
Celebração na Sé de Braga: “O perfil do pastor deve implicaro do rebanho.” Foto cedida pelo DACS (Departamento Arquidiocesano das Comunicações Sociais)
D. Jorge Ortiga foi nomeado arcebispo de Braga em 5 de junho de 1999, e solicitou a sua substituição em 2019, ao completar 75 anos. Estando para breve a sua substituição (já correm vários nomes de candidatos), e tendo em conta a importância da diocese de Braga no panorama católico português, o 7MARGENS lançou um curto inquérito sobre o perfil que várias pessoas da diocese desejariam ver para o novo arcebispo, em termos de qualidades humanas, sociais e eclesiais.
Num primeiro texto da série, recordámos o que se passou em 1999, quando a nomeação de D. Jorge Ortiga pelo Papa João Paulo II foi antecedida por uma movimentação de leigos da arquidiocese, no sentido de dizer que perfil deveria ter a pessoa escolhida.
A seguir, fica o oitavo e último depoimento, de um pároco de uma paróquia urbana da diocese de Braga que pede o anonimato.
Há o pastor e há o rebanho. Então, o perfil do pastor deve implicar o do rebanho. Assim:
Sobre o rebanho, implica olhar o estado da arquidiocese de Braga. O juízo mais objectivo deverá ser considerado o dos vigários e responsáveis dos diversos serviços. Apontaria alguns elementos:
Situação da economia e dos encargos existentes, que podem condicionar a acção do pastor. Se esta parte, económico-fianceira, não estiver saudável e bem consolidada, poderá tornar-se um condicionalismo grave para o futuro da arquidiocese. Terá o novo arcebispo acesso prévio ao “estado” da diocese?
Relação com os poderes instituídos: isenção ou dependência? Liberdade ou subserviência?
Relação com o clero: reinando um certo desconforto generalizado, com casos de um viver de faz-de-conta com o arcebispo, a quem a obediência é só formal e para não “dar chatices” e cada um faz como quer, devido ao constante “nim” que dura há vinte anos…

Entrada do paço arquiepiscopal de Braga: quem será o próximo titular do cargo a franquear esta porta? Foto © Eduardo Jorge Madureira
Sobre o próximo pastor, atendendo a que a nossa arquidiocese se encontra muito “personalizada” em duas figuras de longo pastoreio (D. Eurico quase 22 anos como Arcebispo e D. Jorge já quase 21 anos, depois de mais de 11 como auxiliar), aponto:
Personalidade e Qualidades Humanas: Um bispo que esteja “maduro” na idade, não jovem (pelos 65/70 anos). Com experiência e conhecimento da realidade de uma diocese, o novo pastor pode aliar à esperança com que todos o acolherão, desejosos que estão de novidade e de abrir um novo ciclo, a experiência de caminhos já andados e que, para Braga, terão sempre o tom de novidade.
Depois de dois pontificados longos, precisamos de um “bispo de passagem” para melhor fechar um ciclo, socialmente olhado como muito positivo, mas que esconde reais e graves problemas. Um bispo com personalidade forte e corajoso (que sente que vem apenas para servir e “cortar a direito” porque não precise de “medir” as palavras e as atitudes para ser agradável e ter vida fácil). E o primeiro corte, talvez o mais difícil, é com o antecessor, certamente a viver por perto e que pode criar conflitos de afirmação, mesmo involuntários. Um homem do “sim, sim, não, não”, conforme o evangelho. Um homem que delegue responsabilidades, deixe campo aberto aos seus colaboradores e seja olhado como pessoa discreta. Um homem que pense e deixe o tempo amadurecer. Logo, sem pressas de tudo ver feito segundo o seu modelo pessoal.
Qualidades Eclesiais: Além de pastor, bom teólogo e homem de espiritualidade, deixe bem claro, nas palavras e nas obras, que é um servidor da Igreja Universal, fiel ao Santo Padre, certamente, mas que não se demita da sua missão de GOVERNAR. Nesta, ele tem de ser homem que cultiva a justiça e que toma decisões, ponderando-as, mas sem as adiar. Que conheça e assuma o Código de Direito Canónico, muitas vezes invocado apenas para conflitos graves e reduzido quase às causas de nulidade matrimonial. A nossa Igreja contemporânea está enferma de justiça e um governo de “agradar a gregos e a troianos” deixa sempre campo aberto para feridas e desaires escandalosos no futuro. Um bispo que acompanhe de facto os padres, sempre os seus mais directos colaboradores, e tenha em conta o conhecimento imediato que eles têm das situações na base.
Qualidades Sociais: Vivemos um tempo em que a dimensão profética da Igreja está um pouco esquecida. E diante de um mundo que nos impõe um estilo de vida anti-evangélico, vemos os bispos calados quando muitos membros do Povo de Deus esperam por eles na primeira linha da denúncia dos atropelos. O medo impera, aliado a uma imagem cuidada de “não fazer ondas”, porque se tem medo de “perder”. Há “alianças” com o poder ou os poderes que estão a revelar-se corrosivas para o futuro da Igreja. À imagem de Jesus, a Igreja não tem de cultivar uma imagem outra que não a de Jesus servo e pobre, sabendo que tal traz dissabores e, mesmo, martírio. O arcebispo de Braga, por natureza do cargo, terá sempre “imagem” na sociedade mediática do nosso tempo. Não deverá nunca precisar de a cultivar.
Até domingo próximo, o 7MARGENS publicará um trabalho sobre o processo de escolha dos bispos na Igreja Católica.
Outros depoimentos publicados nesta série: Alexandre Gonzaga (jornalista), Ana Maria Pinto (militante da LOC/Movº de Trabalhadores Cristãos), Luís António Santos (professor universitário), Deolinda Machado (professora e militante da LOC/MTC), grupo do Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças de Mire de Tibães, Miguel Bandeira (professor) e grupo de Braga referenciado ao Metanoia – Movimento Católico de Profissionais.
O 7MARGENS encerra aqui o conjunto de reflexões sobre a sucessão no arcebispado de Braga e as observações que isso provoca em vários cristãos, quer sobre a diocese quer sobre a questão mais geral do processo de escolha dos bispos e da (não) participação das comunidades locais nessa escolha. Às 25 pessoas que, individualmente ou em grupo, aceitaram o desafio ou, perante a iniciativa, resolveram também enviar-nos as suas reflexões, agradecemos o contributo, esperando que ele possa enriquecer o debate sobre os temas surgidos.










