Embora se passe um pouco por toda a Europa, incluindo Portugal, é no coração do continente onde é mais visível a acelerada descristianização das sociedades. Uma realidade que se impõe, se estranha e se lamenta, como se algo de essencial estivesse a desaparecer sem que consigamos impedi-lo.
As celebrações de Natal são agora, muitas delas, rebatizadas como “festas de inverno”. Desaparece o sentido da Pessoa que as sustenta, esse Menino profundamente pobre, marginal e desvalido que depositou a sua confiança em nós. Ele nada mais fez do que mostrar o rosto do Amor na sua própria Pessoa, sem defesas, sem poder, sem garantias.

“No denso mistério deste tempo de Natal vivido no espiritualmente árido centro da Europa, damos graças a Deus por fazermos parte desta comunidade de crentes precários em busca do Seu rosto.” Presépio na Catedral de São João Batista – Wrocław (szopka) Foto © Zachwieja / Unsplash.
Ver árvores e não ver presépios, ver os poucos presépios que subsistem serem vandalizados, interroga-nos profundamente. Como pode esta Pessoa continuar a ser tão perseguida, também hoje, também nas pessoas dos seus discípulos? E, no entanto, o Mesmo deixou-nos o aviso: veio como sinal de contradição, e nós seríamos perseguidos. A promessa do cêntuplo, aliás, é inseparável da promessa das perseguições.
Num tempo de sinais aparentemente tão opacos, esta verdade revela-se luminosa. Corresponde, afinal, à própria essência da cristandade. Não a do triunfo, mas a da pequenez. Não a da evidência social, mas a da fé vivida no oculto.
Neste tempo de espera de Deus, quando já não O encontramos nas ruas, nas praças ou nos sinais exteriores das celebrações mundanas, somos conduzidos a procurá-Lo noutro lugar. Nos rostos dos irmãos que também O buscam: todos os nossos irmãos na fé, toda a cristandade, e todos os homens e mulheres de boa vontade que seguem os apelos do Espírito.
Somos levados também a procurá-Lo em nós mesmos, templos desse mesmo Espírito, que intercede por nós quando não temos palavras, que nos substitui na conversa com Deus com gemidos inefáveis.
De alguma forma, a ausência visível do Menino e a persistência da Sua perseguição fazem-nos percorrer de novo o caminho dos Magos: integralmente confiantes e despojados, guiados apenas por uma estrela frágil, em direção a um destino que é Ele próprio e que só Ele pode revelar.
No denso mistério deste tempo de Natal vivido no espiritualmente árido centro da Europa, damos graças a Deus por fazermos parte desta comunidade de crentes precários em busca do Seu rosto. E, juntamente com outros como nós, descobrimos uma unidade que antes nos estava oculta e agora emerge, clara e serena, na revelação do rosto de Deus.
Gloria in Excelsis Deo.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.
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