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Artigos de Ruy Ventura
A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Perante este vendaval “purificador” que deseja derrubar estátuas, obras de arte, filmes, livros, mas sobretudo pessoas, porque em determinado momento do seu passado se revelaram menos “puros”, cometeram erros ou foram apenas homens do seu tempo, tenho-me lembrado muito da narrativa do encontro de Cristo com a mulher adúltera, que tantos queriam apedrejar.

Fr. Agostinho da Cruz, professor da liberdade (e o seu último poema, quase “inédito”)

Fr. Agostinho da Cruz, professor da liberdade (e o seu último poema, quase “inédito”)

Da leitura dos poemas de Frei Agostinho da Cruz, nascido no dia 3 de Maio de 1540 (faz 480 anos), na vila de Ponte da Barca, nunca saímos de mãos vazias. Ao lê-lo, esquecemos que a sua linguagem tem mais de quatrocentos anos. Trata-se de um poeta cuja actualidade se torna patente a cada hora de convívio. Não se limitou a revestir de beleza artificial os lugares comuns do seu tempo. Confrontamo-nos com um ser que se expôs em cada linha, na sua biografia tumultuosa, cheia de “guerras” e de desilusões.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Morrer da cura

Luís não chegou ainda aos quarenta. É solteiro e vive só. Habitando com os pais a mesma cidade, decidiu decretar a sua independência comprando há uns anos um exíguo apartamento. Está agora confinado em casa. Não pode visitá-los, pois tem medo de contaminá-los ou de ser contaminado por eles. Afinal, a mãe ainda trabalha num centro de saúde. Corporalmente, Luís está bem, diz. Mas a “alma” já não está a cem por cento.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Apesar de tudo, a liberdade

Sinto a doença à minha volta e à volta dos meus. E, nesta reclusão involuntária, lembro-me de Trujillo e de suas altas torres. Não de todas, mas de uma que, na sua delgada altivez, se assumiu como mirante.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

A grandeza do ínfimo

Há obras de arte que nos incomodam e nos comovem. Creio aliás que uma pintura, uma escultura, um poema, um romance, uma partitura ou outro meio expressivo encontrado pela espécie humana que não incomode e comova nunca passará de um artefacto, por maior que seja a perícia técnica do executante. É o caso de “Uma Vida Escondida”.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Elogio de um submarino

António Fournier (1966 – 2019), nascido numa ilha, foi um desses instrumentos pontifícios que ainda nos fazem crer na humanidade, com esperança contra toda a esperança. Conheci-o, quase por acaso, numa rua da Baixa de Lisboa e logo me apercebi disso. Professor da Universidade de Turim, aproveitou essa condição de emigrante para se transformar num veículo de comunicação entre a cultura portuguesa e a cultura italiana, entre as suas literaturas.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Natal sem tempo

Sempre que quero explicar aos meus alunos o que é o Natal, socorro-me da língua inglesa. Não sendo eu professor de tal idioma, os miúdos estranham, mas depois lá vão entendendo as veredas tortuosas por onde me proponho levá-los. Normalmente, ao fim de alguns minutos, abrem os olhos ou a boca e começam a entender.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Chamas, fuligem, humanidade

Fito as imagens das igrejas queimadas no Chile e recordo. Trago de novo ao coração lembranças dolorosas: a iconoclastia que irrompeu em tantos momentos do devir humano; o saque de igrejas em demasiadas épocas da História, levado a cabo até por “paladinos” da cristandade que de cristãos pouco tinham…

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Perante este vendaval “purificador” que deseja derrubar estátuas, obras de arte, filmes, livros, mas sobretudo pessoas, porque em determinado momento do seu passado se revelaram menos “puros”, cometeram erros ou foram apenas homens do seu tempo, tenho-me lembrado muito da narrativa do encontro de Cristo com a mulher adúltera, que tantos queriam apedrejar.

Fr. Agostinho da Cruz, professor da liberdade (e o seu último poema, quase “inédito”)

Fr. Agostinho da Cruz, professor da liberdade (e o seu último poema, quase “inédito”)

Da leitura dos poemas de Frei Agostinho da Cruz, nascido no dia 3 de Maio de 1540 (faz 480 anos), na vila de Ponte da Barca, nunca saímos de mãos vazias. Ao lê-lo, esquecemos que a sua linguagem tem mais de quatrocentos anos. Trata-se de um poeta cuja actualidade se torna patente a cada hora de convívio. Não se limitou a revestir de beleza artificial os lugares comuns do seu tempo. Confrontamo-nos com um ser que se expôs em cada linha, na sua biografia tumultuosa, cheia de “guerras” e de desilusões.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Morrer da cura

Luís não chegou ainda aos quarenta. É solteiro e vive só. Habitando com os pais a mesma cidade, decidiu decretar a sua independência comprando há uns anos um exíguo apartamento. Está agora confinado em casa. Não pode visitá-los, pois tem medo de contaminá-los ou de ser contaminado por eles. Afinal, a mãe ainda trabalha num centro de saúde. Corporalmente, Luís está bem, diz. Mas a “alma” já não está a cem por cento.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Apesar de tudo, a liberdade

Sinto a doença à minha volta e à volta dos meus. E, nesta reclusão involuntária, lembro-me de Trujillo e de suas altas torres. Não de todas, mas de uma que, na sua delgada altivez, se assumiu como mirante.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

A grandeza do ínfimo

Há obras de arte que nos incomodam e nos comovem. Creio aliás que uma pintura, uma escultura, um poema, um romance, uma partitura ou outro meio expressivo encontrado pela espécie humana que não incomode e comova nunca passará de um artefacto, por maior que seja a perícia técnica do executante. É o caso de “Uma Vida Escondida”.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Elogio de um submarino

António Fournier (1966 – 2019), nascido numa ilha, foi um desses instrumentos pontifícios que ainda nos fazem crer na humanidade, com esperança contra toda a esperança. Conheci-o, quase por acaso, numa rua da Baixa de Lisboa e logo me apercebi disso. Professor da Universidade de Turim, aproveitou essa condição de emigrante para se transformar num veículo de comunicação entre a cultura portuguesa e a cultura italiana, entre as suas literaturas.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Natal sem tempo

Sempre que quero explicar aos meus alunos o que é o Natal, socorro-me da língua inglesa. Não sendo eu professor de tal idioma, os miúdos estranham, mas depois lá vão entendendo as veredas tortuosas por onde me proponho levá-los. Normalmente, ao fim de alguns minutos, abrem os olhos ou a boca e começam a entender.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Chamas, fuligem, humanidade

Fito as imagens das igrejas queimadas no Chile e recordo. Trago de novo ao coração lembranças dolorosas: a iconoclastia que irrompeu em tantos momentos do devir humano; o saque de igrejas em demasiadas épocas da História, levado a cabo até por “paladinos” da cristandade que de cristãos pouco tinham…

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