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Em Samos, com refugiados (2) – As crianças que crescem no meio do caos

Em Samos, com refugiados (2) – As crianças que crescem no meio do caos

| 28 Dez 19

Luísa Lopes dos Santos, licenciada em Medicina, está desde 20 de novembro em Samos, uma ilha grega onde há um campo de refugiados. Voluntária da Samos Volunteers, escreveu ao longo destas semanas alguns textos em jeito de diário, que aceitou partilhar com os leitores do 7MARGENS. O primeiro texto descrevia o campo e referia o dia de Natal.

Nesta segunda crónica, fala das crianças (28 por cento das pessoas que chegam ao campo). Como não têm escola, muitas vezes olham para lá dos muros da escola que está ali perto, vendo as crianças gregas a serem crianças.

Criança no campo de refugiados de Samos (Grécia). Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor

 

Num sítio tão duro como o campo é difícil pensar que vivem por lá crianças.

Crescem no meio do caos e ir à escola não é uma opção.

Há uma convenção das Nações Unidas que diz que as crianças refugiadas têm direito à educação, mas a Grécia não a assinou e estas crianças não podem ir à escola.

Em Abril tentaram abrir uma turma com 30 crianças refugiadas, num edifício separado, com horários separados, mas a ideia não foi bem acolhida pela população local e rapidamente a turma foi cancelada.

As crianças voltaram para a rua e a não ter muito que fazer durante o dia.

Para cobrir esta falha, as diferentes ONG’s [Organizações Não-Governamentais] da ilha recebem crianças durante o dia e fazem as mais variadas atividades com eles: o The Nest é para crianças com menos de 6 anos, a Praxis para crianças entre os 6 e 12 anos, e a Mazi para crianças entre os 12 e 17 anos.

Todas estas ONG’s fazem um trabalho fantástico, mas infelizmente há demasiadas crianças em lista de espera para poderem iniciar as atividades com eles. Mas, para essas crianças, todos os dias de manhã há atividades organizadas por nós ou pelos Flying Seagulls num terreno perto do campo.

As crianças adoram estas atividades e chamam-lhe the roly poly.

A atividade começa com toda a gente a gritar muito alto ROLY POLY e com montes de crianças a descer do campo, correndo em direção a nós para se juntarem à festa e para serem crianças durante toda a manhã!

Elas dançam, cantam, pintam, jogam, correm, fazem tudo o que as crianças devem fazer!

Campo de refugiados de Samos (Grécia). Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor

São momentos mesmo bonitos e que fazem sorrir o coração!

Ao sábado, no Alpha [centro gerido pela Samos Volunteers], se as crianças vierem acompanhadas pelas mães, há também atividades para elas!

A cave é toda delas e tudo por lá acontece, mas o momento mais bonito é quando ligamos o projetor e elas se sentam no chão a ver o filme da semana. Os sorrisos serenos e infantis aparecem e nestes momentos são sorrisos sem medo de nada!

28% das pessoas que chegam à ilha de Samos são crianças.

Algumas chegam com a família, outros com o pai, outras com a mãe e muitas, demasiadas, vêm sozinhas.

Como é que chega uma criança aqui sozinha? Quem é que lhe dá de comer? Quem é que brinca com ela? Quem é que a protege da lama, dos ratos, da chuva, do medo? Quem é que a protege do mundo? Como é que dorme uma criança sozinha no meio do campo?

Nos muros da escola onde estudam as crianças gregas, há crianças do campo a ver crianças a serem crianças.

(30/11/2019)

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