
“No regaço do meu cansaço, imploro o meu avesso” . (Espetáculo Aurora, Ana Sofia Brito. Foto: Retirada de vídeo de Daniel Azevedo.)
Que me fosse concedido o desejo de aquietar a consciência,
aquele dom invejável dos sábios discretos;
às tantas, vivo cansada de uma mente desobediente
a perturbar cada instante que a vida me dispõe.
Parece que, afinal, o sonho é obra do ego, e o ego é obra do diabo.
No regaço do meu cansaço, imploro o meu avesso;
dai-me vida, sabedoria para trocar a obsessão por uma sã e eterna dose
da quietude do pensamento!
Dai-me vida o que despretensiosamente te imploro!
Quero aprender os sorrisos sem cobrança que nunca soube dar.
Admiráveis são os que realizam os seus sonhos
enfrentando lutas desenfreadas para consegui-lo;
mais admiráveis ainda, os que são gratuitamente felizes,
mesmo que, por toda a vida vão, sem ambição de sonhos realizados.

“Trago em mim pedaços indestrutíveis de gente que me habita”. (Espetáculo Ana Sofia Brito. Foto: Direitos Reservados)
O que sabemos de nós para além do nome que nos deram,
da morada em que habitamos, da profissão pela qual envergamos?
Trago em mim pedaços indestrutíveis de gente que me habita
e, por isso mesmo, talvez eu não saiba ser quem sou.
Não sou senão um espelho das vozes que ouço,
um leque de crenças que os outros depositam em mim.
Trago ao colo uma multidão histérica e, apesar de tudo,
nada sobra para além desse colo
onde também eu, talvez, possa caber.
Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.










