, em Lisboa

Manuela Silva: um colóquio e uma exposição para evocar uma mulher de muitas causas novidade

O percurso e as causas da vida de Manuela Silva, “uma mulher cuja história constitui um importante ponto de partida para a reflexão sobre o catolicismo português na sociedade contemporânea”, mas que teve também grande impacto no ensino da economia e no estudo da pobreza em Portugal, vão ser evocados através de um colóquio e de uma mostra documental abertos ao público.

“Há sempre alguém pior do que tu”

[Lugar (in)comum]

“Há sempre alguém pior do que tu” novidade

“Se alguém perde o emprego, há quem tenha perdido a casa. Se alguém passa por um divórcio doloroso, há quem tenha perdido um filho. Se uma pessoa sofre de ansiedade, há quem enfrente uma doença terminal. A comparação nunca termina porque haverá sempre alguém pior.” Mas será o sofrimento uma competição? [Texto de Júlia Costa]

Humor sem limites

[Entre Margens]

Humor sem limites novidade

Surgem de forma recorrente polémicas quando alguma rábula humorística, ou com pretensões a tal, é tida como blasfema ou ofensiva para com os católicos. Não tenho por hábito envolver-me ou alimentar esse tipo de polémicas, sobretudo porque receio estar a contribuir para uma imerecida publicidade. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.