O elogio da frugalidade – por um Natal não consumista

| 8 Dez 19

Nas margens da Filosofia (XII)

O livro do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard, Le Système des Objets[1], é uma reflexão sobre a sucessão de objectos de vária ordem, que se produzem a um ritmo acelerado nas civilizações urbanas. Interessa-lhe sobretudo o tipo de relação que os consumidores estabelecem com essa avalanche de gadgets, de aparelhos e de produtos de várias espécies. Ao relê-lo para efeitos de um trabalho académico, encontrei algumas páginas que me levaram a pensar nesta fase de consumismo desenfreado que, quer queiramos ou não, nos acompanha na época do Natal.

Nela assistimos, inquietos, às necessidades que a publicidade faz nascer nos hipotéticos consumidores, bem como à frustração que a grande maioria sente por não poder adquirir aquilo que lhe é apresentado como essencial. E a possibilidade de comprar a prestações apresenta o crédito como parceiro facilitador da aquisição imediata do supérfluo. Aparentemente benéfica, pois possibilita a muitos a aquisição de objectos de outro modo inalcançáveis, há nesta promoção das compras um valor artificial.

À primeira vista, a facilidade de comprar a crédito surge como um aumento da nossa liberdade de escolha, alimentando uma “estratégia do desejo”[2]. O facto de podermos usufruir de um objecto muito antes de o termos totalmente pago, é sintoma de uma nova ética de antecipação e de fruição, de um novo modo de estar no mundo, em que o consumo é anterior à aquisição total. Desaparece do nosso universo mental o conceito de poupança, de espera pelo momento oportuno, de valorização do que não é imediatamente alcançável. Habituamo-nos a viver acima das nossas possibilidades e consideramos natural o facto de um pequeno investimento nos tornar donos de objectos que ultrapassam grandemente as nossas possibilidades de compra imediata.

Resisti às blackfridays que nos têm perseguido durante as últimas semanas mas é-me impossível ignorar os presentes de Natal, sem os quais filhos e netos se considerariam defraudados ou esquecidos. Como conciliar este desejo natural de dar e de receber com o ideal de frugalidade para o qual o Papa Francisco nos alerta?

Dos diferentes textos em que ultimamente os cristãos são convidados a uma mudança de vida, revisitamos em primeiro lugar a Laudato Si’, onde o capítulo VI segue o lema “quanto menos, tanto mais”, desafiando-nos a regressar a uma vida simples e agradecendo as possibilidades que nos são oferecidas. A fruição tranquila dos bons encontros, a satisfação que decorre do serviço dos outros, o prazer desfrutado pela música, pela arte, pelo contacto com a natureza e pela prática da oração, levam-nos a saborear mais e a viver melhor cada momento, combatendo a aceleração dos ritmos de vida, tão perniciosos para uma escuta dos outros, para uma atenção à Natureza, para o bem-estar das comunidades.

A pressa constante em que vivemos intensifica-se no Natal, com a organização das festividades e o afã dos presentes. Mas a Laudato Si’ lembra-nos que uma ecologia integral “exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação”(§ 225). Na mesma linha de apelo a uma mudança de enfoque, o Sínodo sobre a Amazónia lembra-nos que a conversão pastoral assenta na sinodalidade – uma vivência em conjunto onde se exige que todos se escutem mutuamente. E aspira a um diálogo intercultural, privilegiando as periferias.

No que respeita à vivência concreta deste Advento e de um Natal imbuído pela mensagem da Laudato Si’, o Movimento Católico Global pelo Clima (MCGC) propõe-nos alguns preceitos que nos poderão ajudar a cultivar nesta época um espírito de sobriedade, a ultrapassar uma cultura de consumo e a colocar a tónica nos valores que partilhamos.

Destaco em primeiro lugar os que se referem a atitudes, e penso que não é por acaso que o primeiro preceito é ensinar às crianças o verdadeiro sentido do Natal, explicando-lhes o significado dos presentes como prova de amor recíproco entre quem dá e quem recebe e alertando-as para a condição dos que não têm possibilidade de partilhar esta alegria. O Natal é um momento especial para manter vivas as tradições da família e, como tal, mais do que coisas materiais, importa partilhar momentos. A atenção ao outro é uma manifestação de amor. Há que saber perder/ganhar tempo conversando com familiares e amigos cuja proximidade nos é tão óbvia que por vezes nos leva a esquecer o prazer da escuta e do diálogo.

O Advento pode ser encarado como uma oportunidade   de reflexão, de revisão de vida, feita individualmente ou em grupo. É um tempo de boas intenções para o futuro, de perspectiva de pequenas mudanças que poderão melhorar o modo de habitar a nossa casa comum, bem como as relações que estabelecemos uns com os outros. É um tempo em que se reactiva o desejo de um mundo mais justo. Como tal, importa prestar atenção às boas causas e ajudar à sua concretização.

Nos preceitos enunciados pelo MCGC há também aspectos práticos que nos encaminham para um Natal mais ecológico e que desafiam a nossa criatividade. Estão neste caso a reciclagem de produtos transformando-os em artesanato natalício, o gasto menor com o papel dos presentes mediante a reutilização dos embrulhos, o aproveitamento do papel de revistas e de jornais, transformando-os em pacotes criativos, a colocação dos presentes em sacos de pano, etc. O combate a uma cultura do descarte passa também pelos produtos em segunda mão, nomeadamente os livros. Note-se que nestes preceitos natalícios os fornecedores locais não são esquecidos, sendo privilegiados nas compras, em detrimento das grandes superfícies.

Esqueçamos as renas, os trenós e os enfeites sofisticados que nada têm a ver com o nascimento de Jesus. Regressemos à frugalidade do Presépio, centrando-nos nas figuras do Menino, de Maria e de José. Às quais podemos acrescentar, ecologicamente, a vaca, o burro e as indispensáveis palhinhas para aquecer a manjedoura.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

[1] Jean Baudrillard, Le Système des Objets, Paris, Gallimard, Tel, 1968.

[2] Ob. cit., p. 218.

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