Os cardeais começaram no segundo milénio, podem acabar no terceiro?

| 5 Out 2023

A partir de hoje, com publicação semanal às quintas-feiras (aparecendo o texto na newsletter de sexta), passamos a contar com um comentário semanal, assinado rotativamente por cada um dos membros da equipa de Redacção do 7MARGENS. Esta nova coluna, À Margem, não se confunde com um editorial; neste, mesmo quando o texto é assinado apenas por um de nós, expressamos uma opinião debatida pela Redacção e que se relaciona quase sempre com a actualidade. No caso do comentário À Margem, ele surge como expressão de uma reflexão pessoal, que pode ter ou não relação com a actualidade. Trata-se, enfim, de mais um contributo para o debate livre e plural, que surge na sequência de várias sugestões feitas nos dois encontros de leitores realizados em Setembro.

 

Pier Leone Ghezzi, cardeal, colégio cardinalício

Pier Leone Ghezzi (Roma 1674-1755) (atribuído a) O Papa Clemente XI (Giovanni Francesco Albani) confere o barrete cardinalício a Giulio Alberoni; 1724, óleo sobre tela. Museu de Roma.

 

Duas pinturas, uma sala de um museu, um consistório de cardeais, um auditório que é mesa de conversa e um sínodo de bispos que já não é só de bispos. Olhados em simultâneo, podemos encontrar nestes sinais algo sobre algumas encruzilhadas actuais do catolicismo.

Numa sala do Museo di Roma, há duas telas atribuídas a Pier Leone Ghezzi (1674-1755). Numa delas, vê-se o Papa Clemente XI (Giovanni Francesco Albani) a conferir o barrete cardinalício a Giulio Alberoni; na outra, é Inocêncio X (Giambattista Pamphili) que entrega o barrete a Fabio Chigi. Todos os apelidos – Albani, Alberoni, Pamphili  ou Chigi – são de importantes famílias de Roma, que durante os séculos do Renascimento lutavam entre si para conseguir lugares no papado ou na instituição cardinalícia. Esses nomes estão hoje perpetuados em palácios, museus, obras de arte…

Aproximando o olhar, percebemos que alguma coisa mudou: o Papa já não usa a tiara (o chapéu que simbolizaria a autoridade papal como pastor universal e o seu poder temporal), algumas das vestes são diferentes, o chapéu vermelho e redondo caiu em desuso. Surgido no e com o Renascimento (a Idade Média tem as costas muito largas para o que é mau, mas essa seria outra conversa), muito do que estes dois quadros retratam ainda subsiste na Igreja, num modelo construído de poder, fausto e nobreza. Tal modelo esteve na origem da própria divisão do cristianismo ocidental, com a ruptura de Lutero e a Reforma protestante, como o próprio Papa Francisco reconheceu já: “Creio que as intenções de Lutero não eram erradas: era um reformador”, disse o Papa Francisco, em 26 de Junho de 2016, na conferência de imprensa a bordo do avião de regresso a Roma, vindo da Arménia. “Naquele tempo (…) a Igreja não era propriamente um modelo a imitar: havia corrupção na Igreja, havia mundanidade, havia apego ao dinheiro e ao poder.

Pier Leone Ghezzi, cardeal, colégio cardinalício

Pier Leone Ghezzi (Roma, 1674-1755), (atribuído a), Inocêncio X (Giambattista Pamphili) entrega o barrete cardinalicio a Fabio Chigi; 1724, óleo sobre tela. Museu de Roma.

 

As duas obras de Ghezzi, pintadas há 300 anos, podem ser tomadas como retratos dos consistórios que se vão sucedendo, ainda neste século XXI – e de que o último, de sábado passado, é apenas mais um exemplo. O discurso dos papas, claramente, mudou. João Paulo II, Bento XVI e sobretudo Francisco têm insistido na ideia de que os cardeais já não são “príncipes” da Igreja e têm uma missão de serviço a toda a Igreja, através da sua função de conselheiros do Papa. Mas tudo, a começar nas vestes (usadas apenas para ocasiões especiais e que custam pequenas fortunas) e a acabar na linguagem eclesiástica sobre o tema (continua, por exemplo, a falar-se da “elevação” a cardeal) remete para o oposto disso.

Não estão em causa as pessoas concretas investidas sábado passado como cardeais ou o conjunto do Colégio Cardinalício. É mesmo a instituição e o modelo. Para acentuar o contraste referido, o último consistório decorreu quatro dias antes do início formal de um sínodo onde, pela primeira vez, leigos e mulheres têm direito a voto. Um sínodo que pretende debater os caminhos de futuro sobre a vida da Igreja Católica e a sua missão no mundo contemporâneo. Por isso, não podia ser maior o contraste entre a visão de poder e fausto que, apesar das mudanças, ainda predomina numa cerimónia de consistório, de um lado, e a Aula Paulo VI, do outro, transformada numa grande mesa de conversa para o sínodo.

Os títulos de cardeais, cónegos, monsenhores ou outras “dignidades” são muitas vezes vistos como uma espécie de prémio de carreira. Servem para fazer distinção de cargos, honrarias e pessoas. Tal como as formas de tratamento: eminências, reverendos ou suas reverências (ou seja, que devem ser reverenciados), “Dom” (abreviatura do Domini, os senhores com os seus domínios)… Uns e outras são uma negação absoluta de princípios do Evangelho no qual a Igreja se funda: “Não vos chameis mestres, porque um só é o vosso Mestre, que é Cristo.” (Mateus 23, 10); “Reconheço que Deus não faz acepção de pessoas” (Actos dos Apóstolos 10, 34).

Ainda mais, o cardinalato é uma instituição que vem dos séculos XI/XII. O próprio nome de consistório tem origem na antiga Roma: era “o conselho privado do imperador formado pelos seus colaboradores mais próximos”, como se explica na página do Pontifício Instituto Superior de Direito Canónico, do Rio de Janeiro (Brasil).

Pier Leone Ghezzi, cardeal, colégio cardinalício

Pier Leone Ghezzi (atribuído a); (Roma 1674 – 1755), Inocêncio X (Pamphili) entrega o barrete cardinalicio a Fabio Chigi (pormenor); 1724, óleo sobre tela. Museu de Roma.

 

O Papa, como qualquer líder de qualquer instituição, precisa de um grupo de conselheiros ou assessores, função que pode ser assegurada por bispos, padres, leigos (incluindo mulheres, já agora), que possam ajudar a reflectir, pensar e aconselhar. A outra função do colégio, a eleitoral, pode também ser reconfigurada. Desde logo, para evitar que, na prática, seja o Papa em funções (quem quer que ele seja) a escolher o seu sucessor, já que é ele que nomeia quem faz parte desse grupo.

Em várias opções estou mais próximo do caminho proposto por Francisco do que dos anteriores pontificados e considero positivas várias das suas escolhas. Mas continuo a considerar que este é um jogo viciado e que o modo de escolher o Papa deve, por isso, ser revisto. Se a solução pode não ser fácil, ela pode passar pelos presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, por superiores gerais de congregações religiosas, por responsáveis de movimentos laicais e outras instituições católicas. Uma Igreja Católica (ou seja, universal) tem de procurar, hoje, um modelo de escolha da sua liderança que seja mais universal do que o actual. Admitindo, como ficou dito, que a solução não será fácil e sabendo que o discernimento espiritual tem de ser obrigatório.

O cardinalato, instituição que remete para honrarias, privilégios e poder, vem do segundo milénio do cristianismo, pode por isso acabar no início do terceiro. Este pode ser também um debate para o sínodo e para os próximos anos.

 

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