“Isso é lá entre eles…”
É assim que a maioria silenciosa da população europeia sempre reage às notícias vindas de Roma. Aliás, as agências noticiosas já ganharam o “calo” (moldaram-se ao auditório) de apenas difundir novidades que dêem brado, ironizem ou escandalizem. Os textos de fundo com conteúdo e assinatura papal (encíclicas ou declarações) deixaram há muitas décadas (praticamente desde os anos 70; praticamente desde a carta encíclica Humanæ Vitæ, de 1968, sobre a regulação da natalidade) de despertar qualquer interesse por parte da sociedade europeia e norte-americana. Ou seja, o que preocupa a Cúria tem pouco a ver com as grandes questões do dia-a-dia das pessoas. Mesmo quando Bento XVI (Ratzinger) resignou, os especialistas em “bisbilhotice vaticana” (comummente designados por “vaticanistas”) não foram capazes de prever que o armário da Igreja Católica (que eles já conheciam muito bem…) pudesse explodir de uma forma definitiva, ou seja, com consequências irreversíveis para a Igreja Católica. A reacção do povo entrevistado era sempre a mesma – “Isso é lá entre eles…” – e os próprios bispos e cardeais nunca acreditaram que os escândalos pudessem saltar para fora das cordas do costumeiro ringue de boxe entre facções de purpurados.
Dias depois do encontro em Roma – oficial e tristemente destinado a abordar APENAS a questão dos “menores abusados” –, creio que ainda é isso o que a alta hierarquia (bispos e cardeais) ainda pensa: “Isto não passa de um ajuste de contas entre lobos”, “isto é lá com eles”. Outros murmurarão, tendo Francisco em mente: “Meteu-se nelas, agora que se salve!”
Só que a “imundice [que] existe, e precisamente também entre os padres» (Bento XVI, Luz do Mundo, p. 43) já não pode ser encarada apenas como um pecado “entre os padres”, como uma arma de arremesso dos “neo-con” para fragilizar o Papa Francisco, ou seja, já não pode ser vista como uma guerra entre lobos (Francisco entre os lobos, de Marco Politi), uma coisa “lá entre eles”, mas o último sintoma de um cancro que corrói a hierarquia da Igreja Católica desde há mais de mil anos: a avareza; a ambição pelo poder e o exercício do poder de forma ditatorial; a sobranceria com que se ocupa o espaço público (por palavras e actos); a desfaçatez com que ainda se reivindicam situações de privilégio (escolas católicas subsidiadas pelo Estado); o culto da personalidade de quem se julga representante de Deus na terra, etc.
A dimensão da ruína moral que vimos nas televisões nos últimos dias é tal que de nada adiantarão apenas “procedimentos administrativos padronizados, ordenados e regulamentados” (…) geridos de modo que “as pessoas possam confiar no sistema, que se sintam seguras e tratadas adequadamente, que sejam ouvidas e que sejam aceites suas críticas legítimas.” (cardeal Reinhard Marx, in Vatican News, 23/02/2019)
Já não chegam “medidas a adoptar”– cito palavras do Papa Francisco, no discurso de encerramento do encontro no Vaticano, dia 24 de Fevereiro – por cada chefe máximo da Igreja diocesana no seu local de senhorio… simplesmente porque já não há território de influência algum! O modelo de cristandade (que ainda esteve presente em inúmeras declarações oficiais neste encontro em Roma e que justifica a presença de APENAS presidentes das Conferências Episcopais de cada país) morreu há mais de um século e a Igreja (Papa Francisco incluído) ainda não acordou para essa realidade. Já não basta que se voltem, mais uma vez, para os leigos como “salvadores da honra do convento” (como pensa o presidente da Conferência Episcopal dos EUA, Daniel Di Nardo) ou que se deseje (desejo delirante…) “uma Igreja grande e pura” (cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena e presidente da Conferência Episcopal Austríaca)!!!
Agora, a guerra já não é apenas entre lobos-machos que procuram defender as suas retaguardas na Cúria. A fome de imundice na Igreja Católica já não visa apenas o dinheiro e o prestígio, mas atinge aberta e publicamente o rebanho, a inocência das frágeis ovelhas: é o rebanho no seu todo que é alvo do inacreditável: da pistola do sexo disparado por homens (eclesiásticos), mas também por mulheres (freiras)!
Há muito que deixou de haver rebanho: “dividir para dominar” foi a estratégia da hierarquia desde tempos remotos (séc. IV-V). “Como se Deus quisesse dois tipos diferentes de baptismo” (ironia de frei Bento Domingues), à época, criou-se uma instituição bipolar constituída por dois tipos de fiéis: (1) os que são tudo, sabem tudo, podem tudo e fazem tudo; e (2) os que não são nada, não sabem nada, não têm poder que se compare e devem apenas obedecer e realizar tarefas menores: agendar casamentos e baptizados, enfeitar altares e ter o “deve e haver” em ordem.
É com base nesta tão esquizofrénica e anti-evangélica, quanto errada teologia (consolidada pela dupla João Paulo II-Ratzinger) de que “nada podemos fazer”; “foi o Senhor [Jesus] que assim o quis”; “Não podemos fazer o que queremos. Há uma vontade do Senhor em relação a nós à qual nos mantemos fiéis” (cf. Bento XVI, Luz do Mundo, ed. Lucerna, p. 146-147) – e que aparentemente o Papa Francisco não põe em causa –, que podemos concluir que os hierarcas católicos ainda não descobriram a palavra-chave de Jesus: uma comunidade, essencialmente fraterna, de irmãos iguais em tudo excepto nas tarefas.
A sinodalidade e um novo Código de Direito Canónico: solução para libertar Jesus e os cristãos da Igreja dos lobos
Quando a hierarquia (bispos e cardeais) – que sempre as encobriram – se revela incapaz de fazer a revolução de Jesus em matérias gravíssimas como actos reiterados de violência sexual sobre menores e sobre adultos, é toda a instituição que se sente atingida (ferida de morte) e, portanto, são todos os fiéis (sobretudo, os leigos) que exigem que se discuta o tema em público na sua paróquia e no seu movimento. Num momento de tão absurda gravidade, IMPÕEM-SE CONSEQUÊNCIAS ECLESIOLÓGICAS E TEOLÓGICAS: impõe-se uma rutura definitiva com o passado misógino e machista da igreja hierárquica. A associação nacional de freiras dos EUA colocou o dedo na ferida: enquanto esta Igreja for dirigida apenas por homens, este tipo de problemas nunca serão reduzidos à sua ínfima escala (cito de cor).
A Igreja Católica (=hierarquia) é, no geral, uma instituição esquizofrénica, machista, sexista, prepotente, imatura e misógina; em suma, é uma instituição doentia, da qual nos despedimos pelos 12/15 anos de idade para só lá regressar (alguns) pelas exéquias. Enquanto o Papa não propuser a redacção de um novo Código de Conduta inspirado no Evangelho (como fez Francisco de Assis), enquanto o Papa continuar a tornear a questão das questões que é a mensagem contida no testemunho vital de Jesus – “procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais se vos dará por acréscimo” (Mateus 6, 33)– a Igreja continuará na mesma (muito gravemente doente e perigosa) e também «Jesus continuará encerrado dentro da Igreja a bater à porta porque deseja sair» (palavras do arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, dirigidas aos cardeais poucos dias antes de ser eleito Papa…).
ISSO É LÁ ENTRE ELES? De modo algum…
Porto, 24-02-2019
Paulo Bateira é médico e é leigo católico da diocese do Porto
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