O que é que aconteceu ao Natal?
Há dias foi a festa de Natal da escola dos meus filhos. Uma escola pública muito bem conceituada, onde os professores e os pais se envolvem para tornar possível um espetáculo de duas horas e meia, que enche um cinema inteiro. O palco estava muito giro, decorado com caixas gigantes a simular prendas, para dar contexto cénico às atuações dos miúdos. Tudo graças ao envolvimento pessoal de montes de gente que ofereceu o seu tempo para fazer aquilo. Admirável.
Mas voltei a ficar perplexa e triste, como todos os anos. Há três anos que vou a estas festas de Natal. No total já assisti a 27 atuações (nove turmas, portanto nove atuações por ano) e, até agora, não houve uma que falasse de Jesus e do presépio, da origem da festa do Natal na nossa cultura (cujas raízes são cristãs, quer se queira quer não). Não houve sequer nenhum turma que encenasse alguma estória que focasse o espírito de solidariedade e amor que é suposto ser o cerne desta festa. Nem uma.
Não peço muito: um conto, um poema, uma música, uma história lida pelos miúdos, sei lá, que fale, por exemplo, de alguém que está sozinho e passa a ter amigos no Natal. Alguém que não tem o que comer ou vestir, e é ajudado no Natal. Alguém que aprende a perdoar, a incluir, a amar de forma mais generosa no Natal. Uma família que está dispersa e se reúne e faz as pazes no Natal. Nada disso.
Este ano tivemos todo o tipo de músicas (muitas delas que não têm nada, mas mesmo nada a ver com o Natal, outras que têm a ver, mas focam sobretudo as prendas), espetáculos de dança ao som de Michael Jackson e dos Queen, uma peça de teatro sobre reciclagem e outra em que o Pai Natal recebia visitas de todas as personagens de contos infantis que podemos imaginar, desde a velha da casinha de chocolate à raposa matreira das uvas verdes.
Portanto, o que eu percebi foi: o capuchinho vermelho está bem, mas os reis magos não. Não acreditamos na realidade da Cinderela, mas ela pode estar presente no teatro do Natal. Mas Jesus não, nem as várias personagens da história do seu nascimento. Anjos que aparecem aos pastores? Nunca! Porque estamos num estado laico.
O resultado é que, na turma de cada um dos meus filhos, a maior parte dos meninos não sabe (!) o que é um presépio.
E, como se este vazio de conteúdo não fosse o suficiente, no final das atuações deste ano, houve a habitual entrega de presentes por parte da Junta de Freguesia e a diretora apresentou esse momento como o “momento mais importante da festa”.
Ora, eu sei que durante anos se impôs a religião cristã e que isso não era bom. Mas será impor a religião cristã contar aos nossos filhos esta história, mantermos viva esta parte da tradição? Mesmo que não acreditemos, podemos tirar dela lições, como tiramos das outras histórias que contamos e que sabemos não serem verdade. Podemos contar esta história como um conto. Um conto que ensina lições sobre a humildade, a perseverança ou o amor. Tudo depende de como se narra a história.
Temos um Pai Natal inventado pela Coca-Cola, inúmeros contos inventados pelos irmãos Grimm onde há lobos que comem crianças e pais que as abandonam na floresta. Temos um pinheiro importado dos países escandinavos e uma tradição de entrega de presentes que está a inundar o nosso planeta de lixo. Tudo isso aceitamos sem pestanejar. Mas uma turma, em 27, que resolvesse encenar a história original do Natal já não, já não está bem. Os professores não arriscam, nem os pais, não vá alguém ofender-se por lhe estarmos a querer impor a inquisição outra vez.
Fico indignada com isto e sinto-me sozinha, porque mais ninguém se queixa. E penso que muitas pessoas que acham isto tudo normal aqui na nossa sociedade, quando vão a África, à Índia ou à China, acham as tradições locais muito engraçadas e lamentam a homogeneização cultural americana que está a fazer esquecer as tradições locais. Dois pesos e duas medidas.
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