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Os meninos da cidade incompleta 

O inferno ficou oco

O Ratazano, quando subia à superfície e suportava a claridade por mais de um qualquer tempo, quase sempre procurava buracos para se esconder e respirar a sombra. Também os havia lá em cima, os buracos. Bem escondidos, mas havia-os. Ah, se os havia. Eram restos guardados em surdina para a oportunidade do futuro. E a lucidez coitada, tão ingénua, não se dava conta. Mas o Ratazano, esse sim, descobria tudo quanto era viscoso. Faro apurado. [Texto alegórico de Ana Sofia Brito]

Os meninos da cidade incompleta 

Mãe

A mãe deixou-me que lhe ocupasse o ventre; era ainda da idade que as maçãs têm no verão, coberta por pele tão suave e sensível quanto o aroma das suas verdes vivências.

Os meninos da cidade incompleta 

Agente Neves

Lia às escondidas desde que aprendera a dar significado às palavras juntando letras. Sonhava, e nesse sonho o mundo era livre, tão livre que só a imaginação – essa imaginação dos poetas, que trespassa quem os lê –, só a imaginação importava. O mundo era uma balança a pesar em pratos de páginas lidas. Não havia lei, nem censura, nem capas proibidas. Havia histórias a eternizar os acontecimentos da linha do tempo. [Texto de Ana Sofia Brito]

Os meninos da cidade incompleta 

Mata-me, mãe

Tiago adorava a adrenalina de ser atropelado pelas ondas espumosas dos mares de bandeira vermelha. Poucos entenderão isto, à excepção dos surfistas. Como explicar a alguém a sensação de ser totalmente abalroado para um lugar centrífugo e sem ar, no qual os segundos parecem anos onde os pontos cardeais se invalidam? Como explicar a alguém que o limiar da morte é o lugar mais vital dos amantes de adrenalina, essa droga que brota das entranhas? É ao espreitar a morte que se descobre a vida.

Os meninos da cidade incompleta 

Skady – Deusa da caça, das tempestades e das montanhas

A Skady ultrapassou a idade prevista para um cão do seu porte, deixou de mover as patas traseiras, perdeu a visão e escasseou-lhe a audição. Eu não aguentava a angústia de a olhar sem saber o que fazer para a ajudar. Deixou de ser a caçadora de galinhas, trepadora de montes, rochas e falésias, e nadadora de mares revoltos, para se tornar a vulnerabilidade sem vitimização que só eu não sabia aceitar. Fosse eu um cão e viveria bem melhor. [Texto de Ana Sofia Brito]

Os meninos da cidade incompleta 

As bolachas de água e sal da Vizinha Rita

A Vizinha Rita morreu e recebi a notícia nessa mesma noite quando estava já deitada. Por essa hora eu lia um texto genial do Três-Setes, livro de Eduardo Duarte, onde o protagonista é abordado pelos seus mortos numa noite assombrada.

Os meninos da cidade incompleta 

Um Bom Dia para as maganas

Era um ano de seca na região algarvia e o rebanho estava faminto. Na manhã cujo relato se segue, Toine Baguinhe – o pastor – aventurou-se para lá da 125 na esperança de encontrar erva húmida com que alimentar as 500 ovelhas que pastava. Ali, naquela terra de ninguém que fronteia os descampados da cidade, talvez a sorte sorrisse. (Ana Sofia Brito)

Os meninos da cidade incompleta 

O inferno ficou oco

O Ratazano, quando subia à superfície e suportava a claridade por mais de um qualquer tempo, quase sempre procurava buracos para se esconder e respirar a sombra. Também os havia lá em cima, os buracos. Bem escondidos, mas havia-os. Ah, se os havia. Eram restos guardados em surdina para a oportunidade do futuro. E a lucidez coitada, tão ingénua, não se dava conta. Mas o Ratazano, esse sim, descobria tudo quanto era viscoso. Faro apurado. [Texto alegórico de Ana Sofia Brito]

Os meninos da cidade incompleta 

Mãe

A mãe deixou-me que lhe ocupasse o ventre; era ainda da idade que as maçãs têm no verão, coberta por pele tão suave e sensível quanto o aroma das suas verdes vivências.

Os meninos da cidade incompleta 

Agente Neves

Lia às escondidas desde que aprendera a dar significado às palavras juntando letras. Sonhava, e nesse sonho o mundo era livre, tão livre que só a imaginação – essa imaginação dos poetas, que trespassa quem os lê –, só a imaginação importava. O mundo era uma balança a pesar em pratos de páginas lidas. Não havia lei, nem censura, nem capas proibidas. Havia histórias a eternizar os acontecimentos da linha do tempo. [Texto de Ana Sofia Brito]

Os meninos da cidade incompleta 

Mata-me, mãe

Tiago adorava a adrenalina de ser atropelado pelas ondas espumosas dos mares de bandeira vermelha. Poucos entenderão isto, à excepção dos surfistas. Como explicar a alguém a sensação de ser totalmente abalroado para um lugar centrífugo e sem ar, no qual os segundos parecem anos onde os pontos cardeais se invalidam? Como explicar a alguém que o limiar da morte é o lugar mais vital dos amantes de adrenalina, essa droga que brota das entranhas? É ao espreitar a morte que se descobre a vida.

Os meninos da cidade incompleta 

Skady – Deusa da caça, das tempestades e das montanhas

A Skady ultrapassou a idade prevista para um cão do seu porte, deixou de mover as patas traseiras, perdeu a visão e escasseou-lhe a audição. Eu não aguentava a angústia de a olhar sem saber o que fazer para a ajudar. Deixou de ser a caçadora de galinhas, trepadora de montes, rochas e falésias, e nadadora de mares revoltos, para se tornar a vulnerabilidade sem vitimização que só eu não sabia aceitar. Fosse eu um cão e viveria bem melhor. [Texto de Ana Sofia Brito]

Os meninos da cidade incompleta 

As bolachas de água e sal da Vizinha Rita

A Vizinha Rita morreu e recebi a notícia nessa mesma noite quando estava já deitada. Por essa hora eu lia um texto genial do Três-Setes, livro de Eduardo Duarte, onde o protagonista é abordado pelos seus mortos numa noite assombrada.

Os meninos da cidade incompleta 

Um Bom Dia para as maganas

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Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

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No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se …

[Arquipélago Jerusalém]

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Acordamos e consultamos as notícias e fica a impressão que o mundo está muito desarrumado e que somos impotentes para o modificar; que pouco podemos fazer contra a ideologia  trumpista, putinista e xijinpinguista – que mistura consumismo e força bruta: preciso de poder comprar o que quero e, se não puder comprar, posso tomá-lo à força. A propaganda alcança o seu fim quando já dispensamos o propagandista e passamos nós próprios a repeti-la. [Texto de Mendo Castro Henriques].

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