Tragédia no Brasil: lucro das mineradoras à custa do sacrifício humano e do meio ambiente

“É muito triste constatar que o ‘desastre de Mariana’ tenha ensinado tão pouco.” Foto © Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
Não cuidar da Casa Comum “é uma ofensa ao Criador, um atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra a vida” diz a Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM) em comunicado, lamentando a rotura da barragem da mina de Córrego do Feijão, em Brumadinho, no estado de Minas Gerais.
No texto reproduzido pelo Vatican News, o cardeal Cláudio Hummes, presidente da REPAM, alerta para as consequências da exploração mineira e reforça a ideia de que esta “carece de um marco regulatório que tire do centro o lucro exorbitante das mineradoras ao preço do sacrifício humano e da depredação do meio ambiente com a consequente destruição da biodiversidade.”
Como já tinha sido anteriormente alertado na carta pastoral Discípulos Missionários Guardiões da Casa Comum, publicada pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano, que reúne todos os bispos da América Latina), a carta da Rede denuncia a tendência de empresas mineiras usurparem terrenos de populações tradicionais da Amazónia, limitando o seu acesso a meios de subsistência e destruindo as suas culturas.
A barragem da mina de Córrego do Feijão rebentou na sexta-feira, 25 de janeiro, libertando um mar de lama que destruiu as casas e vegetação da região. Até esta segunda-feira, 28, há confirmação de 60 mortos, 292 desaparecidos e 135 desalojados.
A mina de Córrego do Feijão foi aberta em 1956 pela Companhia de Mineração Ferro e Carvão, que depois passou a gestão para a empresa Feterco. Desde 2003, estava nas mãos da empresa brasileira Vale. O complexo mineiro é responsável por escoar ferro para os mercados interno e de exportação. Segundo dados da empresa, a Mina Córrego do Feijão empregava 613 pessoas.
Em dezembro passado, a empresa terá obtido licenciamento ambiental para ampliar a mina e reaproveitar a barragem lá existente, que estava inativa. Segundo Bruno Milanez, estudioso da economia da mineração entrevistado pela Folha de S.Paulo, este licenciamento foi obtido “demasiado rápido” devido a uma lei aprovada pelo secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais em dezembro de 2017, que alterou os critérios de risco de algumas barragens.
Na entrevista, Milanez aproveita para relacionar o desastre com outro que ocorreu em 2015 na barragem do Fundão em Mariana, ressalvando que era uma tragédia que já estava anunciada: “Em 2015, a gente não discutia se teria outros rompimentos, mas quando aconteceriam.”
O especialista destaca ainda que, para a situação não se voltar a repetir, seria necessário “estabelecer distâncias mínimas, como 10 km, entre barragens e comunidades” bem como limitar ou “proibir barragens construídas com a técnica à montante” – o tipo mais comum, mais barato e menos seguro, usado em Mariana e em Brumadinho.
Denunciando “um crime socio-ambiental”, a rede Íglesias Y Míneria (Igrejas e Mineração) pede justiça para as famílias das vítimas salientando que “desastres causados por comportamento irresponsável de empresas aliadas ao poder público não podem ser chamados de ‘acidentes ambientais’.” A propósito da tragédia anterior, também a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lamenta: “É muito triste constatar que o ‘desastre de Mariana’ tenha ensinado tão pouco.”
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