
“Grita, literalmente, quem precisa de sobrepor o tom da voz ao oponente por falta de argumentos e compreensão.” Imagem de OpenClipart Vectors / Pixabay
Eu até nem queria voltar a falar de ratazanas aqui nestas crónicas; mas, vocês já se aperceberam da fraqueza dos que gritam? Tenho-lhes demasiada pena para conseguir ignorar. O grito, na literalidade, não vale absolutamente nada. O grito é daquelas coisas que só engrandece na metáfora. Grito como explosão de afinidade, empatia, criatividade, arte, abraço. Esse é o grito que vale a pena. O grito metafórico é o oposto do literal.
Grita, literalmente, quem precisa de sobrepor o tom da voz ao oponente por falta de argumentos e compreensão. Grita quem não tem com quem falar, quem já perdeu todos os ouvidos amigos por havê-los afastado com a estridência dos gritos. Grita quem, por mero complexo de inferioridade, busca uma muleta escadote para subir (porque acha que subir é crescer, pobre cegueira) e se empoleirar na fisicalidade do ser – como se ela se equiparasse à grandeza de um espírito. Coitados do corpo e da voz quando comparados com o espírito. Quem grita, só grita porque lhe falta a sobriedade de um espelho. Porque não se dá conta da sua monstruosidade. Quem grita são os monstros, sempre com a baba nos cantos da boca e os olhos raiados a sangue raivoso na hora do grito. Quem precisa de gritar para ser ouvido, está perdido. Infinitamente perdido e sozinho. Tenho pena dos que gritam. Queriam estar em lugares que nunca alcançaram, gritam para tentar lá chegar mas a verdade é que só se afastam. Coitados dos que gritam. Gritam das profundezas da solidão para que alguém os ouça, mas nunca se aperceberam que no lugar da comunhão é o gesto empático que aproxima; o grito, jamais.. Coitados dos que gritam, pobres ratazanas de coração sujo. Quanta poeira na causa da miopia. Vocês já imaginaram o que é viver nesse lugar? O quão doloroso deve ser habitar esse lugar de frustração? Já viram algum feliz gritar? Já viram algum empático gritar? Já viram algum educado gritar? Já viram algum “gente boa” gritar? Eu nunca. Os únicos que vejo gritar são as ratazanas. Tenho-lhes pena. Não conhecem a decência. Tenho-lhes pena.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024.










