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7MARGENS/Antena 1

Igreja Católica deve pedir perdão pela sua atitude durante o Estado Novo

| 30/01/2024
Francisco Fanhais, Rita Mendonça Leite, Manuel Vilas Boas, guerra colonial, 25 de Abril, Estado Novo

Francisco Fanhais, Rita Mendonça Leite e Manuel Vilas Boas. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

A Igreja Católica em Portugal deve pedir perdão por boa parte das suas atitudes durante a ditadura do Estado Novo, coincidem os três convidados da última emissão do programa 7MARGENS na Antena 1. Rita Mendonça Leite, historiadora, directora-adjunta do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica, diz que “permanece uma certa ideia” da “conivência que em determinadas alturas existiu” entre boa parte da hierarquia católica e o regime. “Se essa ideia permanece justifica-se que seja feito esse pedido de perdão, em nome do esclarecimento do que foi o papel da Igreja Católica”.

Referindo-se ao caso de Moçambique e a bispos como Manuel Vieira Pinto, de Nampula, que foi expulso poucos dias antes do 25 de Abril de 1974, a historiadora acrescenta: “Se esse pedido de perdão for também acompanhado das referências [aos chamados] católicos progressistas ou ao papel de bispos como Manuel Vieira Pinto, fará todo o sentido.”

Manuel Vilas Boas, jornalista, que foi ordenado padre da Sociedade Missionária da Boa Nova em Agosto de 1974, depois de ter estado mais de dois anos em Nampula, considera que “perdão diz também o luto”. Citando a nota introdutória ao livro escrita pelo antigo Presidente da República, Ramalho Eanes, ao livro Moçambique – da Colonização à Guerra Colonial – A Intervenção da Igreja Católica (ed. Paulinas), refere que Portugal “ainda não fez luto pela tragédia que foi a guerra colonial: fizemos a guerra, alimentámo-la e sofremo-la”, afirma.

Vilas Boas é coautor, com Amadeu Araújo, do livro citado, que faz um percurso pela história da colonização portuguesa e pela presença da Igreja Católica em Moçambique. Nascido em 1948 em Barcelos, Manuel Vilas Boas especializou-se em jornalismo audiovisual em Lyon e em Lisboa. Em 1979, com o padre António Rego, iniciou o programa 70×7, que se mantém ainda na RTP.

Na última parte, o livro inclui entrevistas, histórias de missionários e de episódios de conflitos com o poder colonial, incluindo do então bispo de Nampula (entre 1967 e 1998), Manuel Vieira Pinto que, se fosse vivo, teria feito 100 anos em Dezembro último.

Vieira Pinto viria a ser expulso de Moçambique em Abril de 1974, mas esse não foi o único episódio de tensão entre a Igreja Católica e o regime na então colónia portuguesa. Recordando vários acontecimentos e protagonistas, o livro pretende mesmo “fazer a memória de um homem livre”, uma das pessoas decisivas “para a paz em Moçambique”, que entendeu “como se podia lidar com um território em guerra”, diz o autor.

 

A guerra e a oposição católica

Francisco Fanhais, guerra colonial, 25 de Abril, Estado Novo, Música

Francisco Fanhais: “Não posso esquecer os muitos outros colegas que sofreram e foram ostracizados e marginalizados justamente por causa das suas posições políticas”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Francisco Fanhais, que era padre, deu voz a músicas como a Cantata da Paz ou Canção da Cidade Nova, e foi obrigado a exilar-se em Paris, considera que, sem querer ser “juiz em causa própria”, não pode esquecer os “muitos outros colegas que sofreram e foram ostracizados e marginalizados justamente por causa das suas posições políticas”. Por isso também afirma que “devia haver um pedido de perdão”.

Nascido em 1941 na Praia do Ribatejo (Vila Nova da Barquinha), ordenado padre em 1964 no Patriarcado de Lisboa, Fanhais começou a cantar e, entre a música e o seu envolvimento na oposição à guerra e à ditadura, acabou por deixar o ministério. Proibido de leccionar em escolas oficiais, exilou-se em França em 1971, regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974, acompanhou Zeca Afonso em muitas lides musicais – preside hoje, aliás, à Associação José Afonso.

“A guerra era um dos temas fundamentais da minha intervenção e antes de cantar eu dizia sempre qualquer coisa” alusiva à situação que se vivia, recorda, referindo também um anúncio que dizia “há mar e mar, há ir e voltar”. “Eu usava esse refrão e dizia: ‘há mar e ultramar, há ir e ficar’.” E a guerra, afirma ainda, foi um dos pontos fundamentais de tanta resistência por parte de grupos católicos, leigos e padres, para a denúncia da situação política que se vivia na altura”.

Aludindo a um dos versos de Sophia de Mello Breyner na Cantata da Paz – “o nosso tempo é pecado organizado” – Fanhais diz que isso acontece ainda “em muitos aspectos”. A canção, com música de Rui Paz, foi cantada pela primeira vez em 1 de Janeiro de 1969: na vigília do Dia Mundial da Paz na Igreja de São Domingos, em Lisboa, com a participação do cardeal-patriarca Gonçalves Cerejeira, “não houve a mínima referência à Guerra Colonial”, lembra Francisco Fanhais. “No fim, um grupo de nós dirigimo-nos à sacristia e disse ao cardeal e outras autoridades: agora vamos continuar a vigília à nossa maneira.”

Até às cinco da manhã, o grupo permaneceu na igreja “rezando, cantando, lendo passagens da Bíblia, lendo testemunhos de soldados que estavam na guerra e foi aí que pela primeira vez foi cantado a Cantata da Paz”. Fanhais acrescenta: “Lembro-me muito bem do prior de São Domingos aparecer e dizer – eu tinha 28 anos – ó rapazinho, cala lá a viola, cala lá a viola. Não calámos coisíssima nenhuma.”

 

As igrejas, “centros de subversão”

Rita Mendonça Leite,, Guerra Colonial, 25 de Abril, Estado Novo, Centro de Estudos de História Religiosa

Rita Mendonça Leite: Vários bispos contribuíram para processos de inculturação do cristianismo “que não eram compatíveis” com a ideia da “portugalização”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Os católicos que se opunham ao regime eram “um grupo bastante grande que não” se conformava “com a cumplicidade e o silêncio da Igreja” institucional “em relação à Guerra Colonial e à ditadura”, recorda Fanhais. E tomando um documento da PIDE, o actual presidente da Associação José Afonso lê o que um dos agentes da polícia política do regime escrevia a dada altura: “As igrejas deste distrito [de Setúbal, no caso] deixaram de ser casas de oração para serem centros de subversão onde actuam impunemente (…) tomando o lugar [dos católicos] indivíduos na sua maioria conhecidos como ateus (…) para os quais a religião não conta a não ser para atingir os seus fins.”

Durante a conversa, Fanhais recorda as vezes em que Zeca Afonso lhe dizia, como já contou na entrevista que deu ao 7MARGENS em Maio do ano passado: “Se os meus amigos marxistas soubessem que eu leio São João da Cruz, Santo Agostinho, Santa Teresa d’Ávila, o que é que eles iriam pensar de mim?…”

No CEHR estão guardadas muitas dessas histórias. Rita Mendonça Leite anuncia no programa que o Centro está a desenvolver projectos de investigação em torno de figuras da oposição católica ao regime como Manuela Silva, Maria da Conceição Moita ou Luís Moita, a partir de espólios pessoais que foram confiados ao CEHR.

Rita Mendonça Leite é uma das coordenadoras do seminário sobre “Permanências, ruturas e recomposições, que, até 2026, investiga a relação da Igreja Católica com o 25 de Abril. Licenciada em História, Rita Leite aprofundou no mestrado o protestantismo no Portugal contemporâneo e no doutoramento tratou o papel cultural e religioso da Sociedade Bíblica Portuguesa – investigação entretanto publicada pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda.

Moçambique teve três grandes líderes religiosos, que Manuel Vilas Boas evoca no debate: António Barroso, no final do século XIX, Sebastião Soares de Resende, em meados do século XX e Vieira Pinto a partir da década de 1960. “São três homens que decidiram da qualidade da missionação em Moçambique”, afirma o jornalista, autor do programa Encontros com o Património, na TSF. E Soares de Resende dará “um acento muito especial da Igreja Católica na evangelização – os direitos humanos”.

Falando do papel desses bispos, Rita Mendonça Leite diz que eles contribuíram para “processos de inculturação [do cristianismo] que não eram compatíveis” com a ideia da “portugalização”. A questão da guerra que se coloca a Vieira Pinto leva-o também a posicionar-se “nesse movimento de colonização versus descolonização”.

 

Seminários, notícias e sugestões

Manuel Vilas Boas, Guerra Colonial, 25 de Abril, Estado Novo, Jornalismo, Moçambique,

Manuel Vilas Boas, co-autor do livro Moçambique, da Colonização à Guerra Colonial – A Intervenção da Igreja Católica, um dos pretextos para o debate. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

O CEHR, que já organizou um seminário no Porto sobre os cristãos e a guerra, tem previstos para o seminário que decorre em Lisboa temas como os internacionalismos religiosos e a Guerra Colonial, uma fábrica católica em Leiria, o papel da imprensa católica, a oração como resistência ou a presença da Igreja Católica na escola pública. (ver programa na página do CEHR).

Na parte final do debate, Manuel Vilas Boas escolheu a notícia dos 365 milhões de cristãos perseguidos em todo o mundo, o mais alto das últimas três décadas e com tendência a aumentar. Francisco Fanhais referiu a notícia do concerto da Orquestra Maré do Amanhã, que actua em Lisboa na próxima sexta-feira, dia 2; e Rita Mendonça Leite citou o anúncio da visita a Portugal do primaz da Comunhão Anglicana, o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, nos dias 17-18 de Fevereiro.

Como sugestões, Manuel Vilas Boas deixa ao filme Rosinha e Outros Bichos do Mato, de Marta Pessoa, que trata o “racismo suave” do colonialismo português. Fanhais refere As Outras Crónicas, de António Lobo Antunes, e Rita Mendonça Leite sugere uma visita ao Centro de Conhecimento Luiza Andaluz, no centenário da congregação fundada por uma mulher atenta às necessidades das jovens mais desfavorecidas da sua época.

O livro Moçambique, da Colonização à Guerra Colonial – A Intervenção da Igreja Católica será apresentado no Teatro São Luiz, em Lisboa, no próximo sábado, dia 3, às 16h, numa sessão que contará com a intervenção do historiador José Pacheco Pereira e a moderação do jornalista Fernando Alves. Francisco Fanhais, Manuel Freire e Manuel Campos cantarão músicas do tempo da Guerra Colonial e haverá ainda uma vídeo-mensagem do escritor moçambicano Mia Couto. A entrada é livre, mas sujeita a reserva de lugar (tendo em conta a limitação do espaço) para o endereço mvbtsf@gmail.com, até ao final do dia 1 de Fevereiro, quinta-feira.

O debate do 7MARGENS pode ser ouvido na íntegra em https://www.rtp.pt/play/p12257/e742266/7-margens

 

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