Auroville: 50 anos de “anarquia divina”
Um lugar de pesquisas materiais e espirituais para realizar a unidade humana. Em 1968, no sul da Índia, nascia Auroville, a “cidade da aurora”. Crónica de um sonho, contado a três vozes, desde Portugal.
“Deveria haver algures sobre a Terra um lugar que nenhuma nação pudesse considerar como seu, onde todos os seres humanos de boa vontade, sinceros nas suas aspirações, poderiam viver livremente. O dinheiro não seria mais o senhor soberano. O trabalho não seria um meio de ganhar a vida, mas o meio através do qual o indivíduo se expressa e se desenvolve. As relações entre seres humanos, normalmente baseadas em competição e discórdia, seriam de estímulo ao progresso, colaboração e verdadeira fraternidade.”

Foto © Olivier/Flickr
“Uau!” Foi a reação de Ana Costa e Tiago Rouxinol, quando leram numa revista sobre a maior eco-aldeia no mundo: Auroville. Cresceram e estudaram ambos na cidade do Porto. “Ele não queria ser administrador de empresas e eu não queria ser arquiteta paisagista de escritório”, recorda Ana. “Estávamos à procura de uma vida em harmonia com a natureza. Sabíamos que queríamos viver em comunidade. E partimos em busca de inspirações, de outros estilos de vida.” Ainda viveram dois anos na Amazónia, no Peru. “Mas a Índia chamou-nos, chamou-nos.” E rumaram a Oriente.
“O meu caminho levou-me lá”, resume Khaled Mohamed. É natural do Cairo, Egito. “Deixei a cidade, procurava algo diferente de ir à universidade, encontrar um trabalho e viver essa vida aborrecida.” Então viajou até à Índia desconhecida. Certo dia, quando dormia num autocarro, alguém lhe roubou a carteira. “Aterrei em Pondicherry, sem telemóvel, sem dinheiro, sem nada.” Os outros passageiros juntaram-lhe 100 rupias, e ele seguiu o conselho de um condutor de riquexó: “Vai a Auroville.”
Fica na costa do Tamil Nadu, a dez quilómetros de Pondicherry. É ali que vivem perto de três mil pessoas, de 50 nacionalidades, espalhadas por mais de 60 comunidades – como pequenas aldeias entre a floresta. Nasceu de um sonho mas, para Ana e Tiago, seria um despertar. Ao chegarem como voluntários, trabalharam com crianças em educação ambiental, dança e música. Um mês virou seis meses. “Viram em nós uma energia nova e uma comunidade convidou-nos para ficarmos residentes.” Ainda houve uma viagem até ao Mali por terra, para conhecer África. Um ano depois, voltaram a Auroville com uma bagagem repleta de instrumentos e materiais. Para ficar sete anos.
“Rapaz, antes de falarmos do que quer que seja, lê este livro”, disse-lhe Krishna, responsável da Solitude Farm, que se tornaria seu mestre e amigo. No centro de visitantes de Auroville haviam dito a Khaled que as quintas lhe podiam dar abrigo e comida em troca de trabalho voluntário. “Tive sorte!”, lembra. “Cheguei à mais hippiedas quintas. Um lugar maravilhoso. E fiquei. Simplesmente fiquei.” Estávamos em 2004 e Khaled viveria ali dez anos da sua vida. “Foi uma grande transformação. Juntei-me à quinta, tornei-me parte de Auroville.”
Escola de vida
Na quinta, Khaled aprende a arte da agricultura natural de Fukuoka. “A minha vida era cultivar a terra. Éramos 95% auto-suficientes. Produziamos as nossas leguminosas, frutas e legumes, processávamos a nossa comida, fazíamos os nossos óleos e compotas. E construímos as nossas próprias estruturas.”

Foto cedida por Ana Costa.
Solitude é uma das vinte quintas de Auroville. Também há uma rede de distribuição dos alimentos e um supermercado cooperativo. Há restaurantes, artesanato, produção de energias alternativas. E não há propriedade privada. A ideia é ser “uma terra sem donos, sem autoridade, com liberdade para uma pessoa se exprimir, sem ter de se escravizar por dinheiro e pela sobrevivência. E um trabalho comum que ambiciona um propósito mais alto”, conta Khaled.
“O sistema económico é muito inteligente: investe nas capacidades naturais dos membros. Se tu és agricultor, recebes um salário para seres agricultor e abasteceres o mercado da comunidade. Se fores músico, tocas, dás aulas gratuitas a quem quiser, atuas em concertos de graça, partilhas o teu talento. Recebes a chamada manutenção, uma quantia mensal, para fazeres aquilo de que gostas. E ela é igual para todos – sejas médico, agricultor, dentista ou varredor do chão. Isto dá-nos uma liberdade imensa para criar sistemas que realmente funcionam. Porque toda a gente está feliz fazendo-o.”
“É um sistema de trocas. Se quero fazer um curso de massagens na água, não tenho de pagar balúrdios, mas sim dar o meu serviço”, completa Ana. “Podes ser agricultor e também professor de dança e engenheiro de casas em terra… O processo para te tornares residente é super lindo porque podes explorar em diferentes trabalhos as tuas várias facetas”.
Sadhana Forest é o nome da nova casa de Ana e Tiago. Este projeto comunitário e escola de vida conseguiu recriar em trinta hectares uma impressionante floresta tropical, com 130 espécies autóctones. Sadhana significa caminho espiritual, em sânscrito. Como em toda Auroville, o trabalho é visto como karma yoga– procura-se o alinhamento do eu interno a partir do trabalho feito para a comunidade.
“Era um mundo novo para nós. Uma nova universidade, cheia de informação a nível de tecnologia, sustentabilidade, relações humanas, comunicação não-violenta, terapias. Com uma enorme consciência ambiental, em contraste com o resto da Índia. Uma saudável mistura de origens, de África ao Japão”, conta Ana.
A cada mês chegam a Sadhana Forest quase 80 voluntários e voluntárias, para ajudar no tremendo trabalho de reflorestação. “Um verdadeiro exército verde.” Uma delas é Sara. “São terrenos barrentos muito pobres, nos quais não querem utilizar máquinas, então toda a gente trabalha à mão. Começava todos os dias às 5h30 a reflorestar. Foi um enorme desafio: viver da forma mais local e ecológica, partilhando tudo. Não era permitido trazer coisas embaladas, como bolachas, não podias fumar ou beber vinho. A alimentação era só com as frutas e legumes e cereais locais, e com o mínimo de desperdício. Até a casca das beterrabas era usada para fazer sopa!”
Sara Baga partiu de Lisboa para Auroville para visitar uma amiga que dava aulas na Future School. E o sistema de ensino é do mais inspirador que viu. A primeira escola de Auroville chamou-se “Última Escola”. Outra chamou-se “Não Escola”. “Despertou-me logo curiosidade. O programa pedagógico tem aspetos do ensino Waldorf e das escolas libertárias, e varia com as pessoas que lá vão passando.” O acesso à educação ultrapassa as fronteiras de Auroville e beneficia perto de 800 crianças indianas dos arredores.
Tal como o ensino, o sistema de saúde é gratuito e disponibilizado para a comunidade, visitantes e população da periferia. Recorre a fitomedicina, herbalismo, homeopatia, medicina chinesa e ayurvédica.
Sara também não esquece a experiência que teve no Matrimandir, “Templo da Mãe” em sânscrito. “Parece uma nave do Star Trek”, brinca. Esta enorme esfera dourada, construída à mão durante 40 anos em pleno centro de Auroville, é considerada a alma da comunidade. “Tem uma câmara interior dedicada à meditação profunda. Lá dentro, perdi a noção do tempo.”

Foto © Wikimedia Commons.
Um deserto e um sonho
Quem hoje mergulha na frondosa floresta tropical, dificilmente imaginará o dia 28 de fevereiro de 1968 e a cerimónia de inauguração de Auroville. Juntou cinco mil pessoas de mais de cem países, trazendo um pedaço de terra das suas terras, naquilo que era então um enorme deserto vermelho.
Foi o foco dos primeiros residentes: reflorestar. E construir a infra estrutura para uma cidade sustentável, que possa hospedar 50 mil pessoas – e concretizar a ideia de Mirra Alfassa, conhecida como “a mãe”. Artista, filha de mãe egípcia e pai turco, nascida em Paris, redigiu o sonho e a carta constitucional [ver no final] que atraíram inúmeras pessoas naquele rescaldo do movimento hippie, e que guiam Auroville até hoje. Mas o verdadeiro chão sobre o qual foi erguida a comunidade são os ensinamentos do seu mentor e companheiro: Sri Aurobindo.
Combatente pela liberdade, contemporâneo de Ghandi, comandou o movimento revolucionário clandestino para a independência da Índia, e esteve preso pelo Governo britânico entre 1908 e 1909. Durante esse ano em isolamento, Aurobindo viveu experiências espirituais que mudaram radicalmente a sua vida. Fixou-se em Pondichery, onde desenvolveu o “yoga integral”, escreveu extensivamente e atraiu milhares de seguidores, até morrer em 1950. Na carta de felicitação pelo 50º aniversário de Auroville, o atual presidente indiano chama-lhe “um dos maiores sábios da Índia moderna”.
“Nós estamos a ir em ciclos evolutivos, e o cérebro humano é o topo da pirâmide desta evolução. A próxima evolução não vai ser física, mas espiritual. Mas precisas dum certo ambiente para atear a evolução, tal como os peixes precisaram de um certo ambiente para se tornar anfíbios. Auroville é um espaço físico onde a evolução espiritual pode acontecer”, resume Khaled.
Este salto em frente preconizado por Aurobindo implica uma conexão com a terra, sem propriedade, autoridade nem hierarquia, e aquilo a que a mãe chama a “anarquia divina”, a liberdade espiritual.
Sri Aurobindo e a mãe continuam bem presentes em Auroville. “Algumas pessoas, sobretudo a geração mais velha, tendem a criar uma imagem mítica e a levar as suas palavras como doutrina vinda do céu”, observa Khaled. Mas sublinha que são escolhas individuais, e que a comunidade não é de todo uma seita.
“Que não se torne uma religião”, havia escrito a mãe. “O que quer a nova consciência: não mais divisões”. “Ambos insistiram na importância da liberdade espiritual, direito de todo o ser vivo. Para a evolução espiritual acontecer a anarquia tem de prevalecer. Não há guru, não há professor e não há caminho – há apenas o caminho do coração. Nesse sentido Auroville está aberta a tudo.”
Utopia é uma criação das nossas mentes

Foto cedida por Ana Costa.
“Quando passamos apenas uns dias em Auroville, podemos partir com uma impressão ambígua: artesanato local, belos restaurantes, muitos turistas indianos, ocidentais em motorizadas… É difícil ver espelhada a visão da Mãe, cujo retrato está omnipresente, ao lado do de Sri Aurobindo”, relata Alain Sousa para o Reporterre.
Volvidos 50 anos, o jornalista lembra que a “cidade onde o dinheiro não é mais o senhor soberano” ainda não existe, e que se está longe dum equilíbrio financeiro. Auroville recebe doações externas através das 35 antenas pelo mundo, um apoio anual do governo indiano e tem projetos financiados pela União Europeia, Nações Unidas, e organizações governamentais e não-governamentais de mais de dez países.
O turismo é o outro suporte financeiro. Mas traz um fardo. “Estamos constantemente sobrecarregados com visitas de turistas e voluntários, ano após ano. Perguntam ‘como fazes isto, como fazes aquilo?’, ‘podemos tirar fotos?’ Às vezes sentimo-nos num zoo”, desabafa Khaled. Ana deseja que a cidade saiba manter-se autêntica e “não se deixe perder pelo turismo massivo”.
Desafio é, também, a igualdade social. Para se tornar residente, um “newcomer” tem de ser voluntário durante um a dois anos, dependendo de recursos financeiros próprios. E, devido à penúria de habitação, tem prioridade no acesso a casa quem pode fazer um donativo a Auroville para a sua construção. Fatores que favorecem os aspirantes a aurovillianos vindos de países ricos.
Ao longo dos anos, estabeleceram-se comunidades indianas pobres e rurais na periferia de Auroville. Surgem conflitos na utilização dos recursos naturais, como a madeira. E conflitos de valores com o modo de vida indiano, sobretudo no que toca à violência sobre as mulheres. Houve casos de mulheres de Auroville violadas e desaconselha-se andar-se só à noite.
“Não existe utopia. É uma criação das nossas mentes”, atira Khaled. “Tens um sonho de Auroville: sem autoridade, sem religião, sem empresas e sem políticos, aquilo com que todos sonhamos. E a três mil pessoas foi dada a oportunidade de manifestar isso. A coisa engraçada na experiência é que estas três mil pessoas manifestaram todas as coisas que a constituição procura que não se manifestem. Há hierarquia, há controlo, há competição.”
“Sentamo-nos juntos e sonhamos sobre o mundo maravilhoso, com liberdade de escolha, onde as coisas são boas e fofinhas. Mas é praticamente impossível ter a plataforma social onde podemos realmente experimentá-lo. Auroville é uma plataforma onde todas estas ideias e experiências sociais estão a ser testadas. Um laboratório de evolução. Entre as sessenta comunidades há lugares tão autênticos, e pessoas que estão a levar estas experiências a limites que não podes imaginar, dá vontade de chorar! Mas também há perfeitos canalhas. Europeus brancos que têm o apartamento em Paris arrendado, vivendo como reis na Índia, aproveitando os trópicos e a vida barata e fácil – e tudo ecológico, biológico, que parece bem.”
Para Khaled, Auroville é aquilo que tinha de ser. Uma manifestação daquilo que somos como humanos, neste momento. “Todos nós somos filhos e filhas da vida metropolitana. Transportamos connosco a doença do capitalismo, da sociedade em que crescemos. Auroville é um conceito tão novo, e nunca existiu antes um lugar assim. Utopia existirá quando a humanidade alcançar essa consciência. Mas a mudança social e a evolução são um processo muito lento e orgânico. E Auroville é um reflexo disso.”
O desejo do jovem agricultor é que esta semente de um novo paradigma social para o futuro possa sobreviver às políticas internacionais e ao colapso do mercado global, possa crescer e manifestar a evolução – “uma das evoluções!”.
Do Tamil Nadu à Costa Vicentina
Jacas, mangas, bananas e tâmaras crescem nas árvores. No ventre de Ana e no ventre da companheira de Khaled, crescem bebés. Tiago, Ana e Khaled tornam-se amigos e fazem música juntos – na gestação do que virá a ser a banda Yemadas.
Passam a viver juntos na Windarra Farm, uma comunidade mais pequena, onde fazem horticultura biológica. “Duas mães grávidas a fazer compotas com frutas produzidas na comunidade!”, lembra Ana. Este recanto esquecido fervilha durante dois anos com música africana, capoeira, jantares, jamsà volta do fogo. E a tranquilidade que procuraram cedo se vai. “Falavam de nós em toda a Auroville.”
Até à Índia chegam rumores de Portugal como país hospitaleiro para comunidades alternativas.
“Estávamos um pouco a seguir os ideais das pessoas que estavam lá há mais tempo. E surgiu a vontade de ir para Portugal, para uma terra e um projeto nossos”, conta Ana. A sua criança estava a crescer, e com ela o desejo de estar perto dos avós. Para Khaled, também crescia o desejo de viver uma nova aventura.
Partem numa tourpara tocar na Europa. “Passámos o verão em Portugal e apaixonámo-nos todos pelo país”, conta Khaled. Criam uma pequena comunidade na Costa Vicentina, onde constroem as suas casas, cultivam a terra e fazem música. Agora, os Yemadas partilham pelas cidades, vilas e aldeias de Portugal e da Europa a riqueza artística e espiritual, a alegria, otimismo e união que experimentaram nos “países considerados pobres”. O sonho e os ideais partilhados em Auroville ressoam nos acordes e nas letras do álbum Landscape, lançado em novembro.
Khaled faz parte duma associação que faz regeneração de ecossistemas no Algarve e Alentejo. “Estou aqui e adoro, é um país incrível. Mas também sinto falta de Auroville e vejo-a como a minha casa.”
Hoje, cinco anos e dez mil quilómetros mais longe, recorda as palavras de Krishna na despedida: “Auroville está-nos a dar a liberdade e a possibilidade de manifestar aquilo que queremos sem ter de trabalhar por dinheiro.”
“Na altura levei-o de forma leviana, mas desde que cheguei à Europa estou a lutar com essa realidade. Até deixar Auroville nunca tive de trabalhar para ninguém nem por dinheiro. Nunca tive de investir um segundo da minha vida em algo que não quero. Simplesmente fiz aquilo de que gostava. E porque fiz com amor, fi-lo bem e o resultado foi fabuloso. Se há algo de que sinto falta hoje, é essa liberdade que tínhamos, que não podes encontrar em mais nenhum sítio no mundo.”
Uma Carta Constitucional em quatro pontos
É muito curta a Carta Constitucional de Auroville:
1. Auroville não pertence a ninguém em particular. Auroville pertence à humanidade como um todo. Mas para viver em Auroville é necessário ser o servidor voluntário da Consciência Divina.
2. Auroville será o lugar de uma educação sem fim, de um progresso constante e de uma juventude que nunca envelhece.
3. Auroville quer ser a ponte entre o passado e o futuro. Aproveitando todas as descobertas interiores e exteriores, Auroville dará um salto decisivo em direção a realizações futuras
4. Auroville será um lugar de pesquisas materiais e espirituais para uma manifestação concreta e viva de uma Unidade Humana real.
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Entre margens
[Entre Margens]
Uma característica sinodal é escutar os outros
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[Entre Margens]
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Guerras e mudanças de regime
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