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autores - Maria do Sameiro Pedro

Uma Carta do Papa (3): A Literatura é para todos? Pois claro!

Pessoa lendo. Livros. Leitura

“É preciso ter presente que cada leitor, como cada autor, é único e irrepetível; no entanto, a leitura não é um ato solitário. Insere-se num ato comunicativo, é criação em diálogo, do leitor consigo mesmo, com o autor, com o seu contexto.”  Foto © Jilbert Ebrahimi / Unsplash

 

Como vimos nos textos anteriores desta série (“Literatura para fins beatos? Nem pensar!” e “A Literatura e a leitura são polifónicas? Assim é!”), o leitor competente é um leitor interveniente, dotado de capacidade crítica; até porque compreender o que lê é também integrar o que cada nova leitura lhe traz na experiência de vida e no conhecimento do seu mundo. É preciso ter presente que cada leitor, como cada autor, é único e irrepetível; no entanto, a leitura não é um ato solitário. Insere-se num ato comunicativo, é criação em diálogo, do leitor consigo mesmo, com o autor, com o seu contexto. Por isso mesmo, o Papa Francisco lembra-nos que “Graças ao discernimento evangélico da cultura, é possível reconhecer a presença do Espírito na variegada realidade humana, ou seja, é possível captar a semente da presença do Espírito já plantada nos acontecimentos, sensibilidades, desejos, tensões profundas dos corações e dos contextos sociais, culturais e espirituais” (n.º 12). Portanto, nada do que resulta da criatividade humana, nomeadamente no domínio das Humanidades, fica fora da possibilidade do “discernimento evangélico da cultura”. No entanto, possibilita sempre discernimento, mesmo quando não evangélico: “De uma forma ou de outra, a literatura tem a ver com o que cada um de nós deseja da vida, uma vez que entra numa relação íntima com a nossa existência concreta, com as suas tensões essenciais, com os seus desejos e os seus significados” (n.º 6). A literatura é, pois, tal como a Igreja, para “todos, todos, todos” (cf. Discurso do Santo Padre na cerimónia de acolhimento da Jornada Mundial da Juventude de 2023).

Adicionalmente, nesta sua Carta (cf. em particular n.º 16 e n.º 17), o Papa Francisco evoca aquilo que a ciência tem descoberto sobre os benefícios decorrentes do desenvolvimento de hábitos de leitura. Aliás, um tal conhecimento já existe há tempo suficiente como para ter tido consequências nos documentos orientadores dos diversos sistemas educativos, nomeadamente o português. Desde há anos, não só no ensino básico como no secundário está definido um cânone literário, mais restritivo ao nível dos currículos, mais amplo nas leituras sugeridas pelo Plano Nacional de Leitura, como desde a educação pré-escolar se prevê a “construção de um projeto pessoal para ler e para escrever” (cf. Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, pág. 71), bem como a relevância desde os primeiros meses de vida da “comunicação como componente essencial para a humanização” (Orientações Pedagógicas para Creche, pág. 71), nomeadamente a comunicação verbal. No sistema educativo português, espera-se, pois, que no final da escolaridade obrigatória o estudante tenha um conjunto alargado de valores, atitudes e competências, nomeadamente ao nível de “linguagens e textos” e de “sensibilidade estética e artística” (cf. Perfil dos Alunos à saída da Escolaridade Obrigatória); em termos gerais, este perfil deseja alunos, ou melhor, cidadãos, que “mobilizam valores e competências que lhes permitem intervir na vida e na história dos indivíduos e das sociedades, tomar decisões livres e fundamentadas sobre questões naturais, sociais e éticas, e dispor de uma capacidade de participação cívica, ativa, consciente e responsável.” (pág. 10).

Mas, o que tem isto que ver com a Carta do Papa Francisco? Em meu entender, tudo. Como acabei de enunciar, a República Portuguesa, com um sistema educativo laico, prevê a inclusão de todos, com vista à sua formação como cidadãos cultos, competentes e intervenientes numa sociedade plural e, também ela, polifónica. Analogamente, também a literatura nos permite conhecer o outro – e, nele, a nós mesmos – nos seus abismos, nas suas sombras e fulgurações. Se a literatura exige sempre compreensão e admite um olhar evangélico, também o contexto formativo por excelência de todas as crianças e jovens que vivem em Portugal desenvolve os níveis de compreensão envolvidos na leitura e na escrita, aplicados a situações e a projetos concretos; nele, também os cristãos encontram matéria para o seu olhar evangélico, como uma voz nessa polifonia.

Quererá isto dizer que está tudo bem? Não, de todo. Se nem muitos dos alunos no final do 12.º ano possuem os valores e as competências esperadas, muito menos estão habituados a ter voz, pois, apesar de terem passado 50 anos sobre o 25 de abril de 1974, a escola ainda não consegue generalizadamente anular, ou pelo menos atenuar, as diferenças que resultam de assimetrias socioeconómicas. Por sua vez, também os cristãos em Portugal não estão habituados a ter voz, como transparece de muitas lamentações dos leigos, frequentemente apenas sussurradas, nestes brevíssimos últimos tempos do Sínodo sobre a Sinodalidade. Voltando ao início, o Papa Francisco fala-nos da importância da literatura na “formação sacerdotal” e na “formação de todos os agentes pastorais e de qualquer cristão” (n.º 1), a qual nos cabe implementar. Mas, que voz têm os leigos nesta matéria? Mesmo relativamente à sua própria formação, a de “qualquer cristão”? A este propósito, veja-se a questão da instituição do ministério laical de catequista: entre ser criado (em 2021, pela Carta Apostólica Antiquum Ministerium), ter a sua operacionalização definida pelas Conferências Episcopais (2022 – CEP, Ministérios laicais para uma Igreja Ministerial e, em sequência, pelas Dioceses) e ser generalizadamente instituído quantos anos têm de decorrer?

Diante do exposto, esta Carta é de uma importância extraordinária, sobretudo por se dedicar a assunto aparentemente tão inútil e supérfluo, num mundo que tende a não valorizar as Humanidades. Aliás, relativamente ao contexto em que hoje lemos literatura, o Papa Francisco sublinha que cada ser humano quando lê, e em particular quando lê literatura, não é “o destinatário de uma mensagem edificante, mas uma pessoa que é ativamente solicitada a encaminhar-se para um terreno instável, onde as fronteiras entre salvação e perdição não estão a priori definidas e separadas” (n.º 29). Numa imagem expressiva, considera o leitor “semelhante a um jogador em campo: faz acontecer o jogo, ao mesmo tempo que o jogo acontece através dele, na medida em que está totalmente envolvido naquilo que faz”, pois, “Ao ler um romance ou uma obra poética, o leitor experimenta efetivamente “ser lido” pelas palavras que vai lendo”. Daqui resulta uma conclusão significativa: “O ato de ler é, pois, como um ato de “discernimento”, graças ao qual o leitor é implicado na primeira pessoa como “sujeito” da leitura e, ao mesmo tempo, como “objeto” do que lê” (n.º 29).

 

Próximo texto: Segunda-feira, dia 23 – A Literatura importa aos discursos e práticas eclesiais? Deveria!

 

Maria do Sameiro Pedro é professora adjunta de Língua e Literatura Portuguesas no Politécnico de Beja. Integrou a Comissão de Acompanhamento do Programa do Ensino do Português no 1º Ciclo e faz parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura 2027. Foi catequista de adultos (2019-2024) e é colaboradora do 7MARGENS.

 

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