
Retrato de Albert Einstein: “…[contemplação] uma espécie de alegria intoxicada e espanto face à beleza e grandiosidade deste mundo….Esta alegria é o sentimento a partir do qual a verdadeira investigação científica se mantém, mas que também encontra a expressão no canto dos pássaros.” . Foto Pixabay
O gosto de aflorar os sentimentos cósmicos de Albert Einstein e de Francisco de Assis, dois homens tão distintos tanto nas suas vidas, como distantes relativamente à época em que viveram, surgiu-me já há duas dezenas de anos quando li o livro de António Damásio “Ao encontro de Espinosa”. Como transcreve António Damásio: “É precisamente entre os heréticos de cada era, que encontramos homens cheios da espécie mais elevada de sentimento religioso, mas que eram olhados pelos seus contemporâneos como ateus, e às vezes como santos”(1) De facto, António Damásio refere que ao abordar os sentimentos religiosos das mentes mais profundas, Einstein afirma, que ”tomam a forma de um espanto extasiante face à harmonia da lei natural”, tendo mesmo usado palavras muito belas para descrever tal contemplação, “…uma espécie de alegria intoxicada e espanto face à beleza e grandiosidade deste mundo….Esta alegria é o sentimento a partir do qual a verdadeira investigação científica se mantém, mas que também encontra a expressão no canto dos pássaros.” António Damásio afirma que “o sentimento cósmico de Einstein é exuberante, uma mistura de exaltação espantada com uma preparação igualmente exaltada para a comunhão do corpo com o mundo”(2). Sobejamente conhecido por todos nós, pelo seu enorme contributo para o entendimento científico do Universo, Einstein releva a importância da humildade perante o desconhecido. A sua humildade nasceu da consciência da vastidão de algo superior por trás de todos os fenómenos. Max Born disse sobre ele: “Ele sabia, assim como Sócrates, que não sabemos nada”. Einstein nunca perdeu a sua saudável curiosidade e esperança de contribuir para o desvendar desse mistério, tendo intuído a teoria da relatividade. Einstein foi um autoproclamado discípulo de Spinoza (1632-1677), o filósofo e místico judeu do século XVII, escrevendo mesmo “Sou fascinado pelo panteísmo de Spinoza, mas admiro ainda mais a sua contribuição para o pensamento moderno porque ele é o primeiro filósofo a lidar com a alma e o corpo como uma só coisa, e não como duas coisas separadas”. Alheios aos valores superficiais que dominam muitas massas, Einstein e Spinoza partilhavam uma forte convicção na existência de um Ser Superior. Ambos sentiram humildade, reverência e admiração diante desse Ser divino na natureza (3). Einstein apaga possíveis conflitos entre espiritualidade e conhecimento científico, fazendo coexistir o conhecimento científico com uma abordagem mais holística da existência. Ele convida à contemplação e ao respeito pela vastidão e complexidade do Universo. De modo idêntico, referiu-se à beleza dos ensinamentos de Jesus e afirmou que ninguém tinha conseguido expressá-los tão divinamente.

Capa da Exposição do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, promovido por São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS
Por seu lado, a espiritualidade cósmica de Francisco de Assis revelou o mundo da matéria como lugar da interferência divina. As suas relações fraternas com toda a criação revelaram a sua inserção no Cosmos, unindo-se com ela. A espiritualidade de Francisco ressoa com aspectos-chave da ciência moderna e da filosofia dos novos materialismos e do pós-humanismo (4). Em todo o Universo existe energia e consciência, duas facetas de um todo unificado que ligam a energia material e a espiritual, tornando-as uma continuidade na qual todas as coisas existem. O fim mais elevado, ou espiritual, é conhecido por diferentes nomes em diferentes religiões em todo o mundo. Foi encarnado em Jesus, que se tornou Cristo, em quem todas as linhas convergem, se completam e se interligam, e onde todas as impurezas e diversidades se dissolvem.
Em 30 de Novembro de 1215, o Papa Inocêncio III apelou a uma nova Cruzada contra os Muçulmanos que tinham “ocupado e profanado a Terra Santa” (5). O apelo ao apoio a esta guerra foi feito por toda a Europa. Os pregadores despertaram o entusiasmo entre o povo e aos potenciais soldados foi prometida uma indulgência plenária por participarem nesta batalha divina contra os infiéis. Foi colocada uma enorme pressão sobre Francisco para apoiar a guerra através da sua pregação por toda a Itália e não só. Apesar da sua ansiedade perante as autoridades eclesiásticas, ele não podia agir a favor da guerra. Então, tornou-se um homem de paz e a história do seu encontro com o Sultão Malik al-Kamil é um exemplo do passo final que aquele homem deu para alcançar a harmonia entre a cristandade europeia e o mundo muçulmano. O amante da cavalaria e filho privilegiado de um rico comerciante renasceu como um pacificador (6).
Foi um renascimento a favor do Evangelho, um esforço para viver os valores pregados por Jesus. No entanto, foi um desafio para os nobres e proprietários de terras – incluindo não poucos cardeais e bispos – que pareciam ver que a luta era a única forma de proteger a sua propriedade e de se vingar daqueles que desafiaram a sua soberania. A propriedade e o ganho económico pareciam estar no centro daquela sociedade violenta e, em resposta, Francisco proclamou o seu Amor pela Senhora Pobreza e assim conseguiu viver uma liberdade que lhe permitiu estar em contacto com todos como irmãos e, de facto, com toda a criação (7). Deus, podia ser visto nos seus elementos como Aquele que cria e cuida de todas as criaturas: Sol, lua, estrelas, vento, ar, nuvens, água, fogo, mãe terra, variados frutos, flores coloridas, verduras, os que perdoam por amor e suportam enfermidades e tribulações, aqueles que suportam em paz, a morte corporal. A sua comunhão com estas criaturas atingiu a sua realidade mais íntima, ela falava-lhe das profundezas do seu próprio ser e através dos poderes primordiais da sua alma. Por isso a sua comunhão com elas foi também um encontro com o Sagrado (8). A espiritualidade cósmica de Francisco de Assis é uma espiritualidade cósmica de pacificação.
Outros parentes próximos deste sentimento cósmico seriam Espinosa e Demócrito (1).
E quanto a alguns de nós?
Bibliografia:
- Albert Einstein: Religion and Science
- Cf. António Damásio: Ao Encontro de Espinosa, 2003
- Swami Tathagatananda: Albert Einstein – The Mystic. Prabuddha Bharata, 2008
- Cf. Franciscan School of Theology
- Julio Mico, “The Spirituality of St. Francis: Going Among Non-Believers.” Greyfriars Review 1996
- Paul Moses, The Saint and the Sultan: The Crusades, Islam and Francis of Assisi’s Mission of Peace, 2009
- Cf. Laurence P Prior: Francis of Assis and a Cosmic Spirituality, 2011
- Eloi Leclerc, The Canticle of Creatures: Symbols of Union. 1970
Maria Aldina Brás é geneticista médica e Professora aposentada da UNL.










