A mãe deixou-me que lhe ocupasse o ventre; era ainda da idade que as maçãs têm no verão, coberta por pele tão suave e sensível quanto o aroma das suas verdes vivências.
A mãe deixou-me que lhe ocupasse o ventre; era ainda da idade que as maçãs têm no verão, coberta por pele tão suave e sensível quanto o aroma das suas verdes vivências.
Lia às escondidas desde que aprendera a dar significado às palavras juntando letras. Sonhava, e nesse sonho o mundo era livre, tão livre que só a imaginação – essa imaginação dos poetas, que trespassa quem os lê –, só a imaginação importava. O mundo era uma balança a pesar em pratos de páginas lidas. Não havia lei, nem censura, nem capas proibidas. Havia histórias a eternizar os acontecimentos da linha do tempo. [Texto de Ana Sofia Brito]
Tiago adorava a adrenalina de ser atropelado pelas ondas espumosas dos mares de bandeira vermelha. Poucos entenderão isto, à excepção dos surfistas. Como explicar a alguém a sensação de ser totalmente abalroado para um lugar centrífugo e sem ar, no qual os segundos parecem anos onde os pontos cardeais se invalidam? Como explicar a alguém que o limiar da morte é o lugar mais vital dos amantes de adrenalina, essa droga que brota das entranhas? É ao espreitar a morte que se descobre a vida.
A Skady ultrapassou a idade prevista para um cão do seu porte, deixou de mover as patas traseiras, perdeu a visão e escasseou-lhe a audição. Eu não aguentava a angústia de a olhar sem saber o que fazer para a ajudar. Deixou de ser a caçadora de galinhas, trepadora de montes, rochas e falésias, e nadadora de mares revoltos, para se tornar a vulnerabilidade sem vitimização que só eu não sabia aceitar. Fosse eu um cão e viveria bem melhor. [Texto de Ana Sofia Brito]
A Vizinha Rita morreu e recebi a notícia nessa mesma noite quando estava já deitada. Por essa hora eu lia um texto genial do Três-Setes, livro de Eduardo Duarte, onde o protagonista é abordado pelos seus mortos numa noite assombrada.
Era um ano de seca na região algarvia e o rebanho estava faminto. Na manhã cujo relato se segue, Toine Baguinhe – o pastor – aventurou-se para lá da 125 na esperança de encontrar erva húmida com que alimentar as 500 ovelhas que pastava. Ali, naquela terra de ninguém que fronteia os descampados da cidade, talvez a sorte sorrisse. (Ana Sofia Brito)
O que dizer a um amigo no enterro da sua mãe? Talvez opte por ignorar as palavras e me fique pelo abraço apertado. Ou talvez o abraço com palavras, sim, porque haveria de escolher um ou outro? Os dois. Não é possível que ainda não tenha sido descoberta a palavra certa para se dizer a um amigo no dia da morte da sua mãe. Qual será? Porque é que todas as palavras parecem estúpidas em dias de funeral?
O António Lobo Antunes acaba por dizer, num dos seus textos, que terminar uma crónica é fácil: “Põe-se o ponto final e deixa-se o resto da página em branco, pronto.” Cá para mim escrever crónicas é a maneira mais dolorosa de dar significado ao insignificante. A crónica – quando se lê Clara Ferreira Alves, António Lobo Antunes, Rui Zink, Miguel Esteves Cardoso – parece a forma literária de mais fácil execução, como se aquilo que se lê sempre tivesse estado lá, assim tão óbvio. (Ana Sofia Brito)
A mãe deixou-me que lhe ocupasse o ventre; era ainda da idade que as maçãs têm no verão, coberta por pele tão suave e sensível quanto o aroma das suas verdes vivências.
Lia às escondidas desde que aprendera a dar significado às palavras juntando letras. Sonhava, e nesse sonho o mundo era livre, tão livre que só a imaginação – essa imaginação dos poetas, que trespassa quem os lê –, só a imaginação importava. O mundo era uma balança a pesar em pratos de páginas lidas. Não havia lei, nem censura, nem capas proibidas. Havia histórias a eternizar os acontecimentos da linha do tempo. [Texto de Ana Sofia Brito]
Tiago adorava a adrenalina de ser atropelado pelas ondas espumosas dos mares de bandeira vermelha. Poucos entenderão isto, à excepção dos surfistas. Como explicar a alguém a sensação de ser totalmente abalroado para um lugar centrífugo e sem ar, no qual os segundos parecem anos onde os pontos cardeais se invalidam? Como explicar a alguém que o limiar da morte é o lugar mais vital dos amantes de adrenalina, essa droga que brota das entranhas? É ao espreitar a morte que se descobre a vida.
A Skady ultrapassou a idade prevista para um cão do seu porte, deixou de mover as patas traseiras, perdeu a visão e escasseou-lhe a audição. Eu não aguentava a angústia de a olhar sem saber o que fazer para a ajudar. Deixou de ser a caçadora de galinhas, trepadora de montes, rochas e falésias, e nadadora de mares revoltos, para se tornar a vulnerabilidade sem vitimização que só eu não sabia aceitar. Fosse eu um cão e viveria bem melhor. [Texto de Ana Sofia Brito]
A Vizinha Rita morreu e recebi a notícia nessa mesma noite quando estava já deitada. Por essa hora eu lia um texto genial do Três-Setes, livro de Eduardo Duarte, onde o protagonista é abordado pelos seus mortos numa noite assombrada.
Era um ano de seca na região algarvia e o rebanho estava faminto. Na manhã cujo relato se segue, Toine Baguinhe – o pastor – aventurou-se para lá da 125 na esperança de encontrar erva húmida com que alimentar as 500 ovelhas que pastava. Ali, naquela terra de ninguém que fronteia os descampados da cidade, talvez a sorte sorrisse. (Ana Sofia Brito)
O que dizer a um amigo no enterro da sua mãe? Talvez opte por ignorar as palavras e me fique pelo abraço apertado. Ou talvez o abraço com palavras, sim, porque haveria de escolher um ou outro? Os dois. Não é possível que ainda não tenha sido descoberta a palavra certa para se dizer a um amigo no dia da morte da sua mãe. Qual será? Porque é que todas as palavras parecem estúpidas em dias de funeral?
O António Lobo Antunes acaba por dizer, num dos seus textos, que terminar uma crónica é fácil: “Põe-se o ponto final e deixa-se o resto da página em branco, pronto.” Cá para mim escrever crónicas é a maneira mais dolorosa de dar significado ao insignificante. A crónica – quando se lê Clara Ferreira Alves, António Lobo Antunes, Rui Zink, Miguel Esteves Cardoso – parece a forma literária de mais fácil execução, como se aquilo que se lê sempre tivesse estado lá, assim tão óbvio. (Ana Sofia Brito)
Desde 2001
“Um novo século de martírio”: Vaticano registou mais de 1.700 cristãos mortos por testemunharem a féA Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé, criada pelo Papa Francisco em 2023, já registou mais de 1.700 cristãos mortos no século XXI, incluindo membros de Igrejas e comunidades não católicas.
Relatório
Espanha: ataques contra a liberdade religiosa cresceram 26 por cento em 2025A Espanha registou 306 ataques à liberdade religiosa durante o ano passado, o que representa um crescimento de 26 por cento em relação ao ano anterior.
Guerra e ocupação
De Gaza à Cisjordânia, Vaticano e ONG israelita denunciam agravamento da situação palestinianaEnquanto o “L’Osservatore Romano”, jornal oficial da Santa Sé, denuncia o número de crianças mortas na guerra em Gaza, uma organização israelita de direitos humanos acusa Israel de estar a desmantelar as condições de vida palestiniana na Cisjordânia.
[Entre Margens]
Voz que clama no deserto: da radicalidade de João à ternura de JesusA figura de João Batista constitui uma das mais fascinantes portas de entrada para o Evangelho. Os textos evangélicos apresentam-no como aquele que prepara a chegada de Jesus, mas também como alguém cuja mensagem e estilo de vida evidenciam uma tensão profunda que acompanha toda a experiência cristã. [Texto de Vítor Rafael].
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