Padre Arturo Sosa em Portugal

Geral dos jesuítas ao 7M sobre o caso Rupnik: “Não ocultámos nada”

| 7 Dez 2022

Arturo Sosa, jesuítas

Arturo Sosa em Portugal: “Não temos de publicar cada caso. Uma das coisas a que todos temos direito como pessoas é uma certa privacidade.” Foto © Rúben Marques/PontoSJ

 

“Qualquer caso destes é muito doloroso, (mas) não ocultámos nada”, diz o padre Arturo Sosa numa curta entrevista ao 7MARGENS e Rádio Renascença, nesta que é a primeira reacção do geral dos jesuítas ao caso das suspeitas sobre o padre Marko Ivan Rupnik.

Sobre este membro da Companhia de Jesus, que é também artista e teólogo, apareceram notícias dando conta de suspeições levantadas por várias religiosas da Comunidade Loyola, de que Rupnik teria exercido abusos espirituais e sexuais sobre elas. No final de uma visita de cinco dias a Portugal, durante a qual visitou as diferentes comunidades jesuítas do país, bem como algumas das instituições ligadas à Companhia (escolas, paróquias, centros universitários…),

Arturo Sosa esteve no Centro Universitário Padre António Vieira (CUPAV), em Lisboa, onde celebrou a missa do final de tarde de quarta-feira, 7, e participou num encontro com estudantes universitários. Na homilia, evocou os seis jesuítas e duas funcionárias mártires da Universidade de Centro-América, de El Salvador, assassinados em 1989, para dizer que eles acreditaram que era possível acabar com a guerra civil no país, causa pela qual deram a vida.

Nesta entrevista, o geral dos jesuítas, venezuelano assegura que as medidas tomadas contra o padre Rupnik se mantêm em vigor. E acrescenta que condutas como esta são inaceitáveis.

 

7MARGENS – A declaração da Companhia sobre o caso saiu depois das primeiras notícias. Porque tardou a informação sobre o que se passava?

P. ARTURO SOSA – Primeiro, tenho de dizer que para a Companhia de Jesus qualquer caso destes é muito doloroso. Segundo, não temos de publicar cada caso. Uma das coisas a que todos temos direito como pessoas é uma certa privacidade: há que fazer declarações públicas quando é público; quando não é público, não há nada para o fazer e isso não significa ocultar. Nós não ocultámos nada.

Neste caso, parece-me importante sublinhar algumas coisas. Uma, que não há menores envolvidos. Ou seja, trata-se de questões entre adultos. Segundo, nós não recebemos a denúncia directamente, mas da parte da então Congregação para a Doutrina da Fé [CDF], a solicitação para fazer uma investigação porque eles tinham recebido a denúncia. Precisamente para não ocultar e para fazê-lo de modo mais transparente possível, procurámos investigadores que não fossem da Companhia de Jesus.

Depois, entregámos à CDF o relatório, que havia pedido essa investigação prévia. Uma investigação prévia não é um processo que termine com uma sentença, é uma primeira aproximação ao caso. Esperámos bastante tempo até que recebemos a notícia da Congregação de que tinha estudado o caso e a investigação e que tratava do que tinha sucedido há 30 anos e que, segundo o direito, estava prescrito. Essa é a parte canónica.

 

O que aconteceu a seguir?

– Desde o momento em que recebemos a petição para fazer essa investigação – a denúncia não a recebemos nós – imediatamente tomámos medidas, que eram proporcionais aos factos. O padre Marko Rupnik foi proibido de confessar, dirigir exercícios espirituais, fazer direcção espiritual e fazer alguma declaração pública, ensino e qualquer actividade desse tipo que tinha que ser autorizada pelo seu superior local.

Isso foi o que se fez durante todo este tempo, depois de termos recebido a notificação da Congregação de que eram factos prescritos. As medidas foram mantidas, porque queremos ir mais além no assunto, ver como se ajuda todos os que estão envolvidos.

 

Mas a declaração não faz referência às vítimas. Tendo em conta a notoriedade do padre Rupnik, não se justificava a divulgação do caso?

– Tem de se perguntar às vítimas. Não posso tomar a palavra por alguém que não queira.

 

Porque não se faz referência às vítimas na declaração ?

– Porque não há um processo que diga que aqui há uma vítima e ali um vitimar. Estava prescrito. Não há uma qualificação de vítimas, há uma suspeita de factos que foram mais além dos limites do que se faz entre pessoas adultas.

 

Uma das medidas tomadas foi a saída do padre Rupnik da direcção do Centro Aletti?

– Isso aconteceu muito antes. Deixou o Centro Aletti há mais de um ano [em 2020] por razões internas à organização do centro, porque já estava há muito tempo no cargo e tinha já muitos compromissos com trabalho artístico.

 

Ele continua viajando e fazendo várias coisas. Por exemplo, em Fevereiro está previsto um retiro no santuário do Loreto. Isso não entra nas medidas previstas?

– Um retiro não creio que esteja previsto, mas não deveria [fazê-lo]. Ele não está detido, nem nenhuma das medidas afecta o seu trabalho artístico. Ele tem compromissos artísticos muito importantes. Ele pode celebrar a eucaristia, do que está proibido é de orientar exercícios espirituais ou confessar. Essas são as medidas, porque tem de ser proporcional aos factos.

Ele continua a ter a mesma mobilidade que qualquer um de nós, por razões de trabalho. Não está constrangido a esse tipo de medidas. Aquelas a que foi sujeito ele tem cumprido.

 

Este caso e outros que acontecem não podem diminuir o entusiasmo dos jovens em aderir aos convites da Igreja, como a Jornada Mundial da Juventude?

– Em alguns casos, sim, noutros não, não me atreveria a fazer um juízo geral. Há algumas pessoas que perderam a confiança na Igreja ou na Companhia, outras não. Rezamos todos os dias o Pai Nosso. E aí dizemos que queremos perdoar.

Todos estes casos são muito dolorosos. A conduta de muitos religiosos foi, em muitos casos, inaceitável, pecado. O que se faz? Busca-se o caminho de, se é pecado, que seja perdoado. Aplica-se todas as leis civis que são necessárias, aplicam-se todas as leis canónicas mas, no final, o que queremos com as pessoas – as vítimas e os que cometem o facto – é que se perdoem. Ou seja, abrir a esse processo para que as pessoas se possam reconciliar.

 

Veio tomar o pulso dos jesuítas em Portugal. Que conclusão tira?

– Entre os jovens, entende-se que as situações não são a preto e branco, há muitas coisas que se podem fazer. Aqui em Portugal, o trabalho dos jesuítas com os jovens é admirável, creio que é um modelo para muitas províncias. O contacto que tive com comunidades paroquiais e a comunidade universitária é entusiasmante.

 

Conhecendo a Igreja em todo o mundo, qual é a sua grande preocupação?

– A grande preocupação é que sejamos capazes de fazer viva essa ideia que agora chamamos Igreja sinodal, que nasce no Concílio Vaticano II, que se tentou durante muitos anos e que agora recebeu um impulso muito grande por parte do Santo Padre e de outras pessoas da Igreja. [Que não] percamos outra vez a oportunidade de converter a Igreja nesse povo de Deus que marcha em conjunto com a humanidade em busca da justiça e da paz.

 

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