Sem qualquer intuito antológico, o 7MARGENS procurará chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Já passaram por aqui textos sobre a guerra da Ucrânia ou sobre o Afeganistão, bem como o apelo de paz feito por muitas mães israelitas e palestinianas, uma recensão de um álbum pela paz no meio da guerra da palestiniana Haya Zaatry, que parecia antever os dias de hoje, e dois discos de Peter Gabriel. A guineense Fattú Djakité e a história de uma escrava basca que chegou a rainha na corte do Al-Andaluz completam o leque dos discos já aqui trazidos.
Por regra, esta rubrica é publicada pelo menos no dia 15 de cada mês. Os nossos leitores podem também sugerir músicas ou partes de obras musicais que possam traduzir a importância da paz, nomeadamente em regiões em conflito, podendo fazer acompanhar a sugestão de algum pequeno texto.

O título deste disco é um pequeno manifesto do real: “O céu tem a mesma cor em todo o lado”. O iraniano Kayhan Kalhor é o mais importante executante de kamancheh, violino persa de espiga de quatro cordas e arco curto, que se toca de joelhos, como montando “um cavalo selvagem”, na expressão do músico, que já tocou com o Kronos Quartet ou o Rembrandt Trio, entre muitos outros.
Toumani Diabaté, que nascera em 1965 e morreu em Julho último, em Bamaco (Mali), era o mais exímio tocador de corá da África Ocidental, uma harpa-alaúde de 21 cordas, uma cabaça, pele de vaca e linha de pesca. Vencedor de três Grammys, acompanhou Ali Farka Touré, Björk ou a Sinfónica de Londres.
Nascido de um improviso na Alemanha em 2016 e gravado só em 2023, o disco é (mais) uma profunda experiência meditativa e espiritual na afirmação da possibilidade do diálogo mesmo com línguas, instrumentos ou culturas diferentes. É a expressão da universalidade e uma espantosa afirmação de paz para dois países que já foram sede de impérios de grande densidade cultural e que estão hoje sujeitos a uma ditadura teocrática (Irão) e a atentados terroristas frequentes (Mali). A imensidão do deserto ou o “transe” espiritual que esta música convoca expressam a fragilidade humana e a simultânea possibilidade de superação.
Título: The Sky is the Same Colour Everywhere
Autores e intérpretes: Kayhan Kalhor e Toumani Diabaté
Disponível nas plataformas digitais
(Este texto foi inicialmente publicado na edição de Dezembro da revista Além-Mar, dos Missionários Combonianos)










