
“Será que o futuro das revistas em papel passa pela transição completa para uma versão digital que cansa a vista? Poderemos ter o mesmo nível de confiança no digital que temos com as revistas em papel?” Foto © Charisse Kenion | Unsplash
Recentemente, a 12 de setembro de 2022, a Paulus anuncia que a revista Família Cristã deixaria de ser impressa ao fim de 68 anos de existência. Fez notícia? Sim. No próprio dia. Mas, e depois? Um silêncio sepulcral. Ninguém procurou reflectir sobre as razões da diminuição do número de assinantes e do aumento dos custos de produção. Existem muitas outras revistas por assinatura em Portugal como a Além-Mar, dos Missionários Combonianos, o Mensageiro de Santo António, dos Franciscanos, a Cidade Nova, dos Focolares, o Mundo Rural, da Acção Católica Rural, a Pneuma, do Renovamento Carismático, entre outras, suscitando a questão: sobreviverão? Quantas das revistas que mencionei são do conhecimento do leitor?
Não há a menor dúvida de que a era digital que emergiu a partir da internet mudou muito o modo como as notícias circulam pelo mundo. A necessidade de actualização em permanência na web é o que mantém a novidade e chama a atenção dos leitores. Um jornal digital que não publique regularmente, arrisca-se a extinguir. Por outro lado, talvez ressoe com a experiência da maior parte dos leitores, a sensação de termos cada vez menos paciência para ler artigos longos. Por isso, a não ser que a escrita seja verdadeiramente cativante, ao fim do segundo swipe, a probabilidade de desistirmos da leitura do artigo (incluindo este, se estiver a lê-lo num smartphone) é grande. Pensamos que podemos ler mais tarde, mas o “tarde”, cedo se torna nunca. Será que o futuro das revistas em papel passa pela transição completa para uma versão digital que cansa a vista? Poderemos ter o mesmo nível de confiança no digital que temos com as revistas em papel?
Na obra de George Orwell Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, que antecipa a ideia de um “Big Brother”, não foi a vigilância permanente e perda da privacidade que me chamou a atenção, embora seja uma realidade crescente e preocupante neste tempo. O “Ministério da Verdade” tinha a missão de alterar o passado de acordo com o que era mais vantajoso para o “Big Brother”. O que lemos on-line nem sempre é fiável, como se demonstra pelo efeito que as fake news têm sobre a opinião das pessoas e as suas escolhas. Se tudo fosse digitalizado e uma Inteligência Artificial eliminasse um pedaço da nossa história, ou a alterasse, como as pessoas confiam naquilo que diz a Wikipedia, o que lá está, é o que se considera verdadeiro. Mas, será? Dou-vos um exemplo grave na Wikipedia, e que por mais que tenhamos procurado corrigir a favor da verdade, mantém-se como conhecimento falso: o caso do Movimento dos Focolares, ao qual pertenço.
A página da Wikipedia diz, sobre esse Movimento, que «É considerado um movimento fundamentalista, totalitário e conservador.» Oferece depois uma série de referências pouco credíveis, incluindo uma tese de doutoramento que não passa disso, uma tese. A afirmação que faço de falsidade desta frase não provém de um artigo científico, mas da minha experiência pessoal ser completamente oposta a isso. Numa enciclopédia em papel, ninguém se arriscaria a escrever tal frase sem verificar a sua veracidade. Assim como numa revista em papel, pelo facto de implicar algum investimento, existe um grande cuidado nos conteúdos produzidos e a fiabilidade da verdade é substancialmente superior.
As revistas de natureza espiritual não sobrevivem tanto dos anúncios como dos assinantes. A sua continuidade coloca-se na mão das pessoas-leitores, em vez de assentar em interesses corporativos. Daí a sua dificuldade, mas vem daí também a confiança que podemos ter nos conteúdos. Não é por acaso que em plena pandemia, no ano de 2020, foram lançadas 60 novas revistas em papel nos Estados Unidos da América. E a razão está no renovado interesse em ler o que se passa no mundo a partir de fontes que perdem tempo a ponderar bem cada artigo porque, uma vez impresso, não se pode editar.
Um argumento ausente das razões para o que aconteceu com a Família Cristã poderia ser o facto das pessoas lerem menos. Na Web 2.0, a introdução de vídeos não só torna o conteúdo mais dinâmico e atractivo, como acaba por consumir muito do tempo e atenção de quem os vê. Os vídeos na web são como uma evolução da televisão que Caleb Crain, num artigo que escreveu para a revista The New Yorker, identifica como a razão principal das pessoas lerem menos livros, ao que poderíamos acrescentar as revistas.
Ler aguça a mente. E a leitura digital não poderá substituir a leitura em papel porque o nível de compreensão do que lemos é diferente. Por isso, talvez seja necessário aceitar que existe um equilíbrio entre o que lemos digitalmente e o que lemos materialmente. Se o último se extinguir e apenas ficar o primeiro, quem nos garante que lemos o que é verdade? Revistas como a Família Cristã são instrumentos de evangelização que me custa estarem em extinção e creio que as comunidades e leitores próximos da família Paulista, assim como todos os que estão próximos de todas as revistas de natureza mais espiritual, poderiam reencontrar o valor e cuidado pela verdade que, impresso numa folha de papel (reciclado), não precisa de bateria ou electricidade para saciar a sede de conhecimento.
Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra. Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://tinyletter.com/miguelopanao. Contacto: miguel@miguelpanao.com










