Como falar de Deus depois de Auschwitz?

Memorial dos Judeus Mortos na Europa, em Berlim; foto Joaquim Nunes
27 de Janeiro, Dia Internacional da Memória das Vítimas do Holocausto. A 27 de janeiro de 1945, o exército russo libertava os cerca de 7.500 sobreviventes do campo de extermínio de Auschwitz. Auschwitz não foi o único, mas tornou-se o símbolo de todos os campos de concentração e extermínio. Auschwitz evoca as imagens de todas as câmaras de gás, de todas as deportações, de todas as fases desse genocídio levado a cabo pelo nazismo alemão contra o povo judeu. Só em Auschwitz, foram dizimados mais de um milhão de judeus.
Auschwitz não ocupa apenas os historiadores e os realizadores de cinema. Passou a ser também uma palavra-chave da teodiceia, de uma teologia que não cessa de debater-se com uma das interrogações mais impertinentes e fundamentais de todo o crente: se Deus existe, como bondade absoluta, e se é todo poderoso, porque é que o mal existe, se expande e domina, sem que Deus intervenha? Onde está Deus, perante o sofrimento da humanidade, sobretudo diante do sofrimento provocado aos inocentes? E, concretamente em toda a Shoah, onde estava Deus quando o povo da aliança era conduzido em carruagens de mercadorias para as câmaras de gás? Onde estava Deus, no tempo de Auschwitz?
Desde os anos 1950 – ou seja, poucos anos depois do final da guerra – a teologia cristã, sobretudo na Alemanha, confronta-se com estas questões, em intenso diálogo com a teologia judaica e com a filosofia. Fala-se mesmo de uma “teologia pós-Auschwitz”.
Elie Wiesel, um escritor judeu, ele mesmo sobrevivente de Auschwitz, descreve no seu livro A Noite (1956) uma passagem que acabou por ocupar um lugar central em todo este debate teológico. Os carrascos da SS do campo de concentração tinham acabado de executar na forca dois adultos e um jovem. O jovem enforcado resiste e demora uma meia hora a morrer. Os restantes prisioneiros são obrigados a assistir. “Onde está Deus? Onde é que Ele está?, pergunta alguém atrás de mim. E dentro de mim ouvi uma voz que me respondia: Onde é que Ele está? está ali, enforcado naquele laço!” (Elie Wiesel).
Se a teodiceia antes de Auschwitz argumentava no sentido de atribuir todas as culpas pelo mal à maldade humana e assim desculpar Deus, a partir de Auschwitz tudo mudou. Para quem quer continuar a falar de Deus, a pergunta é mesmo esta: onde é que Ele estava?
“Uma pergunta volta sempre de novo: onde é que Deus estava nessa altura? Porque é que não se fez ouvir?”, refletia o Papa Bento XVI na sua visita ao campo (2006). A primeira resposta da teologia pós-Auschwitz foi esta: Deus estava do lado das vítimas. Deus estava ali “crucificado” (Moltmann, 1972). Mas porquê as vítimas não sentiram a sua presença nem a sua consolação?…
Porquê Deus não intervém? Sem encontrar respostas para esta pergunta, que, no fundo, vem já do livro de Job, a teodiceia mudou de perspectiva com Johann Baptist Metz. Metz defende, em primeiro lugar, que é necessário que a teologia aceite este silêncio de Deus (“cristologia de Sábado santo”), sem tentar ilibá-lo, desculpá-lo ou compreender o seu silêncio. Mas, para Metz, tão importante como interrogar-se onde estava Deus é interrogar-se: onde estavam os crentes? Será que não viram? Será que não se deram conta? Auschwitz e toda a Shoah obriga o crente a uma nova espiritualidade, a uma nova mística: a “mística dos olhos abertos” e da atenção ao sofrimento alheio.
No Congresso internacional sobre a Shoah, em 1997, Metz dizia: “Auschwitz é para mim um choque, um choque que põe em causa todo o discurso teórico sobre Deus, como algo de vazio e de oco. Perguntei-me: existe um Deus assim, de costas voltadas para uma catástrofe como esta? E pode haver uma teologia, que mereça este nome, que continue a discursar sobre Deus e sobre a humanidade como se nada tivesse sido…? (…) A interrogação teológica depois de Auschwitz não é só : onde é que Deus estava em Auschwitz? É também: Onde estava o ser humano em Auschwitz?”
Auschwitz é uma experiência que devia despertar a humanidade, em geral, e os crentes em especial, para o sofrimento do Outro. E para isso, há que resistir à tentação de uma certa cultura da amnésia, do esquecer e relativizar. “Que se perpetue nos séculos a memória da abominável tragédia que aqui se consumou e seja motivo para que semelhantes erros nunca mais sucedam debaixo do céu…”, escrevia o Papa Francisco no livro de honra do campo de Auschwitz, aquando da sua visita em 2016. É necessário viver a fé num olhar atento ao sofrimento do Outro. E pode ser que nesse olhar se obtenha a resposta que Auschwitz nunca deixa de pôr: “Onde estava Deus naqueles dias?” E onde é que Ele está nos nossos dias?

Memorial dos Judeus Mortos na Europa, em Berlim; foto António Marujo
Joaquim Nunes é assistente pastoral da Igreja Católica e vive em Offenbach (Alemanha)
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Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
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Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
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Boas notícias
[Testemunho]
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Ultrapassando os receios e as dificuldades logísticas e financeiras, fomos preparando a missão e finalmente pudemos partir para o Brasil no dia 24 agosto, para continuar a servir e a pescar. Sim, em certo sentido, também somos “pescadores de homens” como o nosso patrono São Pedro, e fomos impelidos pela urgência do apelo de Jesus “vai e reconstrói a Minha Igreja”, dirigido a São Francisco de Assis e a todos nós, que somos a Igreja. [Testemunho do padre Tiago Fonseca]
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Que mapa nos traça a cultura contemporânea? Uma experiência pessoal inédita – uma visita à Bienal de Arte Contemporânea, de Veneza – permite estabelecer algumas rotas e propor curtas reflexões.
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Destinado a crentes e não crentes, a jovens familiarizados ou não com a Bíblia, um livro escrito numa linguagem acessível para simplificar o que é naturalmente complexo, mas sem perder nenhuma da beleza do original – é desta forma que a editora Quetzal apresenta a edição de A Bíblia Adaptada para Jovens, que será distribuída a partir desta quinta-feira e de que o 7MARGENS publica alguns excertos.
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"História da Luz: Arte e Visão"
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Dadas as raízes antropológicas comuns da arte e da religião, tudo indica que as artes terão acompanhado desde os seus primórdios as tendências devocionais dos povos, e nesse sentido, desde tempos imemoriais que a arte testemunha e regista os fenómenos luminosos como uma das principais metáforas da transcendência. [Texto de Sílvia Pinto].
Pessoas
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O pastor José da Silveira Salvador morreu em 24 de outubro de 2026, aos 85 anos. Ao longo de quase seis décadas de ministério, marcou profundamente a vida da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, que presidiu durante vários anos. Figura ativa do movimento ecuménico nacional e internacional, fez da solidariedade social, da defesa dos direitos humanos e do compromisso com os mais vulneráveis dimensões fundamentais da sua ação pastoral. [Texto de Joel Lourenço Pinto].
Sete Partidas
[Sete Partidas]
As cápsulas
No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].
Visto e Ouvido
Agenda
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Entre margens
[Entre Margens]
Que propósito último, enquanto Humanidade, devemos perseguir?
Sem prejuízo dos propósitos particulares que, em liberdade, cada ser humano tem direito a perseguir, julgo que há propósitos comuns que têm a ver, desde logo, com a preservação dessa mesma liberdade. Se há um ou mais propósitos comuns à espécie, eles têm a ver, precisamente, com aquilo que torna a vida do ser humano, não apenas possível, mas significativa e com sentido. [Texto de Rúben Azevedo].
[Entre Margens]
A revolta da beautiful Lisbon perante a crise da habitação
Conhecer um português emigrado é, para muitos, sinónimo de convite a quebrar o gelo com um elogio às praias e à comida, à vida noturna, às tascas e paisagens do Douro. Obrigada Megan, mas não, nunca fui ao resort de luxo do casamento da tua prima. Que giro, Joe, foste ao castelo? Ah não sabes, os nomes das coisas eram compridos, bom, pelo menos aprendeste que aqui é tudo a subir e a descer. [Texto de Maria do Carmo Osório].
[Entre Margens]
Humor sem limites
Surgem de forma recorrente polémicas quando alguma rábula humorística, ou com pretensões a tal, é tida como blasfema ou ofensiva para com os católicos. Não tenho por hábito envolver-me ou alimentar esse tipo de polémicas, sobretudo porque receio estar a contribuir para uma imerecida publicidade. [Texto de Pedro Vaz Patto].















