Líder de seita judia ultra-ortodoxa acusado de raptar duas crianças
Quatro líderes e membros da seita de judeus ultra-ortodoxos Lev Tahor foram detidos nos Estados Unidos pelo rapto de duas crianças, netos do já falecido fundador da seita, noticiou esta semana o El País.
Tudo começou quando Sara, 32 anos, filha de Shlomo Helbrans e irmã do novo líder, Nachman Helbrans, fugiu da Guatemala, onde a seita estava na altura, e foi com seus seis filhos para Woodridge, perto de Nova Iorque.
Sara estava acostumada a uma vida diferente. O objectivo da seita Lev Tahor, de acordo com a literatura distribuída pelo grupo, é praticar “judaísmo inadulterado”, o que inclui modéstia severa para mulheres e raparigas (que utilizam vestes da cabeça aos pés, semelhantes a burqas), rejeição completa da tecnologia e extremas restrições de dieta alimentar.
Na Guatemala, a sua casa inseria-se uma aldeia remota, com habitações improvisadas a partir de restos de madeiras soltas e sacos de plástico, onde não havia água quente nem casas de banho. Mas quando foi decidido que a sua filha Yante, na altura com 13 anos, se iria casar com um membro mais velho da seita – uma prática comum dentro da comunidade -, Sara apercebeu-se de que a única maneira de parar este casamento seria escapar.
Ao chegar a Nova Iorque, a mãe pediu ajuda à polícia, como se pode ler na queixa que fez: “Tenho um medo iminente do culto e do que o pai das crianças e outros membros do culto poderão fazer, agora que já não estamos sob o seu poder e manipulação.”
Seis semanas depois de escapar da seita, a 8 de dezembro, a sua filha Yante, 14 anos, e o seu filho Chaim, 12, saíram de casa de madrugada e desapareceram sem deixar rasto. O plano do raptor Nachman Helbrans, tio das crianças e líder do grupo, passou por arranjar aos irmãos roupas seculares, passaportes falsos e passagens de avião para a Guatemala. Mas, a 28 de dezembro, 20 dias depois do seu desaparecimento, Yante e Chaim foram resgatados num hotel em Tenango del Aire, a 40 quilómetros da capital mexicana.
A operação de resgate envolveu autoridades mexicanas e americanas e, após a investigação feita, foram detidos quatro membros da seita: Jacob Rosner (que, com 20 anos, era o marido de Yante), Mayer Rosner, Aron Rosner e Nachman Helbrans. O caso encontra-se em julgamento nos tribunais dos EUA.
Lev Tahor (que, em hebraico, significa Coração Puro) é uma seita semi-nómada com aproximadamente 200 membros, fundada nos anos 1980 por Shlomo, um cidadão israelita que rejeitava o estado de Israel, afirmando que o Estado judeu apenas pode ser restaurado pela mão de Deus e não pelo homem. Nos anos 1990, Helbrans mudou-se para os Estados Unidos mas. após ser acusado do rapto de um rapaz de 13 anos, foi deportado de volta para Israel. Numa segunda tentativa de imigração, a seita foi para o Quebeque, no Canadá, de onde viria a fugir das autoridades, que acusava os membros da Lev Tahor de maus-tratos infantis e abuso sexual de menores.
Após várias tentativas de se estabelecer na América do Sul, o grupo permaneceu na Guatemala. Em 2017, Shlomo Helbrans morreu quando praticavam um ritual de imersão num rio mexicano, deixando o seu filho Nachman à frente da Lev Tahor.
A seita está sinalizada entre as autoridades há muitos anos e é inclusive considerada “demasiado extremista” entre outros judeus ortodoxos.
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