Seis anos, 26 assassinatos: México, o país mais perigoso para os padres católicos
O México “continua a ser o país mais perigoso para exercer o sacerdócio apesar de a sua população ser maioritariamente católica”. O alerta é do padre Omar Sotelo, diretor do Centro Católico Multimedial (CCM), na Cidade do México, capital federal do país. Sotelo lamenta ainda que o tempo da presidência de Enrique Peña Nieto tenha sido, até à data, o mais mortífero para o clero mexicano, já que, nesse período de tempo (2012-2018), morreram até agora 26 padres.
Em entrevista ao jornal mexicano Proceso, o padre Sotelo explica: “O aumento no número de assassinatos coincide precisamente com o início da guerra contra o narcotráfico, quecomeçou com Calderón (anterior Presidente) e continuou com Peña Nieto. Esta foi uma guerra para a qual as instituições não estavam preparadas, o que as levou a serem infiltradas pelo crime organizado.”
Como termo de comparação, no ano de 2017, em toda a América Latina, foram assassinados 14 padres católicos. Destes, metade foram-no no México. O maior problema, segundo Omar Sotelo, é o facto de nenhum dos crimes parecer ter resolução: “Há investigações a decorrer, suspeitos, gente detida que fica livre e dados sem certezas da burocracia judicial.” O padre mexicano denuncia ainda a brutalidade destes crimes dizendo que os sacerdotes são sequestrados, torturados e só depois mortos.
Dá como exemplo o assassinato do padre José Ascencio Acuña, em setembro de 2014, na comunidade de São Miguel Totolapan. Suspeita-se que tenha sido levado a cabo por membros de crime organizado em conluio com o governo municipal: “Neste caso, havia ordens de detenção contra o deputado do PRI, Saúl Beltran, mas elas não só não foram levadas a cabo como o caso foi praticamente arquivado.”
O CCM, que acaba de apresentar um relatório relativo à violência contra o clero neste país, lamenta que esta seja a situação vivida e Omar Sotelo diz porque é que não há mudanças significativas: “Como o padre é uma espécie de estabilizador social, na sua paróquia não só provê saúde espiritual, mas também educacional. O crime organizado sabe bem que matar um padre causa instabilidade social na comunidade, semeando assim o medo, para poder agir à vontade.” Sotelo acrescenta que é também esta a razão pela qual os jornalistas do país também são assassinados em número elevado.
No relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, de 2018, publicado pela Ajuda à Igreja que Sofre, o México não é considerado um país de risco em termos de liberdade religiosa. No entanto, a tendência crescente de violência contra o clero, num país que é 95,9% católico, é referida com preocupação: “À medida que cresce o crime organizado, as possibilidades de pôr fim à violência contra sacerdotes diminuem. Os membros do clero estão numa situação particularmente perigosa, pois são eles quem continuamente denuncia ataques ou abusos por parte do crime organizado, do Governo ou de outros grupos que os atacam ou que atacam membros das suas comunidades.”
O relatório destaca ainda a grande preocupação com a situação, manifestada pelos bispos católicos mexicanos, que com frequência recorrem à imprensa para pedir ajuda. No entanto, o mesmo documento denuncia também que “as autoridades, que por vezes ouvem os apelos, perdem interesse assim que a atenção da comunicação social diminui.”
Breves
Boas notícias
Declaração conjunta inédita
Católicos e evangélicos unem-se contra políticas migratórias que “desagregam famílias” nos EUA
É com palavras duras sobre as consequências das atuais políticas de imigração nos Estados Unidos que responsáveis católicos e evangélicos se unem, pela primeira vez, numa declaração conjunta sobre esta matéria, pedindo uma reforma que combine fronteiras seguras com medidas “específicas, proporcionais e humanas”.
Outras margens
Cultura e artes
Jornadas dos Bens Culturais
“Uma pintura de Van Gogh pode ser mais religiosa do que a representação do martírio de São Sebastião”
“Uma pintura de Van Gogh pode ser, no seu efeito espiritual, mais religiosa do que a representação do martírio de São Sebastião”, diz uma das artistas que nesta sexta-feira participa nas Jornadas da Pastoral dos Bens Culturais, da Igreja Católica. Estará em debate “a importância dos bens culturais na acção de evangelizar”, dimensão que “tem sido claramente desvalorizada”.
Ensaios, ficção e antologias
Bíblia para jovens, diálogo islamo-judaico, o herege, o monge e os ensaios da contista – novidades literárias até ao Natal
A Bíblia de Lourenço adaptada a jovens, os 1400 anos das relações entre judeus e muçulmanos, um ensaio sobre o Cântico das Criaturas, não-ficção de Flannery O’Connor, uma antologia do “herege” Savonarola ou a autobiografia de Thomas Merton. Alguns dos títulos que, no âmbito religioso, da espiritualidade ou das questões sociais, várias editoras publicam até ao Natal
Ano Jubilar São João da Cruz (9)
João da Cruz: poesia e mística
Até Dezembro decorre o ano jubilar de São João da Cruz, celebrando o terceiro centenário da canonização e os 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja Católica. O jubileu tem como lema “A esperança alcança tanto quanto espera” e propõe itinerários de renovação espiritual e mística. A propósito do ano jubilar, o 7MARGENS propõe mensalmente, aos dias 13/14 (assinalando o dia da sua morte, a 14 de Dezembro de 1591), um conjunto de textos do padre carmelita e teólogo Armindo Vaz.
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
Pessoas
Edição
Um psicólogo no campo de concentração – um livro sobre Viktor Frankl
Uma leitura biográfica, intelectual e testemunhal de uma das figuras mais marcantes da psicologia e da reflexão antropológica do século XX – é desse modo que se apresenta o livro “Logoterapia e Análise Existencial – Vida, testemunho e obra de Viktor E. Frankl”, da autoria de Nuno Almeida, bispo de Bragança-Miranda.
Sete Partidas
[Sete Partidas]
As cápsulas
No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].
Visto e Ouvido
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Entre margens
[Entre Margens]
Se Deus nunca ordenou, quem ordenou? – Testemunhas de Jeová, sangue e consciência
Durante oito décadas, aceitar os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma ou plaquetas foi apresentado às Testemunhas de Jeová como violação da lei de Deus. Desde 18 de setembro de 2026, passou a ser uma “questão de consciência”. O texto bíblico é o mesmo. Mudou a leitura dos homens que reclamam a autoridade de o interpretar.
[Entre Margens]
Uma característica sinodal é escutar os outros
“Não é possível encontrar nos evangelhos “ipsissima verba”, os ditos de Jesus, nem narrativas absolutamente fidedignas dos factos protagonizados por Jesus, o que não nos impede de aceder ao fundamental do que Jesus pretendia revelar-nos. Nem tudo nos evangelhos é, objetivamente, verosímil e plausível, porque a produção dos textos era condicionada pelos constrangimentos culturais das comunidades. Mas tudo neles tem um significado. É o significado que deve procurar-se.”
[Entre Margens]
Joana Lopes: 88 cravos à sua memória
No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].
















