As praias do Minho são, a vários títulos, lugares sagrados. Nós, os “aborígenes”, os “autóctones” somos os únicos a entrar naquelas águas abaixo dos 16 graus, como se nada fosse, apenas fazendo “caras de parvos”, que é nada mais do que descontrair todos os músculos e entrar mar adentro de encontro às vagas. É um pequeno truque dos minhotos que se prezam, esse de fazerem “caras de parvos” quando entram na água, e que não conseguem entender as frescuras e os gritos de quem não aprendeu a nadar no magnífico atlântico norte, de águas frias, ondas a sério e nortada valente, de fazer a areia fina cortar a pele mais rija.
As praias do Minho são também aquelas para onde se vai encasacado, porque nunca se sabe. O para-vento, essa invenção feita com certeza por gente do género da gente do Minho, vai disfarçando a nortada – mas o pior é arrancá-lo à saída, porque a areia enterrou-o a níveis inopinados.
E ainda, quem vai à praia à tarde? Ninguém que se preze se apresenta na praia (ou fica na praia) para além da uma da tarde, essa hora que já tolerou outra hora de rajadas intensas, na qual os espíritos já revelaram a resiliência devida. Uma da tarde está muito bem: hora do almoço.

Praia do Rodanho, Viana do Castelo, 2 de agosto de 2025. Foto © Dina Matos Ferreira.
Ir à tarde para as praias do Minho é não perceber nada de nortadas e também de tradição. Um minhoto da costa atlântica não sabe o que é não almoçar. Ou comer “qualquer coisa”. Comer “qualquer coisa” é uma expressão que arrepia os minhotos mais puros, porque “qualquer coisa” significa que não foi pensado, não foi elaborado, não foi sagradamente cuidado.
Voltando às praias, as praias do Minho trazem a memória dessas infâncias cheias de aventuras só pela circunstância de se estar nas praias do Minho: o gregarismo obrigatório, porque é impossível estar parado a levar com o vento e então brinca-se, inventa-se, faz-se cara de parvo para se ir à água, furam-se as ondas tenebrosas e fica-se com dor de nuca de tão fria que é a água.
A saga de tirar a areia do corpo antes de regressar a casa – mas afinal por que se veio?, a nevoeirada crónica, a odisseia de subir as dunas à volta, carregados de toalhas e para-ventos e guarda-sóis (para que se trouxeram?), os nossos, os dos primos, e mais os baldes e as traquitanas dos mais novos.
Passar no pinhal, esse cheiro intenso a lembrar os poucos dias de calor em que a praia era demasiada e nos refugiávamos à sombra dos pinheiros altos, deitados nas toalhas em cima da caruma, dormitando, jogando às cartas ou às palavras.
O lugar sagrado das praias do Minho mostra-nos de forma tão clara o quanto fomos amados, o quanto recebemos, o chão todo que existiu na imensidão daquele mar. Esse chão de ondas tantas vezes turbulentas e traiçoeiras foi só um dos primeiros sinais impressos de Deus na nossa vida, tão cheia e tão entregue, tão totalmente confiante naqueles inúmeros riscos, que só seria possível nessa Presença que tudo sustenta.
Voltar ao lugar sagrado significa misteriosamente nunca o ter largado, numa simbiose e num reconhecimento intuitivo e certo, porque o mar, sabemos, é o mesmo. E nós também.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.









