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Miguel Panão

O “burnin” em tempos de pandemia

| 11/02/2021

“Parar para experimentar a vida” (Foto © Lechon Kirb / Unsplash)

 

Com os confinamentos exigidos nestes tempos, alguns retornaram ao teletrabalho, voltando a ter o escritório em sua casa, cuja pilha de roupa e questões dos filhos a atender, pode levar à exaustão, ao dito burnout. Mas isso pode advir, também, de um modo de ser e estar no trabalho que vive mais de distracções do que de realizações, respondendo a inúmeros e-mails, mensagens de Slack, chamadas Skype ou Zoom. E este desgaste pode desenvolver em nós uma camada de desinteresse que, gradualmente, nos torna zombies – por assim dizer – em relação às fontes de energia relacionais à nossa volta. Será preciso fazer um burnin para ultrapassar o burnout do desinteresse, e voltar a acender uma chama especial que temos dentro de nós para sobreviver à pandemia e crescer em sabedoria.

Antes da pandemia, as nossas actividades síncronas exigiam a presença física, em espaços próprios e mediante a nossa disponibilidade. Porém, a parte síncrona da nossa vida começava a preencher os espaços, também, da parte assíncrona. Por exemplo, as refeições. Uma vez vi um casal num restaurante que esteve, literalmente, todo o tempo a olhar para o seu telemóvel enquanto comiam. Por que razão terão ido a um restaurante quando nem se olhavam? Podiam ter encomendado, mas talvez precisassem, também, do ruído exterior para justificar o silêncio e o olhar desviado um do outro. Depois desse episódio reparei como se tornava comum ver o telemóvel ao lado das pessoas nos restaurantes, sempre dispostas a interromper seja que conversa for para dar atenção às actividade síncronas e assíncronas que esses apelam com as notificações.

Quando a comunicação se massifica e não se diferencia o conteúdo daquilo que desperta a nossa atenção, gradualmente alteram-se também os níveis de interesse que têm as actividades síncronas. Isto é, actividades que ocorrem em tempo real. Não estando limitados pela presença física para experimentar uma comunicação síncrona, ampliam-se e multiplicam-se os modos de comunicar em tempo real. Por isso, em intervalos muito curtos podem chegar inúmeras notificações de pessoas que querem comunicar pessoalmente connosco, misturadas com as notificações que comunicam, indiferenciadamente, com as massas, mas cuja cosmética das aplicações nos leva a crer termos recebido uma mensagem pessoal. No mundo do trabalho, o excesso de comunicação síncrona tem levado ao desgaste. Será que o mesmo desgate ao nível da comunicação pessoal leva ao desinteresse?

Um estudo realizado por investigadores da Universidade de Stanford mostrou como as pessoas que vivem imersas em fluxos de informação síncrona, e têm a falsa sensação de estar em modo multitarefa, são mais susceptíveis à interferência de estímulos provenientes de ambientes irrelevantes, e formam representações, também, irrelevantes desses ambientes na sua memória. Na prática, a sua atenção está de tal forma dividida que se transforma num modo de ser e estar fragmentado, e muito daquilo que se passa à sua volta deixa de ter interesse.

Por outro lado, a comunicação assíncrona não ocorre em tempo real. Antes escrevia uma carta; metia-a no correio; levava tempo a chegar ao destino; mais tempo para que a pessoa me respondesse; metesse a sua resposta no correio; levava tempo a chegar à minha casa; e, só passadas algumas semanas, ou meses, lia a resposta. Com os emails, este tipo de comunicação facilitou-se, mas continua a não ser imediata como a comunicação síncrona. Ou seja, comunicar assincronamente pode levar mais tempo, com o benefício de estarmos mais concentrados e sermos nós a definir quanto tempo queremos empregar nessa comunicação. Porém, com a passagem deste tipo de comunicação para o predomínio do email, quando a caixa de entrada começa a amontoar a quantidade de mensagens a responder, os níveis de ansiedade podem aumentar e aquilo que parecia facilitar a comunicação pode levar à exaustão, ao burnout.

Os riscos da comunicação síncrona e assíncrona no mundo actual reflectem-se no apagar da chama que nos liga uns aos outros com laços humanizantes que despertavam a nossa imaginação, onde os tempos de espera aumentavam o desejo de estar com o outro. Precisamos de reacender a chama da comunicação autêntica. Precisamos de um tipo burnin que a pandemia parece oferecer-nos.

Parar.  Parar para experimentar a vida.

Como diz David Kundtz — “parar é nada fazer tanto quanto possível por um período limitado de tempo (de um segundo a um mês) com o propósito de ficarmos mais totalmente despertos, e nos lembrarmos de quem somos”. Quando nada fazemos, fazemos algo que volta a acender a chama da curiosidade e do interesse: deixamos a vida acontecer. Parar dá-nos tempo para ser, e não tanto que fazer.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.  

 

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