Joaquín Martínez, inocente e condenado à morte

| 30 Nov 18 | Direitos Humanos, Estado, Política e Religiões, Pessoas

“Fui para o corredor da morte com 25 anos, em 1996. Quando fecharam a porta da minha cela e me vi sozinho, comecei a chorar. Não acreditava em Deus, sentia-me abandonado. Não podia compreender porque é que isto me tinha acontecido.” O relato é de Joaquín Martínez, 46 anos, equatoriano de nascimento. Em Portugal a convite da Comunidade de Sant’Egídio, Joaquín contou a sua história na Capela do Rato, em Lisboa, nesta quinta-feira, 29 de novembro. Num depoimento emocional, o ativista pretendeu transmitir a cruel realidade da pena de morte e a mais cruel realidade de ter sido condenado mesmo sendo inocente.

Em pequeno, o equatoriano viveu em Espanha por um curto período de tempo antes de emigrar para os Estados Unidos. Aqui permaneceria a maior parte da sua vida adulta – primeiro em Nova Iorque, depois em Miami: “Venho de uma boa família. Tive uma boa educação, estudei, não sou o prisioneiro típico.”

Aos 24 anos, vivia em Tampa, na Flórida, e estava a concretizar o “sonho americano”: tinha um bom carro, uma casa na praia e duas filhas pequenas. No entanto, estava a passar por um divórcio complicado, algo que, diz em jeito de brincadeira, “também fazer parte do sonho americano”.

Na altura, um caso de um assassinato de um casal teve grande atenção dos média: o homem era filho de um membro da polícia, chefe do departamento de provas.

No dia em que Sloane Martínez, ex-mulher de Joaquín Martínez, contactou a polícia, ela tinha descoberto que Joaquín planeava faltar à visita semanal das filhas para ir de férias com a sua nova namorada. 

Depois de uma longa batalha em tribunal, com provas fabricadas e mentiras no depoimento da ex-mulher, Joaquín Martínez acaba no corredor da morte: “Infelizmente, queriam alguém para culpar e eu estava ali. Nos EUA, para ser condenado à pena de morte, o crime tem de reunir três coisas: ser cruel, atroz e inumano. E este tinha as três”, conta. “Foram três anos que estive no corredor da morte, mas pareceram trinta.”

Até então, Martínez era um forte apoiante da pena de morte. Depois de se ter visto nessa situação, mudou de ideias – mas por causa das pessoas que conheceu.

Culpado na vida, inocente na morte

No seu testemunho, Joaquín partilhou a história de Frank Lee Smith, colega e amigo no corredor da morte: “O Frank estava há catorze anos no corredor da morte. Um homem grande, enorme mesmo, de raça negra. No início, quando lá cheguei, via-o como assassino: ele tinha sido acusado de matar e violar uma menina de nove anos. Passado algum tempo, comecei a vê-lo como uma pessoa, tinha pena dele.”

Estar catorze anos no corredor da morte, conta, tinha deixado feridas muito profundas em Frank: “Gritava muito durante o sono. Às vezes até gritava que era inocente. Frequentemente, tentávamos que ele se calasse porque, se gritasse muito alto, os guardas iam lá dar-lhe pancada.”

Uma das vezes em que isso sucedeu, acabou na enfermaria e desapareceu durante um ano. “Achávamos que o tinham matado. Mas um dia, tive eu próprio que ir à enfermaria. E estava lá o Frank.” O amigo já não era um grande e forte, mas um homem pequeno e magro, algemado a uma cama. Tinha cancro e estava a morrer: “O problema não é ele ser culpado ou não, o problema é que ele morre sozinho no corredor da morte, após lá ter estado catorze anos, sem visitas de ninguém”, contou, emocionando-se.

Onze meses após a sua morte, em Dezembro de 2000, Frank Lee Smith foi declarado inocente, com base em testes de DNA que permitiram descobrir o verdadeiro culpado do crime. Frank Lee Smith estava inocente

“O Frank tocou-me de forma muito especial, mudou a percepção na forma de eu ver a vida. A cada sítio que vou, falo sempre dele. Porque pessoas como ele são a razão que me levam a vir aqui.”

No ano seguinte, após muito apoio dos pais, atenção dos média e uma quantidade de campanhas de organizações, o caso de Joaquín Martínez teve direito a um novo julgamento. 

Ao fim de três anos no corredor, Martínez foi declarado inocente: “Sou um sortudo, recebi um apoio que ninguém ali recebeu. Se eu fosse de outra minoria étnica e se não tivesse a família que tenho, estaria morto.”

Desde que está livre, refez a sua vida: mudou-se para Espanha, casou, teve mais três filhos e as primeiras duas filhas já lhe deram netos. Mas, conta, não foi fácil: “Quando saí, tudo me fazia chorar. Quando me perguntaram o que queria comer num restaurante chorei, porque tinha estado três anos sem liberdade de escolha na comida. Quando me sentava à mesa e havia talheres, chorava, porque comi durante três anos com uma colher de plástico, todos os dias.”

Perguntavam-lhe muitas vezes se continuaria a ser contra a pena de morte se a vítima fosse um seu ente querido. Durante algum tempo não teve resposta. Mas, em 2003, o seu pai foi atropelado em frente a um hospital, por um jovem de 17 anos, acabando por morrer.

“Antes de estar no corredor da morte, defendia a pena de morte porque achava que isso traria consolo às famílias das vítimas. Naquele momento, percebi que não havia nada que alivie a dor, nem mesmo matar quem o tinha feito.”

Esta, diz Joaquín, é a lição que quer que todos aprendam: “Não falo contra a pena de morte por estar contra os norte-americanos, mas sim por aquilo que a pena de morte representa – a falta de compaixão e amor pelo próximo.”

Para o futuro, quer continuar a ser ativista pela causa, porque considera que é possível fazer progressos: 

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Cultura e artes

A beleza num livro de aforismos de Tolentino Mendonça

Um novo livro do novo cardeal português foi ontem posto à venda. Uma Beleza Que nos Pertence é uma colecção de aforismos e citações, retirados dos seus outros livros de ensaio e crónicas, “acerca do sentido da vida, a beleza das coisas, a presença de Deus, as dúvidas e as incertezas espirituais dos nossos dias”, segundo a nota de imprensa da editora Quetzal.

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Arte e arquitectura religiosa com semana cheia em Lisboa

Visitas à arte e arquitecura de igrejas e conventos e um curso livre sobre Arte Moderna e Arte da Igreja são várias iniciativas previstas para os próximos oito dias em Lisboa. O curso decorrerá na Capela do Rato (Lisboa), entre segunda e sexta da próxima semana (dias 23 a 27) e na Igreja de Moscavide (sábado, 28) e pretende evoca o livro publicado há 60 anos pelo padre Manuel Mendes Atanásio, mas também os 50 anos do fim do MRAR.

Pessoas

Sete Partidas

Hoje não há missa

Na celebração dos 70 anos da República Popular da China (RPC), que se assinalam no próximo dia 1 de outubro, são muitas as manifestações militares, políticas, culturais e até religiosas que se têm desenvolvido desde meados de setembro. Uma das mais recentes foi o hastear da bandeira chinesa em igrejas católicas, acompanhado por orações pela pátria.

Visto e Ouvido

Agenda

Out
9
Qua
Apresentação da colecção “Estudos de Religião” @ Biblioteca da Imprensa Nacional
Out 9@18:30_20:00

Apresentação a cargo de Alfredo Teixeira.

A colecção inicia-se com três títulos: A religião no Espaço Público Português, de Helena Vilaça e Maria João Oliveira; A Teologia Ficcional de José Saramago – Aproximações entre Romance e Reflexão Teológica, de Mario Cappelli; e Livro, Texto e Autoridade – Diversificação Religiosa com a Sociedade Bíblica em Portugal, de Rita Mendonça Leite.

Entrada livre, sujeita a confirmação para rsff@incm.pt.

 

Out
11
Sex
Oficina sobre abuso sexual, com o padre jesuíta Hans Zollner @ Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais
Out 11@18:00_19:30

O jesuíta Hans Zollner, membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, vai estar em Braga no próximo mês, onde fará um workshop sobre abuso sexual de menores. O encontro será organizado pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) – pólo de Braga (Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais), e decorrerá no dia 11 de outubro, das 18.00 às 19.30, e terá como tema «Abuso infantil – Até que ponto estou eu e a minha organização preparada para reconhecer e lidar com casos?».

O workshop vai ser liderado pelo jesuíta que é psicólogo, presidente do Centro de Proteção de Crianças da Universidade Gregoriana e membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, criada pelo Papa Francisco em 2014, assim como pela Irmã Karolin Kuhn, colaboradora da Comissão para a Proteção de Menores.

A entrada é livre, mais sujeita a inscrição; mais informação aqui.

Nov
8
Sex
Colóquio internacional Teotopias – Sophia, “Trazida ao espanto da luz” @ Univ. Católica Portuguesa - Polo do Porto
Nov 8@09:00_19:30

Fundacional para a percepção e expressão do mistério, a linguagem poética é lugar de uma articulação paradoxal, nada acrescentando à representação descritiva do mundo [Ricoeur]. Encontrando-se o positivismo teológico em crise, paradigma que sempre cedeu demasiado à obsessão pela verdade, tem-se vindo a notar um crescente interesse pelo estudo teológico de produções literárias como lugares de redenção da linguagem referencial, própria do discurso tradicional da teologia. Na sua performatividade quase litúrgica, a linguagem poética aproxima o objecto do discurso teológico do seu eixo verdadeiramente referencial: “a transluminosa treva do Silêncio” [Pseudo-Dionísio Areopagita].

Cátedra Poesia e Transcendência | Sophia de Mello Breyner [UCP Porto], em parceria com a Faculdade de Teologia e o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, organiza um congresso no âmbito das hermenêuticas do religioso no espaço literário, com especial incidência sobre a sua dimensão poética.
O colóquio terá lugar na Universidade Católica Portuguesa | Porto, nos dias 8 e 9 de novembro de 2019, e dará particular atenção aos seguintes eixos temáticos: linguagem poética e linguagem teológica: continuidades e descontinuidades; linguagem poética e linguagem mística: inter[con]textualidades; linguagem poética e sagrado: aproximações estético-fenomenológicas.

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Entre margens

Manuela Silva: um olhar inteiro, justo e solidário sobre a Terra inteira novidade

Esperávamos a sua partida, mas acreditávamos que talvez fosse possível ainda continuar connosco. A Manuela Silva iniciou segunda-feira (7 de outubro) uma grande viagem e deixou-nos. Hoje, já são muitas as notícias e os testemunhos sobre quem foi e como foram envolvidos aqueles que tiveram o privilégio de com ela privar. Já não há muito para dizer, ou talvez esteja ainda tudo para dizer, porque importa que tudo continue a ser dito.

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O nome de Adela Cortina é conhecido e respeitado na filosofia contemporânea, nomeadamente nos campos da filosofia política e da ética aplicada. Num dos seus recentes livros cunhou o conceito de “aporofobia”, dissertando sobre o modo como a pobreza é encarada na sociedade actual e como tal situação é incompatível com a democracia, pois esta implica e exige o direito à inclusão.

Igreja Católica: que dizes do absentismo eleitoral?

A abstenção foi, mais uma vez, a grande vencedora das últimas eleições. É uma das doenças da nossa democracia. Não se pode continuar a demonstrar a perplexidade por tão expressa falta de cidadania, só depois de se encerrarem as urnas de voto. É um mal que tem de ser atacado rapidamente, pois as suas causas já estão bem identificadas.

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